Boi da Macuca: no céu, o frevo e o forró

A cultura do Recife está bem mais pobre. Depois de vários dias internado, José Oliveira Rocha, conhecido como Zé da Macuca, passou dessa para outra. Levou a sanfona, a zabumba e o triângulo para o céu. E também o Boi da Macuca, o “boi”  mais simpático de Pernambuco. E que ao longo das três últimas décadas, virou presença obrigatória nas duas maiores festas populares do Estado.

O “Boi” era seguido por milhares de pessoas tanto no carnaval quanto em festas juninas de Olinda e Recife. Zé da Macuca tinha 67 anos e estava internado no Hospital Santa Joana, no Recife, devido a problemas cardíacos. Ele herdou dos pais a Fazenda Macuca, que fica no município de Correntes, Agreste de Pernambuco. Em 1989, decidiu transformar a propriedade em um relicário cultural, realizando inclusive um festival anual que atraía gente de todo o interior, capital e até de estados vizinhos.

Boi da Macuca foi quem levou o forró para se misturar com o frevo no carnaval de Olinda. Depois, no Recife.

O Festival anual na Fazenda Macuca virou, assim, uma espécie de Woodstock caboclo. Conheci o Boi da Macuca, no entanto, bem antes dos famosos festivais. Foi ainda no século passado, entre as barracas da Praça da Preguiça, em Olinda, onde o cortejo passou puxado pelo Boi. Não era muita gente. Era um estandarte pequeno, um boi e os instrumentos do forró pé-de-serra.

Lembro que foi uma grande diversão dançar quadrilha junina em pleno carnaval, antes totalmente dominado pelo “passo”. E teve muita gente que deixou o frevo que tocava nos blocos que passavam para se incorporar ao forró.  Não sei, no entanto, se o Boi da Macuca já tinha aparecido no carnaval de Olinda ou se aquele foi o seu primeiro “desfile” no reinado de Momo. Nem sei mais o ano…

Só sei que, naquele dia, ele reinou quase absoluto. O forró estava animado, e a cada momento o gente chegava mais. Por volta de 17h o sanfoneiro disse que tinha acabado o horário de contrato, e que ia embora com os músicos.  Não conseguiu se retirar. Os foliões – eu inclusive – fizemos uma vaquinha para que eles ficassem mais um pouco. Porém, ficaram um tempão. E foi uma festa memorável. Jamais esqueci. Passei a seguir o Boi da Macuca em todos os carnavais em Olinda. E depois, no Recife.

Em Olinda, cheguei a passar um momento de pânico, quando seguia o Boi. Ele ia vagaroso e  cansado, pois estava a caminho de recolher. Lembro que estava com minha amiga Yvana Fechine, e juntas, fomos arrastando o pé no ritmo do forrozinho. Deu tudo errado. Na contramão, eis que o Boi se encontra com a Orquestra do Bloco Diz que me ama, porra. Foi um desastre. Sufocadas no meio da multidão, eu e minha amiga mal conseguíamos botar os pés no chão, eu apoiada em um poste, morrendo de medo que ele desabasse. Era um mar de gente. Terminamos sem conseguir seguir a Macuca até o seu final.

Mas no ano seguinte…. Estava lá de novo.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife 
Fotos: Kelvin Andrade/ Boi da Macuca / Acervo #OxeRecife

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