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Parem de derrubar árvores em 2021

Não há números oficiais divulgados. Mas a julgar pelo ritmo de degola dos dois primeiros anos da gestão passada  – 2.500 erradicações por ano – é provável que o Prefeito Geraldo Júlio (PSB) tenha eliminado em oito anos nada menos de 20 mil árvores da paisagem do Recife. Algumas bem conhecidas, como o fícus da Rua da Aurora e a amendoeira que ficava em frente à Associação Comercial de Pernambuco e que, ainda hoje, aparece nos cartões postais do bairro do Recife Antigo.

Desde 2017, o #OxeRecife vem acompanhando a ação da motosserra insana, e fazendo o registro das vítimas de arboricídio que encontra pelo caminho. Elas surgem aos montes, por onde a gente passa. Pode ser em um alto da Zona Norte ou uma rua sofisticada de Boa Viagem, na Zona Sul. O excesso  com a poda das árvores já mobilizou o Ministério Público e até mesmo a Câmara Municipal, quando fomos convocados para depor sobre a matança generalizada de árvores do Recife e a perda do nosso patrimônio verde.

A audiência pública, no entanto, não deu em nada. A política de arborização do Recife permanece equivocada. Vamos torcer para que o novo Prefeito tenha mais sensibilidade para o assunto, embora a arborização pareça não constar na sua lista de prioridades. Mas, pelo menos, o novo Secretário de Meio Ambiente do Recife, Carlos Ribeiro, é do ramo. É engenheiro agrônomo, analista ambiental e advogado com  especialidade em Direito Ambiental. E, com certeza, não passará pelo vexame de comemorar o Dia da Árvore, por exemplo, com o plantio de seis mudas na cidade, como ocorreu em 2020.

Entre 2017 e 2020, o #OxeRecife fez 285 registros relativos à erradicação de árvores da cidade, somando um total de 536 vítimas de arboricídio  (houve casos de várias erradicações de uma só vez). Só em 2020, foram 61 registros. Também estamos com a série #RecifeEmergênciaClimática, através da qual mostramos ruas que não possuem uma árvore sequer. Ou seja, zero verde. Também podemos dizer, com a maior segurança que não há reposição para grande parte daquelas 536 eliminadas da paisagem. E ainda tem quem estranhe que o calor da cidade só faz aumentar.

Veja, a seguir, depoimentos de alguns leitores sobre a “política de arborização” do Recife. E eles vêm de vários bairros:

Clarissa Garcia – Acordei logo cedo com o barulho de uma motosserra da Prefeitura do Recife. Estraçalharam as árvores das calçadas do Poço da Panela. Fui lá correndo, mas até os moradores do entorno ficaram contra mim. Eles podam deixando só os galhos lá de cima. Ou seja, acabam com a sombra, pois a copa se reduz a um tufo ridículo. Aqui no Poço, permitiram a construção de vários condomínios com nomes como Reserva do Poço, Sítio das Mangueiras, só que não deixaram uma só árvore em pé nem plantaram novas. Só tem palmeiras, arbustos. Ou seja, uma ilha de calor que nos últimos anos elevou a temperatura média do bairro. A ex líder comunitária que estava assistindo à cena, justificou, afirmando que eles estavam “só cumprindo ordens”.  Lembrei de Hannah Arendt e o nazista FDP que dizia isso.

E Clarissa desabafa:

Eu me pergunto se é verdade que algum engenheiro florestal esteva orientando essa estupidez. Copa e sombra refrescam o  ambiente. Este país está caindo ladeira abaixo por falta de educação de qualidade, e da ignorância da elite, do povo e do povão. Acho que não tem salvação.

Lara Cristina- Geraldo Júlio assumiu, arrancou dezenas de árvores da Avenida Agamenon Magalhães (vários ipês). Fiquei indignada. No dia seguinte, saiu matéria no Diário de Pernambuco, informando que estavam doentes. Porém, anualmente elas floriam. Ficavam lindas. O DP dizia, também, que a Prefeitura iria fazer replantio. Até hoje espero. Fizeram um jardim merreca, com plantio de palmeiras que até hoje estão largadas.

Regina Porto – Tem quem possa? Parece que no Recife ninguém sente calor.

Gabriel Novaes – Aqui na Imbiribeira, na Rua Júlio Verne, derrubaram duas em apenas uma semana.

Beth Avelino- Em Boa Viagem, onde moro há 33 anos, venho acompanhando a derrubada de árvores. Argumentam que estão ameaçadas. Tudo bem. Mas por que não plantam?

Alexandre Matta – Na Rua Amélia e entorno, antes alameda, vivenciamos processo de desertificação acelerado, onde interesses comerciais eliminam oitizeiros seculares com reposição de mudas que morrem rapidamente e que não têm reposição.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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