Atentado estético no Primeiro Jardim de Boa Viagem, Zona Sul do Recife

Mais um atentado estético, provocado pela substituição de lâmpadas LED, tipo que deverá responder por 100 por cento da iluminação do Recife,  e que hoje já está presente em 84.000 dos dos 98. 578  pontos de luz espalhados pela cidade. O que ninguém está se tocando é que as praças e jardins do Recife estão sendo desfigurados, com a substituição das luminárias tradicionais, muitas com indiscutível valor histórico. No lugar delas, estão colocando monstrengos de ferro preto. Ou seja, uma falta de sensibilidade tremenda de nossas autoridades. Ou despropósito mesmo. Ou falta de amor à paisagem da cidade.

Tomei um susto, nesta semana, ao chegar no Primeiro Jardim, na Praia de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, um dos bairros mais sofisticados da nossa capital. As luminárias cilíndricas que tanta graça davam ao Jardim, foram substituídas – como vocês vêm na foto – por essas coisas horrorosas, que ninguém sabe quem inventou nem quem desenhou e que constituem uma dupla agressão: à paisagem e ao arquiteto ou urbanista que bolou o projeto original.  Elas lembram suportes para tochas. As trocas têm sido realizadas pela Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) que, teoricamente, deveria zelar pelo patrimônio estético do Recife e não avacalhá-lo, como vem fazendo. Começaram na gestão passada, e é bom que o Prefeito João Campos (PSB) mostre um pouco mais de cuidado com a beleza da cidade do que seu antecessor.

Dói na vista o “arranjo” feito pela Prefeitura no Primeiro Jardim de Boa Viagem, onde bonitas luminárias cederam lugar a esses monstrengos.

Até agora nem Ministério Público, nem vereador nenhum e nem mesmo o Tribunal de Contas do Estado tomou alguma providência. É assim que as cidades vão, aos poucos, perdendo a sua identidade. Ao longo dos séculos e décadas, o Recife perdeu seus arcos históricos seiscentistas, como os da Conceição e o de Santo Antônio, demolidos entre  1913 e 1917 para dar fluidez ao trânsito. Depois, perdeu alguns templos (como a Igreja dos Martírios), assim como as características de suas pontes, caso da Giratória. Esta, apesar do nome nem gira mais, Se ainda fosse móvel, seria uma grande atração turística na cidade, assim como os arcos que foram demolidos. E em pleno século 21, permanece perdendo prédios históricos, relíquias da arquitetura, vegetação e até… suas cenográficas luminárias de rua.

Elas já sumiram de praças como a José Vilela, a F. Pessoa de Queiroz, a de Apipucos, a Maciel Pinheiro.  E também já estão nos Parques da Macaxeira e Maximiano Campos. Infelizmente, o Recife é assim. E segue no seu destino predatório. Já se foram  81 por cento das 79 obras de arte que compunham o Parque de Esculturas Francisco Brennand, em frente ao Marco Zero, que chegou a ser um dos locais mais procurados por turistas no centro. Os roubos foram se sucedendo, sem que nenhuma autoridade tomasse providência para garantir a segurança do local.

E agora, fica tudo por isso mesmo? Ninguém vai ser responsabilizado?  O furto das peças do Parque de Esculturas, pelo menos, chegou ao poder legislativo municipal, por intermédio do vereador Alcides Cardoso (Dem), que exigiu do poder executivo a quantificação de peças perdidas. Então, a população ficou sabendo os números exatos do descalabro: 64 das 79 foram furtadas. Entre estas, a serpente de 20 metros de comprimento. Acreditem, não há imagens dos autores dos furtos porque “foram apagadas”, segundo a própria  Prefeitura. Já que nenhum outro fala nada, está  bom do mesmo Alcides perguntar pelo destino de luminárias históricas como as das Praças de Apipucos e da Maciel Pinheiro que cederam lugar aos monstrengos idealizados pela Emlurb. Em que antiquário foram parar?

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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