“Pink”: entre cores, aromas e sabores

Patrícia Luiza Liberato, como muitos homens e mulheres sertanejas, fugiu da seca quando tinha apenas quinze anos. Sozinha, com a cara e a coragem, veio morar na capital em busca de vida melhor e de alguns trocados que garantissem ajuda financeira à mãe, que ficou na caatinga. Patrícia veio, lutou e venceu. Aos 53, é mais conhecida como Pink pelas ruas do bairro de Casa Amarela, na Zona Norte, onde ela empurra sua carrocinha de 8h às 16h, para  garantir o pão de cada dia.  E  ela não só anda. Durante as oito horas que caminha, Pink solta os pulmões para anunciar os sabores do seu produto: o caldinho, que vende a R$ 5 cada copinho.

O cardápio é variado. Tem de camarão, feijão, peixe, marisco, mocotó. E ela ainda  oferece o mingau de cachorro e o cabeça de galo, que dão muita “sustança” a quem os consome. O apelido vem da cor predileta, que virou marca registrada: o rosa. Mas a  mania monocromática fica por aí. Pois é em meio às cores, aromas e sabores de especiarias que ela tempera seus caldinhos. O ritual nas ruas é religiosamente cumprido às segundas, quintas, sextas e sábados.

Ela reserva terças e quartas para compras, preparo dos ingredientes e para botar as contas em dia. Mas o ofício exige que mesmo nos dias que caminha oito horas, vendendo alto e bom som o seu produto, ainda tenha muito o que fazer em casa. “Cortei hoje dez quilos de toucinho, e descasquei três quilos de camarão, tirando ainda o rabo e a cabeça”, conta, enquanto recebe uma cliente que a procura em casa, na última quinta-feira. É uma vizinha que quer Cabeça de Galo.

Com a Covid-19 e esse tempo mais frio em que as pessoas gripam muito, o Cabeça de Galo está em alta. “A procura é grande, porque leva muitas ervas- hortelão, gengibre, babosa – que matam vários tipos de vírus”, diz, animada com aquela sabedoria popular que passa de geração em geração no interior. O Cabeça de Galo pegou fama maior no meio da pandemia. “Então, todo mundo quer”.

Pink botou seu negócio há duas décadas, ao investir R$ 50 na compra de uma carrocinha, dos R$ 400 que recebeu de indenização pelo trabalho como cuidadora de idoso. Mas antes, já fez de tudo. Já  catou até sururu e caranguejo na maré, para garantir o seu sustento. Depois, juntou uns  trocados, e foi vender bijuteria no Pátio da Feira, em Casa Amarela. Com pouco tempo, passou a oferecer mais um produto: o caldinho. Aí, percebeu que o segundo ramo de negócio dava mais lucro. E decidiu partir para a venda dos caldinhos, que são tão famosos quanto sua opção pelo cor de rosa. Atualmente, negocia de cem a 150 caldinhos por dia.

”O que eu botar na carroça vende, não chega prá quem quer”, comemora. Pink ganhou uma carroça nova ao participar de um programa de TV, quando também recebeu R$ 30 mil. Investiu todo o dinheiro na reforma da casa, onde – como boa empreendedora – pretende montar um restaurante. “Vai ser de comida regional, com muita galinha de capoeira e bode assado, sem deixar o caldinho, claro”, diz. Pink não nega trabalho.  Em tempos em que festas são permitidas, atende sempre a chamados para servir seus famosos caldinhos. “Faço tudo, casamento, aniversário, encontro de amigos. E levo até a carrocinha”. Agora, ela  quer encontrar tempo para ir visitar a mãe no interior, para quem está levando um presente: um fogão novo. Comprado com o dinheiro dos caldinhos.

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Serviço:
Caldinhos da Pink
Sabores: camarão, feijoada, cabeça de galo, mingau de cachorro, mocotó, peixe, marisco, italiano (com queijo)
Preço:  R$ 5, cada caldinho
Onde: Nas ruas de Casa Amarela,  Zona Norte do Recife
Quando: segundas, quintas, sextas e sábados
Encomendas: 985560219 / 989733638

Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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