Arqueólogos revolvem o passado no antigo ” Engenho do Meio” da Várzea

Para quem vive no conturbado ambiente urbano ou frequenta o campus da Universidade Federal de Pernambuco, fica difícil imaginar que toda aquela área era coberta por engenhos de cana-de-açúcar. Mas era o que ocorria a partir do século 17, na chamada Várzea do Capibaribe.  E “foi na Várzea, no Engenho São João, de propriedade de João Fernandes Vieira  ( 1610-1681), que em 1645 se discutiram os planos de revolta contra os holandeses”. Pelo menos, é o que afirma Pereira da Costa (1851-1923), no livro  Arredores do Recife, no qual descreve a origem de vários bairros da nossa cidade.

Também, segundo o mesmo autor, foi naquela antiga Freguesia, que Fernandes Vieira “restaurou a Santa Casa da Misericórdia de Olinda, e levantou hospital para o curativo dos soldados feridos na campanha; e ali funcionou o Senado da Câmara da mesma cidade, durante todo o tempo da luta, como consta em vários documentos que ainda existem, lavrados na Várzea do Capibaribe”. No caso da antiga Várzea do Capibaribe, eram tantos os engenhos ali localizados no século 17, que deram origem a outros bairros, tais quais os conhecemos hoje, incluindo a própria Várzea, assim como  Torre, Madalena, Apipucos, Monteiro, Casa Forte, Curado. Mas é o antigo Engenho do Meio (que também virou nome de bairro) que mobiliza, no momento, uma equipe de arqueólogos e estudantes da Universidade Federal de Pernambuco. É que o engenho pertenceu ao militar, um dos líderes das lutas pela expulsão dos holandeses no estado.

Fernandes Vieira possuía dois outros (o São João e o Santo Antônio), mas era no Engenho do Meio que mantinha a casa grande, usada como residência. No local, há hoje um monumento para assinalar sua importância histórica (foto vertical, acima).

Essa casa grande (sec 19), no antigo Engenho do Meio, ficava no mesmo local da residência de Fernandes Vieira.

Afirma Mário Sette (1851-1923), em Terra Pernambucana, que era no grande alpendre da casa grande que o militar “gozava de pequena trégua de repouso na sua agitada vida de guerrilheiro”. Para conhecer melhor a realidade daqueles tempos tão distantes, encontra-se em execução o Projeto Arqueologia Histórica no Engenho do Meio: Pesquisa, Ensino e Extensão Comunitária no Campus da Ufpe. É que o antigo engenho fica em terras que pertencem hoje à Universidade Federal de Pernambuco. O projeto é coordenado pelo professor Scott J Allen e pela arqueóloga Carolina Sá Espínola.

Soube das escavações em meu último passeio com o Grupo Andarapé por terras da antiga Várzea do Capibaribe, que teve como guia nosso amigo Carlos Alberto Alves da Silva. Ele mora na Várzea há mais de três décadas, e conhece aquelas redondezas como ninguém. E, claro, fiquei curiosa quando ele mostrou as escavações. Então procurei o Professor Scott Allen, da Ufpe.  O arqueólogo relatou que as escavações até agora realizadas já permitiram a retirada de 3.299 fragmentos de artefatos, que variam  de tigelas de faiança quebradas a pedaços de tijolos dos alicerces da antiga casa grande de Fernandes Vieira. Alicerce, aliás, foi só o que restou da antiga casa grande do histórico personagem. E as bases do casarão original foram encontradas nas escavações (foto inferior). Posteriormente, aconteceram reformas no imóvel que pertenceu a Fernandes Vieira, e elas foram se sucedendo até o século 19 e início do 20. A última casa grande a funcionar no mesmo local que se tem notícia é a da foto acima, que também não existe mais, pois foi totalmente demolida.

Para Scott Allen, além de desvendar a história, a atividade tornou-se mais prática para ele e seus alunos. “Fizemos pesquisas no Engenho Monjope (em Igarassu), mas  para chegar lá era um pesadelo. Enfrentávamos uma logística muito complicada e até o transporte era difícil e demorado”, comenta. “Agora, estamos com um sítio arqueológico no  próprio campus, o que é bom para a questão didática, a história e a extensão comunitária”, afirma. Com a pandemia, os trabalhos foram interrompidos, porém retomados em agosto. Scott diz não ter pressa. “O campus é patrimônio da União, e o trabalho será incorporado naqueles três eixos da Universidade”, diz.

Segundo Pereira da Costa, em Arredores do Recife, o Engenho do Meio  “confiscado pelos holandeses foi  depois vendido a Jacob Estacour e a João Fernandes Vieira, “achando-se tudo destruído, que não havia mais que só as terras, sendo então de novo levantado”. Já Mário Sette relata que foi naquele engenho queFernandes Vieira recebeu carta, enviada por Portugal, delegando-lhe uma missão complicada.

É que o Rei determinava que mandasse queimar todos os engenhos a região, ” a fim de evitar que os flamengos deles se aproveitassem, fabricando açúcar e vendendo-o para a Europa”. Ele teria recebido correspondência no no exato momento em que planejava um a ofensiva contra os invasores. Vieira teria achado a ordem do rei “cruel” e “contraproducente”, pois se cumprida à risca, “arruinaria os agricultores pernambucanos”.

Acrescenta  Mário Sette: “De pronto, o cabo de guerra resolveu não obedecer ao rei”. Deu, então, ordem ao administrador do seu engenho para que queimasse todo o seu canavial.  De acordo com o escritor,  atear fogo ao próprio canavial, foi  forma que encontrou para que a majestade “não pensasse haver ele desobedecido à ordem do rei por interesse próprio”. E explica Mário Sette: “Assim, salvou os outros canaviais pernambucanos com o sacrifício único dos seus”. Em 1685,  as terras da Várzea pertenciam a Dona Maria Cesar, viúva de Fernandes Vieira, estendendo-se a propriedade até a paróquia de Jaboatão” (dos Guararapes).  Ou seja, se transportado para os dias de hoje, propriedade de extensão tão grande não passaria de um tremendo “latifúndio”. Pelo menos é como o chamaríamos em pleno século 21.

Leia também
Vamos visitar o “rurbano” bairro da Várzea? História é o que não falta
A Várzea de “Nos tempos do Imperador”: Igreja ostenta a coroa na fachada
Na Várzea, jaqueira lembra escravizados e vira memória de história de amor
Secular Magitot em ruínas na Várzea
Fortim do Bass: inédita relíquia de areia dos tempos de Nassau
Documento revela: Riquezas da igreja incluíam o Engenho Monjope
Sessão Recife Nostalgia: Antônio Gomes revive o passado de Apipucos
Arte monumental e natureza generosa
Instituto Ricardo Brennand em festa
O ar refrigerado na mata sob  sol
No Dia da Amazônia, trilha pela Mata Atlântica
Boi da Mata agita a Várzea
Praça da Várzea: requalificada porém descaracterizada
Carlos planta 300 árvores e é confundido com professor
Moreno: uma história de assombração

Temporal: formigueiro e ninho de João de Barro à prova de chuva

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Scott Allen, Letícia Lins, e  reprodução da Internet

Compartilhe

2 comentários

  1. Como sempre, excelente seu texto Letícia, atiça o leitor a querer mais. Da Várzea do Capibaribe a Várzea contemporânea, são muitas histórias ainda não sabidas. Parabéns Letícia.

  2. Parabéns Letícia pelo excelente texto. Arqueólogo resolvem o passado no engenho do meio da Várzea. Instiga o leitor a querer mais. Amei

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.