Sessão Recife Nostalgia: Quando a Livro 7 era a “maior livraria do Brasil”

Durante a enfermidade de Tarcísio Pereira, que foi livreiro, fundador da Livro 7 e editor, a família recebeu muitas mensagens. Eram amigos, ex-clientes que queriam saber como ele estava. E também após o seu encantamento. O #OxeRecife fisgou alguns desses depoimentos, que deixamos de publicar no momento difícil sofrido pela família, diante de perda tão dolorosa. Um desses depoimentos, que mostram a Livro 7 e todos os seus significados é de Ney Guilherme Leal Macedo, engenheiro elétrico que frequentava a livraria. Vejam o que ele diz

“Nossa geração teve a oportunidade de acompanhar a vida dessa grande alma, Tarcísio. Em plena ditadura, no início dos anos 70, talvez um pouco antes, ele dá partida à sua viagem na Livro 7. Iniciativa corajosa, porque era onde encontrávamos, em Recife, todos os títulos que a ditadura não queria que fossem lidos. Também porque diversos companheiros perseguidos deixavam contas enormes e só voltavam para pagar, anos depois, ou nunca mais. Tarcísio, generoso e solidário, nada cobrava. Havia também os que exploravam a sua generosidade. Sua irmã, também generosa e solidária, mas com mão mais firme, às vezes se exasperava. Tarcísio parecia não perder a calma. A Livro 7 foi a primeira livraria do Recife, talvez do Brasil, a deixar os livros acessíveis para os leitores folhearem, cadeiras para as pessoas sentarem, como se estivessem em casa”. E acrescenta:

“Era comum se gastar uma manhã, tarde ou parte da noite na Livro 7. Lá marcavam-se encontros. Amigos, casais, políticos, democratas, socialistas, conservadores, revolucionários de diversos matizes trocavam ideias, impressões afetos”, diz. Ele lembra quando a Livro 7 começou, bem pequena, no vão de um edifício (na própria Sete de Setembro), que define como um beco. “A Livro 7 ficou maior do que o beco”, recorda. ” A Livro 7  cresceu bastante por um bom tempo, ocupou uma casa grande, foi uma das maiores livrarias do Brasil e, depois, começou a ter prejuízos e foi minguando. Saudades daquele tempo, da Livro 7, de Tarcísio e de seu espírito generoso, cada dia mais raro nos negócio. Aliás, a Livro 7, mais do que um negócio, parecia uma missão”, afirma Ney. Ele não lembra direito onde a Livro 7 começou. Recordava de um “bequinho”. O bequinho, na realidade, era o corredor do Edifício Amaraji. Ou seja, só para refrescar a memória: o primeiro endereço ficava na Loja 3, da “Galeria” do prédio, na própria Rua Sete de Setembro, onde havia outras lojas tão pequenas quanto a Livro 7 que, depois, seria  não só”a maior livraria do Brasil”, como o principal centro de efervescência cultural do Recife.

Outro que enviou um texto emocionante foi Manoel Constantino, editor da Agenda Cultural, e com quem tive a honra de dividir o estandarte da Troça Nóis Sofre Mas Nóis Goza, durante muitos carnavais. No dia do desaparecimento de Tarcísio, Manoelzinho – como nós o chamamos – vestiu azul (a cor predileta de Seu Sete) e foi para a Sete de Setembro.

“Conheci Tarcísio Pereira ainda adolescente. Numa das lojas que havia na Sete de Setembro, um casarão. Era 1975/1976. E havia a Livro 7. E havia uma loja de discos. E havia. Havia encontros. E havia o bar. E depois aconteceu o espaço de teatro e havia, havia, havia resistência. E havia o encantamento da Sete de Setembro. E havia liberdade e havia a luta pela democracia. E havia também o medo, mas havia a alegria de poder transformar.  Tarcísio  Pereira, você nos deu, também, asas para voar. Agradecido, meu amigo. Folião, livreiro. Agradecido por amar tantos, todas e todos, por sua infinita alegria. Por suas asas libertárias. Estou vestido de azul. Estou na velha Sete de Setembro. De azul, por você e por nós”, diz Manoel Constatino que é, também, escritor, poeta, ator e diretor de teatro. E para mim, uma pessoa muito querida, com a qual costumo passar a vida em revista.

No fim, ele ainda se refere à nossa troça, tão querida e tão rebelde, quando surgiu, nos anos de chumbo. “Vou pedir licença a vocês, da família, mas no sábado de Zé Pereira, vou catar fotos no buraco do tatu, sobre Nóis Sofre Mas Nóis Goza”, diz ele, que enviou o  texto foi escrito logo após p desaparecimento do amigo de tantos anos.  O #OxeRecife resgata e divulga esses textos, no momento em que casas legislativas se mobilizam para homenagear Tarcísio Pereira e sua inesquecível Livro 7.

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Texto: Letícia Lins (#OxeRecife) / Manoel Constantino / Ney Guilherme Leal Macedo
Fotos: Redes sociais

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Um comentário

  1. A Livro 7 tem um lugar único na lembrança dos que a conheceram. Tenho alguns livros adquiridos lá e só de ver o selo, dá uma saudade. Minha avó materna sempre falou no Lunário. Um livro que, segundo ela, trazia “conselhos ” sobre os mais variados temas. Pois não é que eu encontrei o “Lunário Perpétuo” na Livro 7? Minha mãe fez muitas leituras, marcou várias páginas e eu, claro, volta e meia leio alguma coisa, para lembrar delas duas.

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