Casas de farinha: Turismo Comunitário

Muito tradicionais no interior do Nordeste, principalmente na agricultura familiar, as casas de farinha começam, pouco a pouco, a funcionar também como alternativas de turismo comunitário. Pelo menos, foi o que observei nas duas últimas trilhas que participei com o Grupo Andarapé. A primeira foi no município de Moreno, onde fiz uma caminhada há mais ou menos um mês. A segunda em Ipojuca, onde fica um dos principais destinos turísticos do Brasil, com praias paradisíacas como Porto de Galinhas, Muro Alto e Maracaípe. As duas cidades são localizadas na Região Metropolitana do Recife.

No último sábado, junto com o Andarapé e o Gaitero Ecoturismo fiz uma caminhada sobre a qual falarei aqui em detalhes depois, que teve a ver com artes plásticas, educação ambiental, história, flutuação no rio. E paramos para almoçar uma deliciosa comida caseira, em um sítio já conhecido como Casa de Farinha da Dilma. Comida caseira, simples, mas muito gostosa incluindo a sobremesa. Em meio a fruteiras, galinhas ciscando e ao silêncio da natureza, fomos brindados com a cozinha da Dilma, que já estava nos esperando, com mesas e cadeiras no alpendre onde fica a casa de farinha. Com o forno desligado, o calor não nos incomodou e ainda ganhamos a carícia de brisa suave que vinha do mar.  Melhor, contamos com fundo musical, com o som de pandeiro e gaita de uma “canja” de Nilo Baj, que nos acompanhou na caminhada. A refeição foi bem em conta, uns R$ 20 para cada pessoa, tirando a bebida.

O turismo termina sendo uma alternativa interessante, para quem vive só da agricultura. Ninguém reclamou do tempero nem das quantidades. A  Casa de Farinha  da Dilma fica na área rural de Maracaípe, praia vizinha a Porto de Galinhas. O sítio da família de Dilma terminou virando ponto de apoio para o grupo.  Mês passado, estive em Moreno, em uma outra Casa de Farinha, dessa vez no Engenho Una, que foi palco  recente de disputa ferrenha entre os senhores das terras e famílias que há décadas moram no local. Com a ajuda da Comissão Pastoral da Terra (CPT) elas conseguiram evitar a expulsão e hoje plantam hortaliças que comercializam em feiras orgânicas do Recife.

Mesmo assim, a nossa visita ao engenho – também liderada pelo Grupo Andarapé , em parceria com o grupo Caminhos de Moreno – não deixou de representar um reforço para a economia local. Em setembro, nossa caminhada saiu da área urbana de Moreno – a  28 quilômetros do Recife – e terminou justamente na Casa de Farinha que estava funcionando a todo vapor. Muitos dos integrantes do passeio nunca nem tinham visto antes como produto tão popular no Nordeste é fabricado. Teve gente que comprou farinha, tapiocas, bolos de massa e outras iguarias, incluindo o beiju, produzidos pelas famílias de posseiros que vivem do que plantam no Engenho Una.  O Andarapé ainda providenciou um kit com produtos da Casa de Farinha do Engenho Una, que foi distribuído como brinde para cada um dos integrantes da excursão.

No último sábado, em Maracaípe, Ipojuca,  a Casa de Farinha da Dilma foi um intervalo no meio da caminhada que passou por manguezais, restinga,  e o que resta de Mata Atlântica. Porque após o almoço, o passeio seguiu. Sinceramente, eu acho muito interessante esse tipo de turismo, pois integra grupos e pessoas que normalmente ficavam à margem deles. No Norte do Brasil, perto da Flona (Floresta Nacional do Tapajós),  no Pará, encontrei vários exemplos de turismo comunitário que ajudam o dinheiro a circular onde antes ele chegava com dificuldade. Então, em Pernambuco, vamos fortalecer essa turma, que dá duro na enxada, nos facões (descascando à mandioca), e que suporta altas temperaturas do forno enquanto passa o rodo na farinha que nos alimenta. É importante que a renda do turismo não fique restrita aos hotéis de luxo, às empresas aéreas, às grandes operadoras. É preciso que ela se espalhe pelos sítios, pelas áreas rurais, pelos morros (como vem acontecendo com o VisitMacaxeira). Turismo é isso. Tem que ter criatividade, sustentabilidade e democratização dos recursos por ele gerado.

Veja, no vídeo abaixo, momento do almoço na Casa de Farinha da Dilma, com “canja” de Nilo Baj , na gaita e no pandeiro:

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Serviço:
Andarapé Trilhas – (081) 999898896
Gaitero Ecoturismo – (081) 984212866 ou 081 996347026, @gaiteroecoturismo
Informações: www.gateiroecotur.com

Texto, fotos e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

 

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