O pior “cartão” de Natal de minha vida

Quando eu era criança, adorava ver os álbuns de postais que minhas tias organizavam, juntando coleções que atravessaram várias gerações da família. Alguns eram temáticos e abordavam as festas de fim de ano, incluindo o Natal. Nessa época, adorava sentar no terraço da casa dos meus pais, esperando o carteiro para ver os cartões de “Boas Festas” que chegavam aos montes, cada um mais caprichado do que o outro.

Depois, já adulta, costumava ornamentar a árvore de Natal com os cartões que chegavam. Alguns eram tão bonitos que eu guardava para enfeitar e personalizar os pacotes dos presentes do dia 24 de dezembro. Depois, eles rarearam. Um ano chegavam cinco ou quatro. No outro dois ou três. No outro um. E em 2020, nenhum. Em compensação, foram tantos cartões digitais via redes sociais, principalmente no WhatsApp, que quase que endoido. Não dei conta de ver tudo. E  foi muito tempo gasto para deletar. Alguns animados, lindos, criativos. Vídeos – todos sabem – carregam demais a memória do celular. Pasmem,  recebi “cartões” com cinco minutos de duração, acreditam?

Tudo bem, já andei apagando para o celular não saturar. Agora, com certeza, o pior cartão de Natal da minha vida foi o Papai Noel com o Bozó. Não dá…Por tudo que esse homem representou no Brasil, pela defesa dos torturadores, pela destruição das nossas matas, pelo estímulo aos grileiros, pela invasão de territórios indígenas, pelo negacionismo ao chamar a pandemia de “gripezinha” e por estar em uma nau sem rumo, quando o assunto é vacina contra a Covid-19, o sonho de consumo da humanidade para 2021. Mas ele diz que quem tomar vai ficar “com cara de jacaré”. Pois enquanto outros países já começaram a imunização, a gente aqui não sabe nem se vai ter seringa para aplicar as doses. Recebi aquele cartão, de profundo mau gosto, com uma frase irônico: “Não vamos falar de política… Feliz Natal”. Feliz Natal com isso daí? Estou fora. Não dá. Uma  vergonha para os brasileiros e para o mundo, enquanto assistimos a “boiada” passar. Por favor, não me envie cartões de boas festas com semelhante  personagem…. Mandem com o Noel sozinho…

Mas já que estamos falando de período natalino, não poderia deixar de fazer o registro da “árvore de Natal  que vi em Boa Viagem, Zona Sul do Recife, cidade que se tornou a capital nacional do arboricídio. São tantas as árvores degoladas, guilhotinadas e violentadas pela motosserra insana que esta” árvore de Natal”  da foto  virou uma espécie de atestado do que o #OxeRecife vem denunciando: as baixas constantes no patrimônio verde da capital.

Essa planta não resistiu a uma poda excessiva e morreu, como ocorre com muitas árvores da cidade. Virou um tronco seco, desprovido de galhos, folhas, flores. Aí, algum morador do bairro decidiu transformá-la em…. árvore de Natal.  Valeu a intenção de comemorar a festa cristã. Mas, sinceramente, ficou tão feinha… Tem jeito não. Não há nada mais triste para a paisagem urbana de uma cidade do que um montão de árvores assassinadas. Esperamos que, a partir de 2021, o Recife ganhe de volta as 20 mil árvores que deve ter perdido durante os oito anos da gestão que se encerra em 2020, período de grandes perdas para praças, ruas e jardins. Quanto ao cartão de Natal, não o desejo para os meus melhores amigos. Quem enviou, pode ficar com ele.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Redes Sociais (via WhatsApp) e Letícia Lins

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