Rara calçada cidadã em Casa Amarela

As pessoas que costumam caminhar diariamente, como é o meu caso, sabem da importância de uma boa calçada. Ou seja, acessibilidade, piso regular, nivelado, arborização, canteiros. A falta de cuidado com elemento tão importante da cidade pode ser observada tanto na iniciativa privada quanto na área pública, a quem cabe a manutenção daquelas que ficam em repartições, às margens de lagos e rios e à beira-mar. Isso não quer dizer, no entanto, que estas estejam em ordem. Ao contrário, o descalabro é geral. Eu que o diga, que já perdi as contas das vezes em que tive que imobilizar o pé, devido a acidentes provocados por calçadas assassinas.

Além de andar individualmente, também costumava fazer caminhadas em grupos, que estão suspensas desde o início da pandemia. Percursos com o Caminhadas Domingueiras, o Olha! Recife, o Bora Preservar, ou Andarapé também reforçam o sentimento de que nossa cidade não oferece conforto nem segurança ao pedestre. O Movimento Olhe pelo Recife, Cidadania a Pé – liderado pelo urbanista e arquiteto Francisco Cunha – lembra sempre que dois terços da população de uma capital  “se locomovem usando intensamente as calçadas diariamente”. Mas o que a gente vê no Recife? Buracos, entulhos, lixo no caminho, ferragens expostas, tampas de galerias de esgoto pluvial partidas ao meio. Uma bagunça só.

Calçada cidadã, em Casa Amarela: chão nivelado, com árvores e jardins. Muro transparente dá segurança ao pedestre.

Por esse motivo, quando vejo uma boa calçada, faço questão de registrar, seja ela de iniciativa pública ou particular. Nesta semana, caminhando pela Rua Guimarães Peixoto, em Casa Amarela, me defrontei com uma excelente. Ela pertence ao Edifício Jardins Tamarineira, da Construtora e Incorporadora Humaytá (Atenção, isso não é um comercial, viu gente….) Além da calçada ter largura, jardins, alegretes com árvores que nos dão sombra (e, portanto, conforto térmico), o muro do prédio é em vidro. E transparência nessa área é algo importante na segurança do pedestre, pois aquelas muralhas que mais parecem fortalezas deixam quem passa na rua totalmente desprotegido de assaltos. Mas no Recife, há edifícios que parecem fortalezas,  devido aos muros tão altos. É como se a cidade estivesse em guerra, e precisasse se defender dos inimigos. Ou seja, a cidade se divide em “guetos”.  Os que estão nas ruas e os que ficam protegidos, atrás das  paredes. São paredões agressivos,  que transformam as ruas “corredores penitenciários”, como costuma lembrar Francisco Cunha. Infelizmente, no Recife as muralhas são muitas e cada vez mais altas.

E os muros transparentes – em vidro, combogós ou mesmo em ferro vazado – são minoria. Uma situação inversa ao que acontece, por exemplo, em Salvador. O #OxeRecife faz questão de fazer registro de bons exemplos urbanos, de gentilezas urbanas e sobretudo de calçadas cidadãs, que são tão poucas no nosso Recife. Veja o que diz o Movimento Olhe pelo Recife, Cidadania a pé, quando se refere à importância de uma boa calçada para o bem estar da população. “Uma realidade que fica evidente quando se verifica pelas estatísticas do IBGE que cerca de um terço da população que se locomove diariamente nas cidades brasileiras, o faz exclusivamente a pé. Se juntarmos a este um terço, o outro estimado em um terço que se locomove por transporte coletivo e vai a pé do ponto de origem até o local do embarque e, depois, até o ponto do destino, temos dois terços da população que se locomovem usando intensamente as calçadas diariamente”. Será que nossos gestores lembram disso o tempo todo? Ou só na hora das promessas, durante as eleições?

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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