Sessão Recife Nostalgia: Boa Viagem, Casa Navio, Papa-Fila, picolé D´Aqui

Nas últimas semanas, imagens da Casa Navio – em Boa Viagem – voltaram a circular com insistência e nostalgia, em redes sociais. Para os que não lembram, o imóvel localizado no número 4.000 e à beira-mar, era uma réplica do transatlântico Queen Elizabeth. E durante quatro décadas foi principal ponto de referência da praia que, depois, ganharia outros três construções famosas que também se tornariam pontos de referência: os edifícios  Califórnia (1953), Acaiaca (1958) e Holiday (1956), este infelizmente em ruínas atualmente.  Erguida na década de 1940 pelo empresário Adelmar da Costa Carvalho, a curiosa  residência chegou a ser visitada por um Presidente da República (Juscelino Kubitschek) e se transformar em notícia nacional e internacional. Infelizmente foi demolida na década de 1980.

Nunca morei na  praia de Boa Viagem – a não ser em imóveis alugados, nas estações de veraneio – mas lembro demais da Casa Navio. Era um ponto de referência não só para marcação de encontro de adultos, mas também para que as crianças não se perdessem. Nossos pais diziam sempre. “Estamos na frente da Casa Navio”. E assim era. Naquela época, poucas pessoas tinham automóveis. E como meu pai era funcionário do Banco do Brasil e sócio da AABB, que facilitava o nosso final de semana. Alugava o Papa-Fila, cujo roteiro era planejado de acordo com a demanda dos servidores. Era um sucesso. Morava na Rua Evaristo da Veiga, mas o Papa-Fila nos pegava na Rua da Harmonia. Dali em diante, tudo era festa: praia, bola, boia, tenda armada na areia (até com compartimento para troca de roupa), água de coco, picolé.

Picolé D´aqui era o mais famoso das areias de Boa Viagem entre as décadas de 50 e 60 do século passado.

Lembro-me do picolé D´Aqui, que sumiu da praia. As carrocinhas tinham uma holandesa desenhada com trajes típicos: saia comprida, avental, tamancos de madeira, chapéu. O gesto era pegando na ponta da orelha, muito usado quando uma pessoa diz que algo é bom, é “daqui”. Já saía de casa com água na boca, pensando no picolé predileto, cujo nome eu nem lembrava. Mas fui socorrida, dia desses, pelo amigo Jacques Ribemboim que também se lambuzava com a iguaria, quando jovem. “Era o picolé Saci”, reforçando minhas memórias gustativas e afetivas. Naquela época, a Sorveteria D´Aqui era a única que oferecia o picolé com chocolate zelado e recheio cremoso de leite. Meu Deus, era muito bom….

Os finais de semana na beira da praia eram uma festa para nós, crianças, que passávamos a semana inteira entre o colégio e o dever de casa. Mas houve episódios em que nem a Casa Navio serviu como referência. Pois uma das crianças da excursão se perdeu na areia. Foram momentos de tensão até que o menino fosse encontrado. Na outra semana, perderam-se os dois: ele e um irmão. Novo corre-corre. E os dois sumiços foram tão marcantes que deram origem ao conto Perdidos e Achados, que meu pai, Osman Lins, escreveu e que consta entre as narrativas do Livro Nove, Novena. E ele fala a barraca imensa, que a AABB colocava na praia.

“Onde está meu filho? Não sei. Quantos anos? Sete e pouco, louro, calção verde. Não vi. Há dez minutos, ele estava aqui, jogando bola. Ali, sentado na areia, em roupa de banho, junto à grande barraca de lona azul que nós próprios, do clube, armamos há duas horas e meia, vejo quando Renato, a três metros de mim, diz a última frase”. Provavelmente quem não viveu naquela época, vai perguntar. E o papa-fila, o que era? Era um ônibus puxado por um cavalo mecânico (semelhante às cabines de caminhão, carretas) que “papava” filas de passageiros, pois sua lotação era o dobro dos ônibus convencionais: 60 pessoas sentadas e outros 60 em pé.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Internet e redes sociais

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