História rica e memórias afetivas: Teatro do Parque ganha livro

Está uma pérola, o livro Teatro do Parque – Reforma e restauro da história e dos afetos do Recife, da premiadíssima jornalista Sílvia Bessa, que acaba de ser publicado pela Prefeitura do Recife e que ficou pronto no apagar das luzes da gestão Geraldo Júlio (PSB).  Tomara que a obra chegue às livrarias, trilhando um caminho diferente de tantas outras edições oficiais que ficam restritas a um pequeno número de pessoas ou instituições. O Teatro do Parque faz parte da memória afetiva do recifense, é um raro exemplar de teatro jardim, tem mais de um século e muita história. Passou uma década fechado e acaba de ser entregue ao público, após uma restauração minuciosa, que exigiu investimentos de R$ 20 milhões.

Com sua veia de repórter e um currículo com 20 premiações – inclusive três Prêmios Esso – Sílvia trabalhou muitos anos no Diário de Pernambuco. Ao deixar a empresa, criou a Huma Comunicação,  que se dedica à produção de livros e outros projetos. A publicação sobre o Parque é um dos produtos da nova empresa.  A encomenda foi feita pela Prefeitura, mas ao invés de seguir o modelo tradicional, chegado a relatórios com números cansativos e citações oficiais, Sílvia fez um resgate da história do Teatro do Parque, o que rendeu 140 páginas de texto preciso e caprichosas fotografias. Ou seja, um livro reportagem. “Eles me deram total liberdade para escrever sobre o Teatro e eu optei por um texto menos burocrático, mais acessível e que possa ser lido por qualquer pessoa”, conta ela. Para escrevê-lo, a jornalista foi em busca de personagens que dessem depoimentos sobre o Teatro. Um destes é Fernando José da Costa Aguiar, 80 anos, neto do comendador português Bento Aguiar, que no começo do século implantou o complexo de lazer no Bairro da Boa Vista, que incluía o teatro e um hotel (o Hotel do Parque).

A designer Simone Freire (E) e a jornalista Sílvia Bessa (D) trabalharam  na produção de livro sobre o Teatro do Parque.

“Bento era um homem pobre, quando chegou ao Brasil. Começou trabalhando em uma loja de tecidos, da qual virou sócio e terminou se tornando empresário de sucesso, que inclusive doou recursos para a implantação do Hospital Português. Seu sonho era construir um complexo de diversão, ao qual dedicou boa parte do seu tempo e da fortuna. Em 24 de agosto de 1915, o Teatro do Parque era inaugurado com a apresentação da Companhia de Revistas e Operetas do Theatro Avenida de Lisboa, com o espetáculo  O 31. Foi tanta gente, que no dia seguinte os jornais falaram da superlotação. E era verdade.  Havia mil lugares e mil ingressos vendidos. Mas na hora da festa, o comendador abriu as portas para quem não podia pagar. Resultado: 2 mil pessoas na plateia. Uma semana depois, Bento morria. Segundo o neto, teria sido devido a doença provocada por rato, quando Bento visitava as obras daquela que seria a concretização do sonho de sua vida.

Outros personagens foram ouvidos, como Cannibal (vocalista da Banda Devotos), André Madureira (fundador do Balé Popular do Recife), Leidson Ferraz (memorialista do teatro pernambucano), e Joaquim Argemiro (dono da lanchonete). “A lanchonete Estrela, de Argemiro, funciona há 42 anos em frente ao Teatro do Parque, onde ele virou um visitante tão ilustre que nem precisa pagar ingresso”, conta Sílvia. Argemiro ficou viúvo, vendeu a casa que tinha longe do centro e hoje mora em um prédio vizinho ao Teatro do Parque. “Ou seja, toda uma vida ligada à casa de espetáculo”, conta Sílvia. O livro Teatro do Parque – Reforma e restauro da história e dos afetos do Recife tem direção de arte da designer Simone Freire e projeto gráfico de Amanda Torres. Já as imagens, em sua maioria, são de autoria de duas grandes profissionais do setor, as fotógrafas Andréa Rêgo Barros e Daniela Nader. A publicação detalha, também as etapas da restauração que levou o Parque a reconquistar o esplendor de sua primeira grande reforma, datada de 1929. Para tanto, além de artistas, do público fiel e herdeiros do comendador, Silvia Bessa ouviu também artífices, restauradores, engenheiros.

Bem que o também histórico Hotel do Parque merece ser preservado e utilizado como equipamento cultural.

O Parque é um  teatro-jardim (característica pouco comum no Brasil) e sua reforma mais importante, em 1929, teve por objetivo adaptá-lo para a função de cine teatro. A segunda grande reforma aconteceu em 1968, quando o espaço recebeu ajustes que lhe conferiram características modernistas. A penúltima grande intervenção deu-se em 1986, quando foram observados alguns pequenos indícios de obras de restauração. Por fim, no ano de 2000, foram realizadas obras para instalação de sistema de climatização.  A reforma mais completa, no entanto, foi a última que foi concluída em 2020, depois de uma década com o Parque fechado.

A restauração foi tão cuidadosa que foi recuperado até o piso original, e muitos dos seus adereços decorativos foram comprados em antiquários ou leilões. Agora, cabe ao Prefeito João Campos (PSB) revitalizar toda a área do entorno, que  está bastante degradada: as calçadas da Rua do Hospício, a Praça Maciel Pinheiro e facilitar o tombamento do Hotel do Parque (foto), antes que alguém desfigure por completo o histórico e belo prédio, que fica ao lado do teatro. A parte inferior onde funcionava uma loja, aliás, já está totalmente descaracterizada. Na  pandemia, a casa comercial fechou. Agora, é exigir do próximo locatário que, pelo menos, devolva ao belo prédio de estilo eclético a sua fachada original.

Confira, nos links abaixo, outras informações sobre o queridíssimo e histórico Teatro do Parque.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos:  Letícia Lins e Andréa Rego Barros / Divulgação / PCR

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