Na Várzea: Jaqueira lembra escravizados e vira memória de história de amor

Aparentemente, a árvore da foto abaixo é uma jaqueira comum como tantas outras que aparecem em quintais e sítios que sobrevivem no Recife. Mas ao contrário das demais, ela tem muita história. A árvore é a mesma da foto antiga acima, em preto e branco, onde ela aparece frondosa, no terreno onde foi  plantada, no século 19, ao lado da casinha branca. Atualmente a planta vive comprimida entre um muro e um prédio do Conjunto Habitacional Morada Verde, na Rua Mário Campelo, na Várzea. E quase foi vítima da motosserra insana e de arboricídio.  Escapou por pouco. Por apelo dos moradores, que queriam preservar a memória  do histórico bairro. É que aquela planta é símbolo de uma bonita história de amor entre um francês e uma então escrava.

Mas também representa a memória da liberdade da população que vivia cativa nos engenhos e casas grandes de Pernambuco. O romance entre o estrangeiro e a escravizada teve final  feliz, embora a união representasse um escândalo para os padrões da época. Ele, branco, de olhos azuis, engenheiro vindo da França para trabalhar na implantação de maquinário daquela que seria a primeira usina a funcionar em Pernambuco, ao inaugurar sua caldeira a vapor em 1875. Na época, a maioria dos engenhos era do tipo banguê. O francês se chamava Júlio Adurand. Ele se apaixonou pela escrava Feliciana, que servia aos funcionários graduados no refeitório da Usina São João da Várzea. Feliciana era negra, escrava, analfabeta. Júlio contava as horas para fazer suas refeições, só para ver Feliciana, com seus grandes olhos negros, seios firmes, coxas grossas e ancas largas, que ele costumava admirar pelo tecido diáfano de suas vestes, quando ela se posicionava contra a luz.

Um dia, ele não resistiu e lhe deu um bilhete. Ingênua, Feliciana passou o bilhete à filha da patroa.  Mas esta contou à escrava que esta sim, era a destinatária da mensagem. Ela não acreditou.  Temendo que o funcionário quisesse se aproveitar sexualmente de Feliciana – como era comum os brancos fazerem na época –  a patroa, Dona Conceição Mariana Sá Barreto, colocou o francês contra a parede. “Quais suas intenções com Feliciana? Ela mora conosco desde pequena e não admitimos mal para com a menina”, afirmou. O francês explicou, então, que as intenções eram as melhores. Queria mesmo era casar com a garota. E assim foi feito. Alforriada, ela teve festa de casamento na Igreja Rosário dos Pretos (já demolida), e os dois viveram felizes,  na casinha da foto em preto e branco, semelhante às que a gente encontra, ainda hoje, em terras de antigos engenhos da família Brennand.

Plantada em um sítio em 1888, na Várzea, essa Jaqueira preserva uma história de amor e de liberdade.

Em maio de 1888, Felícia comia uma jaca na frente de casa, quando um amigo lhe contou que a Princesa Isabel havia assinado a Lei Áurea. Ele estava chegando da venda de verduras que fazia em domicílios no seu cavalo. E informou que não se falava em outra coisa nos bairros como Recife, Boa Vista, Santo Antônio, São José onde todos os negros já estavam libertos.  A notícia, segundo o livro, chegara pelo telégrafo. Feliz, Feliciana plantou um caroço da jaca que comia e disse que a árvore que ali nascesse seria uma homenagem a todos os negros que viveram e morreram em cativeiro.

Essa bela história, que daria um filme, me foi contada por  Carlos Alberto Alves da Silva, na caminhada com o Grupo Andarapé,  realizada  no bairro da Várzea, no último sábado.  A pedido de Ana Maria Almeida, Coordenadora do Andarapé, ele atuou como nosso guia no passeio pela Várzea.  A história está confirmada no livro Várzea, Lembranças de um Tempo que se foi, de Marcos Ferreira da Silva Sobrinho. No século 19, a Jaqueira cresceu no sítio que foi doado a Júlio, como presente de casamento pelos bons serviços prestados às empresas da família, e onde o casal morou por toda a vida. A casinha foi demolida na primeira década do século 21. Em foto feita pelo autor nos anos 1980, percebe-se a presença da Jaqueira que Feliciana transformou em símbolo do amor e da liberdade.  Há algum tempo, a árvore já em terreno de um condomínio, quase foi derrubada. Mas escapou da motosserra insana devido à mobilização da  professora Maria Antonieta Ferreira Vidal que, com seus alunos, cercou a árvore para que ela não caísse. Para Antonieta, que é irmã do autor do livro sobre a história da Várzea, a árvore tem que ser preservada. Virou uma relíquia.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Letícia Lins e reprodução de Marcos Ferreira Sobrinho,  no livro “Várzea, Lembranças de um Tempo que se foi”

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5 comentários

  1. Lindo Letícia. Amo a maneira como vc escreve, leve, doce, que deixa um colorido gostoso de se ler, esse texto é uma prova disso. Parabéns

  2. Ficamos felizes com tamanha veracidade dos fatos. Primeiro site que encontramos contando direitinho a nossa história. Parabéns pelo trabalho, pelo empenho e dedicação. O conteúdo está fantástico.

    Aproveitamos a oportunidade (pedimos licença), para deixar aqui o link do documentário dos ‘175 ano de Ereção Canônica da Paróquia da Várzea’, organizado pela Pastoral de Comunicação de nossa Paróquia:
    Canal no Youtube: Paróquia da Várzea
    https://youtu.be/mLSWsWdSZl8

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