Carlos planta 300 árvores no campus da Ufpe e é confundido com professor

Servidor público aposentado, Carlos Alberto Alves da Silva mora há 38 anos no bairro da Várzea. E aproveita o tempo livre para longas caminhadas no que resta da Mata Atlântica naquele ainda bucólico  e silencioso bairro do Recife. Também usa muito o campus da Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe) para os percursos matinais e, muitas vezes, atua como guia com grupos que exploram a cidade andando, como é o caso do Andarapé, que ele acompanhou no último sábado. O que muita gente não sabia, é que Carlinhos – como é mais conhecido –  tem uma mania, que ele considera uma “missão”: plantar árvores.

Já perdeu as contas das mudas que plantou na cidade. Só no campus da UFPE já são mais de 300, algumas das quais já são adultas. Tudo começou em um mês de agosto, normalmente conhecido pelos seus ventos fortes.  Um dia – ele não lembra o ano – encontrou várias árvores derrubadas pelo vento nos percursos na Cidade Universitária, que fica perto de sua residência da Várzea. “Nos dias seguintes, só via os troncos cortados, sem que ninguém plantasse nada para substituir as árvores que caíram”. Então, ele passou a levar mudas para o campus, para plantar nos vazios deixados pelas árvores que haviam tombado.  Começou repondo nas laterais da pista de Cooper.

“Depois fui para o laguinho, para o Cefiche, para a Faculdade de Engenharia”, diz. “Plantar está no sangue, faço isso desde que me entendo de gente”, diz. Lembra que quando morava em Dois Irmãos, também plantou várias mudas no campus da Universidade Federal Rural de Pernambuco, onde residia em uma vila para servidores (o pai era servidor da Ufrpe).  Na Ufpe, Carlinhos já é figura conhecida, porque sempre chega lá com uma muda para plantar. “Até quando a Ufpe estava totalmente fechada devido à pandemia, eu ia lá não só levar novas mudas como para cuidar das que haviam sido recentemente plantadas”, diz. “Plantar não é tudo, tem que cuidar”. Ele diz que conversa com o pessoal da capinação, para que as pequenas mudas não sejam confundidas com espécies indesejáveis. “O curioso é que tem muita gente que pensa que eu sou professor. E até tem gente que avisa. “Professor, aquela plantinha foi pisoteada”, diverte-se Carlinhos, que sempre acompanha o Grupo Andarapé.

Para chamar a atenção dos frequentadores do campus, Carlinhos coloca placas informando a espécie e, muitas vezes, dados sobre a importância nutricional das plantas, algumas  das quais começam a rarear em áreas urbanas, como jenipapo, macaíba, araçá, ubaia. “É uma forma de conscientizar as pessoas sobre a importância da arborização e da preservação de algumas espécies”, diz. Quando trabalhava na Fundação Joaquim Nabuco, ele comprou uma briga com alguns outros servidores que queriam derrubar várias árvores no pátio da hoje Associação de Servidores da Fundaj, que fica em Apipucos. Queriam derrubar tudo, inclusive mangueiras seculares para construção da sede e de um campo de futebol. Mas depois da minha luta e de alguns outros funcionários da Fundação, as árvores foram preservadas. “O campo foi implantado em tamanho menor do que o previsto e a sede terminou sendo construída em formato de L para preservar o verde”. Bom exemplo, o de Carlinhos, nesse Recife do arboricídio e da motosserra insana!

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação / Andarapé

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