Monumento ao Maracatu pilhado

No Mês da Consciência Negra, o #OxeRecife não pode se omitir. Depois da Ponte da Boa Vista e de poste e lampiões do Pátio de São Pedro, os vândalos estão pilhando  o Monumento ao Maracatu, que fica  nos jardins externos do Forte das Cinco Pontas, no Bairro de São José. A escultura de Abelardo da Hora (1924 – 2014), inaugurada em 2008, além de ter a assinatura do consagrado artista, é o maior conjunto em bronze nas ruas do Recife. Daqui a pouco, no entanto, não será mais: já levaram o pálio, o estandarte e alfaia. Quem vê a escultura, nem percebe mais que aquilo é um maracatu, porque os símbolos da manifestação estão sumindo. Compare só a foto de antes (acima) e a de depois da pilhagem (abaixo) e veja as diferenças.

A escultura  fica de frente para a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, no Pátio do Terço. O Pátio é conhecido pelas suas tradições de cultura negra, incluindo a Noite dos Tambores Silenciosos, motivo que norteou a escolha do local para a colocação da obra de arte. O Monumento ao Maracatu começou a ter suas peças surrupiadas em 2018. Desde então, nada foi feito. E a cada dia, levam mais um pedacinho. O grupo de oito esculturas  permanece sem o pálio, um dos símbolos da manifestação cultural que é tão forte em Pernambuco. Estive no Bairro de São José no último domingo, com dois amigos que residem em Salvador. E eles ficaram chocados com a situação dos equipamentos públicos e obras de arte nas ruas da nossa cidade. Raro é aquele que não foi castigado por atos de vandalismo,que rendem prejuízos anuais superiores a R$ 2 milhões anuais aos cofres públicos.

Comparem o Monumento ao Maracatu original (no alto) e o que dele restou, dez anos depois (foto Letícia Lins)

O #OxeRecife procurou a Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb), responsável por manutenção das praças, jardins públicos e equipamentos urbanos. Mas não obteve nenhuma informação quanto a uma provável restauração do monumento, que reverencia Dona Santa (1877-1962). Com sua história marcando presença hoje no Museu do Homem do Nordeste, Dona Santa comandava o Nação Elefante. Era “rainha de todas as rainhas dos nossos maracatus, que transformou o Recife na sua corte imperial”, segundo placa colocada no pedestal do monumento, que provavelmente só não foi subtraído porque é feito de concreto, revestido com granito. E deve pesar boas toneladas.

Se os órgãos de segurança não vigiam, com certeza, os crimes contra o patrimônio vão aumentar. Deve ser uma mesma quadrilha que está roubando esses materiais, pois tenho observado no centro do Recife o sumiço de muitas peças de bronze. Ou de ferro.  E a metodologia de pilhar parece ser a mesma. Quando não se consegue a peça inteira, corta-se e se leva aos pedaços (como na Ponte da Boa Vista e no Pátio). Daqui a pouco não vai sobrar nem a Rainha, nem o Rei, nem a Dama das Bonecas, nem o Porta Estandarte, nem o carregador do Elefante, nem o ogan (batuqueiro). Já levaram o pálio, a alfaia e o estandarte. Não sei como ainda não carregaram a alegoria do elefante, a boneca nem as espadas do Rei do Maracatu. Se os órgãos de segurança “dormirem”, em pouco tempo não teremos mais lampiões, nem postes antigos e muito menos estatuas de bronze ou ferro nas ruas do Recife. Pelo que se percebe, a terra dos mascates está virando o paraíso dos larápios.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Sol Pulquério/ Divulgação/ PCR e Letícia Lins

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