Quem lembra do lobo-guará?

Quando eu era criança, que viajava para casa dos meus tios, na Zona da Mata Sul, lembro-me que ficava atenta à rodovia, principalmente à noite. Porque, vez por outra, via um lobo-guará cortando a estrada, saindo de um canavial para outro. Eu até pensava que esse animal gostava de cana-de-açúcar. Mas ele se alimenta de frutos e pequenos animais. Esquecido pelo homem urbano, o lobo-guará voltou a ficar em evidência por ilustrar com sua imagem a cédula de valor mais alto no Brasil, a de R$ 200.

Com a destruição das matas, ele está cada vez menos frequente na paisagem do Brasil. Mesmo assim, os pesquisadores estimam que ainda existam 23 mil indivíduos da espécie na natureza. O mamífero está na categoria de espécies ameaçadas de extinção no nosso país, sob o grau de “vulnerável”, segundo a classificação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). No Paraná, uma empresa privada vem desenvolvendo trabalho de apoio à preservação do lobo-guará. É a Kablin, que o vem fazendo por meio do seu Parque Ecológico, que fica no município de Telêmaco Borba, na região de Campos Gerais, naquele estado.

O Parque Ecológico Klabin foi criado na década de 1980 e está localizado na Fazenda Monte Alegre, no município Telêmaco Borba, a  247 quilômetros de Curitiba. Com uma área de quase 10 mil hectares, cerca de 91% é formada por florestas naturais. Segundo a Klabin, as atividades do Parque promovem a conservação da biodiversidade, a reabilitação de animais, a preservação de espécies em extinção, o desenvolvimento de pesquisas científicas e o apoio aos projetos de educação ambiental. Ali, os animais silvestres são acolhidos, recebem assistência e tratamento e depois são preparados para o merecido retorno à natureza.  No PEK,  conivem muitos animais, de cerca de 50 espécies, como o puma, o veado-bororó-do-sul e a anta brasileira.

Atualmente o PEK mantém um casal de lobos-guarás sob cuidados permanentes. Os dois vivem no Parque, porém  – por enquanto – não têm condições de voltar à natureza. Eles estão separados, mas o PEK estuda meios de repovoar a região com a espécie. É um projeto delicado, pois demanda estudos e parceiros que apoiem na destinação adequada dos filhotes. “O Parque Ecológico Klabin interage com Lobos-Guarás há muitos anos, sempre com atendimento clínico necessário para que eles recebam todos os cuidados antes de serem reinseridos na natureza”, afirma Paulo Schmidlin, coordenador do  PEK. “Em alguns casos, como neste específico dos dois lobos que vivem do Parque, continuam conosco porque necessitam de cuidados especiais”.  Ainda bem que grandes corporações vêm demonstrando cuidados com a natureza.

No caso do guará, como ocorria nas viagens de minha infância , no Paraná ainda há alta recorrência de acidentes envolvendo lobos-guarás.  A maior parte é de atropelamentos em rodovias. Nos atendimentos que o Parque Ecológico Klabin realiza, muitos requerem cirurgias, por conta de fraturas ou hemorragias, e outros são tratamentos terapêutico e medicamentoso. Todo o processo de atendimento do PEK é direcionado para preparar o animal para voltar à natureza. “O intuito é promover a reabilitação clínica completa e o retorno à vida livre. Nos casos em que permanecem sequelas ou algum problema que não permita voltar à natureza ele permanece no criadouro em programas de conservação e de estudos da espécie. No Parque Ecológico Klabin o foco está em promover o bem-estar, saúde, dieta balanceada para manter em perfeita saúde todos os animais, incluindo o nosso querido Lobo-Guará, agora mais famos o que nunca”, finaliza Schmidlin.

Segundo o PEK, muitas curiosidades envolvem a espécie.  Algumas delas: O lobo-guará é o maior canídeo da América do Sul, podendo atingir entre 20 e 30 kg de peso e até 90 cm de altura. São quase  vegetarianos . É que apesar da aparência física, tem hábito alimentar diferente dos cachorros. São onívoros, não habituados a comer muita carne/proteína animal, pois podem desenvolver problemas renais com facilidade.  Há uma planta tão necessária à espécie que o seu nome até tem a ver com ela. É que uma parte da saúde do lobo-guará depende do consumo da lobeira, pequeno arbusto ou árvore de até 5 metros de altura, que o defende contra um verme que frequentemente ataca seus rins e pode até matar.

O fruto da lobeira lembra um tomate na aparência, apresenta um odor forte e característico. Os Lobos-Guarás espalham as sementes da lobeira por meio das fezes e criam um ciclo de novas “plantações” de lobeiras no habitat desse lobo.  Ainda bem. A lobeira é mais comum na região do Cerrado. O mamífero vive em ambientes de campo aberto, principalmente, no cerrado. Existe apenas na América do Sul. O Brasil é rico na quantidade desta espécie, que também é muito presente nas fronteiras com nossos países vizinhos. Apesar de não ser um grande consumidor de proteína animal, é um caçador. Por isso as orelhas grandes e altas, adaptadas para a audição em distâncias maiores. Caça principalmente pequenos roedores e pequenos mamíferos.  O lobo-guará também é um grande saltador. Consegue capturar aves quando estas levantam voo, no que se assemelha à Raposa do Ártico. Com pernas longas, tem grande facilidade em ambientes com vegetação rasteira, e que pode chegar até a um metro de altura que, ainda assim, ele se adapta bem. Também tem fama de boa praça. É que raramente o Lobo-Guará causa antipatia nas populações humanas dos locais em que habita. Até por este perfil, é frequentemente utilizado como uma espécie de bandeira na luta pela conservação do cerrado brasileiro.

Nos links abaixo, você pode conferir outras postagens de instituições públilcas ou privadas em defesa dos animais

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Texto: Letícia Lins /  #OxeRecife
Fotos: Divulgação / PEK / Klabin 

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