Itamaracá não é mais esse paraíso. A ilha virou um “inferno de lixo” e abandono!

Quem olha a foto acima, tem até saudade do que já foi a Ilha de Itamaracá, um verdadeiro paraíso. No entanto, é impressionante o abandono a que está relegado o município, localizado no Litoral Norte de Pernambuco, a 40 quilômetros do Recife. Encarada como uma ilha ideal para descanso dos anos 1960 a 1980 – e um dos principais destinos turísticos do Litoral naquela época –  Itamaracá vem sofrendo as consequências  de sucessão de maus gestores, normalmente com contas questionadas na Justiça e sem trabalho a mostrar que beneficie suas praias, seus equipamentos urbanos, sua história e suas matas. Só faz decair.  Infelizmente.

Estive em outra Ilha, Itaparica, na Bahia, e fiquei impressionada com a diferença.  Limpa, organizada, monumentos históricos bem conservados, praças bem cuidadas, águas cristalinas. Itaparica é formada por dois municípios – Itaparica e Vera Cruz – e em ambos é possível observar cuidado dos gestores com a limpeza pública e equipamentos urbanos. Itamaracá, não. Como se não bastassem construções irregulares que avançam pela areia da praia, a Ilha, que a população se lembre, não tem um bom prefeito há pelo menos meio século. E eu lá, na Bahia, só lembrava da nossa Itamaracá, tão  violentada e cada vez mais degradada.

A diferença entre  Itaparica (foto central), na Bahia e Itamaracá, em Pernambuco, é gritante. Zelo oficial é preciso.

O que é bonito, é alvo de destruição: seus engenhos e templos históricos, Vila Velha. Até o Pontal – onde se faz a travessia de barco para o Sossego – teve seus coqueirais cercados por um muro alto, que mais parece uma prisão. O #OxeRecife tem recebido denúncias seguidas de excesso de lixo nas ruas e até mesmo em terrenos particulares. Uma imundície. Que, aliás, não é de hoje. Na década de 1980, o “turismo” na Ilha era a realização de festas à altura do Pilar, totalmente predatórias. No dia seguinte, o que se via era só lata de cerveja e garrafas de refrigerante na praia. Ficava tudo lá. Nunca vi um gari limpando a praia, quando fui veranista na por tantos anos. Já naquela época, desisti da Ilha que eu tanto amava. Desde então, a situação só fez piorar. Estive lá recentemente e voltei triste.

Muito triste, impressionada com a vocação predatória dos nossos irmãos pernambucanos. Uma vez, eu estava com um grupo, consumindo bebidas e tira-gosto de uma barraca de praia, no Forno da Cal. O garçom veio apresentar a conta e, logo em seguida, jogou as garrafas na areia. Sem a menor cerimônia. Como eu tinha um banco da barraca (usado como suporte para um prato de camarões), falei para ele que só daria o banco se ele recolhesse a sujeira que jogou na areia. Ele preferiu perder o banco. É mais ou menos o que acontece hoje. As festas estão proibidas, mas a praia vive cheia de banhistas e veranistas. E o lixo por eles deixado que se dane. Nunca é recolhido. Então, o antigo paraíso está virando o inferno do lixo, de ratos, baratas, mosquitos, como dizem seus moradores.

Ex colega de trabalho – estivemos juntos duas vezes (na TV Globo e no Programa Campo Livre, da TV Pernambuco) – o cinegrafista Ernesto Mikos  decidiu morar na Ilha, após a aposentadoria. Pensou que ia ter dias de paz junto da natureza. Mas a vida tranquila se transformou em um pesadelo, devido ao excesso de lixo por onde ela passa. Até no interior do terreno onde fica sua casa, o lixo está tomando tudo. Ele recolhe, jogam de novo. Ou seja, falta de cidadania, omissão criminosa dos gestores e escassez de amor à Ilha que precisa, urgentemente, de alguma iniciativa oficial, nem que seja do Ministério Público. Do jeito que  está, não dá… Ou o Governo estadual mete a mão e impõe normas como vem fazendo no Litoral Sul, ou Itamaracá vai sucumbir ao abandono e à irresponsabilidade oficial. O Prefeito eleito em 2020, não pôde assumir em 2021. Paulo Batista (Republicanos) está com a eleição subjudice. No site da Prefeitura, ainda está o nome do Prefeito anterior, Mosar Barbosa (2016-2020). Quando o internauta pesquisa “prefeito 2021”, consta informação “não encontrada”.

Vejam o vídeo com a “lixeira” enviado por Ernesto Mikos ao #OxeRecife, residente na Ilha.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins (Itaparica) e Ernesto Mikos (Itamaracá)
Vídeo: Ernesto Mikos / Cortesia

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