A primeira “bebeteca” do Recife

Mesmo antes da fase de alfabetização, as crianças precisam de estímulo para a leitura. Há publicações ilustradas, sem textos, mas com sequência lógica ou outros atrativos que começam a despertar, nos pequenos, o gosto pelos livros. Uns estimulam sentidos como tato (com diferentes texturas) e olfato (páginas perfumadas). E as opções são muitas assim como os caminhos. Outro bom  estímulo é a leitura, por parte dos pais. Uma criança que se habitua a ver o pai ou a mãe a ler, cria o hábito de fazer o mesmo.

Na minha vida de mãe aconteceram alguns fatos curiosos com  relação à leitura das minhas então crianças. Lembro-me que uma vez Joana Carolina, a primogênita, mal tinha aprendido a ler e devorou O Menino Maluquinho, de Ziraldo. “Mãe, o menino não é maluquinho, ele é feliz”, disse-me. De outra vez, Juliana, a segunda, me cobra. “Cadê Monteiro, onde está Monteiro?”. E eu indaguei: “Quem é Monteiro, menina?”. Ela se referia a um livro de Monteiro Lobato, que mais parecia um dicionário de tão grosso. Era um volume de capa dura e letras douradas com toda a obra reunida.

Porém, mais curioso, ainda, aconteceu com o caçula, Thiago. Pequenino,  sem nem saber o bê-a-bá direito, “leu” Paula, o segundo livro de Isabel Allende, então a mais recente revelação da literatura latino americana.  No decorrer desse texto você vai entender o motivo das aspas. Eu tinha acabado de deleitar com De amor e de sombra – seu primeiro livro publicado no Brasil  –  e desde então, li bem uns  oito da autora, dos quais apenas um descartei (um sobre Zorro, horrível….).  Os outros, deliciosos, mantenho na estante com carinho. É caso de Paula. O livro relata o drama da porfiria, doença incurável enfrentada pela filha da autora. Ao lado da paciente moribunda em um leito de hospital, Allende vai passando toda a vida em revista. Como se estivesse a se confessar.

A minha edição, publicada pela Bertrand Brasil, trazia uma foto de Paula na capa. Uma jovem bonita, de cabelos longos e sorridente. Talvez essa personificação tenha chamado a atenção do garotinho, que “leu” Paula comigo. De que forma? Todas as vezes que eu pegava o livro para ler, ele colocava um banquinho diante da poltrona, sentava de frente para mim e para o livro e indagava tudo sobre Paula. “Ela melhorou, ainda está no hospital, a mãe dela chorou, ela vai morrer, o que os médicos dizem da doença?”. Também queria informações sobre remédio, febre, como estava a mãe diante da filha à beira da morte. O livro era muito triste, mas fiz amenizei a força do drama para a então criança. Não criei disfarces. Contava a ele a realidade como ela era. Ate hoje não sei se agi correto, ou se deveria ter amenizado na recriação da tragédia pessoal vivido pela autora (diante da perda de filha tão jovem e querida), ao retransmitir o conteúdo para uma criancinha que pouco sabia de vida e morte.

Thiago era tão pequeno, que não guarda lembranças da história que eu lhe repassava na época. “Não lembro mais do que você contava, mas me recordo do ritual e de perguntar se ela havia melhorado ou se morreu”, diz ele hoje. E porque lembrei disso agora? Porque o Recife acaba de ganhar uma Bebeteca . Ela funciona no recém inaugurado Ginásio de Esportes Geraldo Magalhães (Geraldão), na Imbiribeira. A biblioteca é específica para a primeira infância. Segundo o  Prefeito Geraldo Júlio (PSB), é a primeira “Bebeteca da cidade”. A Bebeteca Padre Edwaldo Gomes é um espaço especializado no atendimento às crianças de oito meses a seis anos de idade. “A ideia é promover situações de leitura para crianças que se encontram na fase incipiente de contato com a linguagem escrita e que ainda não fazem uso autônomo dessa linguagem e capacitar promotores de leitura (pais, professores, bibliotecários e voluntários) para realizarem apropriadamente a escolha de textos e desenvolverem mediações adequadas entre o livro e as crianças”, informa a Prefeitura.

Passei um e-mail  à assessoria de imprensa da PCR para saber quantos volumes tem a Bebeteca, horário de funcionamento e orientações quanto ao acesso.  Inclusive se já está recebendo o público. Aguardando informação. Também telefonei para o Geraldão, para saber horário, se é preciso a mãe se inscrever, essas coisas. Mas deu caixa postal. Tentei várias vezes… Deve ser o “recessão” de fim de ano.

Leia também:
No fim da gestão, Prefeito anuncia Plano para Primeira Infância
Creche pronta seis anos após o previsto
Sítio dos Pintos conta a própria história
Creche agora sai, em Sítio dos Pintos
Creche quase pronta no meio do lixo
Creche vira obra parada em matagal 
Obras paradas nas Zonas Norte e Sul
laboratório da paz transforma morros

 

Texto:  Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Andréa Rego Barros /Divulgação/ PCR

Compartilhe

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.