O drama do Parque das Esculturas: “Proteger o patrimônio não é caro”

Pedi permissão ao ex-Secretário da Fazenda, ex-Prefeito, ex- Governador e  ex-Ministro Gustavo Krause para reproduzir o artigo “Nós não merecemos vocês”, que ele publicou recentemente no Jornal do Commercio, como costuma fazer aos domingos, abordando o roubo de peças de um dos maiores patrimônios culturais do centro do Recife: o Parque de Esculturas Francisco Brennand, que fica em frente ao Marco Zero da cidade. Quem é leitor do #OxeRecife sabe que ao contrário de muitos outros blogs, aqui não se adota a prática do CC (Control C) e CV (Control V), o popular copia e cola, tão disseminado – hoje – nas redes sociais e em sites jornalísticos.

Mas resolvi abrir uma exceção, porque nesta semana conversei com Gustavo, para saber o que sentiu, ao tomar conhecimento que  o Parque de Esculturas Francisco Brennand estava sendo criminosamente sucateado, vandalizado e roubado sem que as autoridades tomassem nenhuma providência para evitar dano tão grande ao nosso patrimônio cultural. “Tive um acesso de fúria, não me conheci”, lembrou. E até confidenciou que a mulher, Débora, chegou a se preocupar. “Ela assustou-se, nunca me vira naquele estado”. Talvez tivesse outro acesso, ao ler a lacônica nota enviada hoje pela Prefeitura ao #OxeRecife, a respeito da mobilização policial para investigar o crime. “A Secretaria de Defesa Social está com a ocorrência e a Prefeitura do Recife também solicitou a eles que a segurança fosse reforçada”. “Ocorrência”,  simples assim?  O nome “ocorrência” banaliza a efetivação daquilo que foi um verdadeiro atentado contra a cultura pernambucana. E a julgar pela “providência”, vão terminar levando até a Coluna de Cristal (foto superior).

Logística: Peça roubada do Parque das Esculturas, Serpente pesa uma tonelada e tem  20 metros de comprimento

Logo após a notícia do roubo, dada com exclusividade pelo #OxeRecife,  e ainda sob o calor da revolta e da indignação,  Gustavo começou a digitar o texto, claro,  carregado de ressentimento. Temendo escrever um “artigo ofensivo em catarse irada”, ele recorreu ao amigo Paulo Roberto, para produzir um texto  mais “civilizado”, como  preferiu chamar o artigo definitivo. Se tamanho descaso deixou indignada a população, imaginem como não ficou ele, um dos idealizadores do Parque e também um dos responsáveis por tê-lo tornado viável, sem que o Estado nem a Prefeitura tivessem gasto um só tostão para implantá-lo.

E desabafa:

“Pior, Letícia, é que proteger o patrimônio não é caro. Ainda que fosse. É preciso saber distinguir preço e valor. Pode publicar o artigo e seja o anjo da guarda daquele monumento que somente Pernambuco pode criar”.

Como repórter, participei da cobertura de inauguração.  Lembro da entrevista coletiva, no escritório do próprio Krause,  em que detalhava o espírito do projeto para os jornalistas, quando ele ainda era apenas um sonho. Recordo, também, de tudo que aconteceu antes da festa de inauguração: da polêmica e do preconceito em torno do aspecto fálico da chamada Coluna de Cristal que tirou o então Prefeito Roberto Magalhães do sério, da revolta de Francisco Brennand ao sentir sua obra de arte censurada. E até fiz uma deliciosa entrevista com Cícero Dias, um amor de criatura, mas cujos horários eram rigidamente controlados pela sua mulher, a francesa Raymonde Dias, que não saía do meu pé. “Está na hora do lanche dele”. Mas o artista nem parecia sentir fome. E ao contrário do que muita gente dizia, era simpático até demais. E, pelo visto, gostava – e muito – de conversar.

Os três mestres da obra já são falecidos: Francisco Brennand (1927-2019), Cícero Dias (1907-2003) e o arquiteto Reginaldo Esteves (1930-2012). Se vivos fossem, o #OxeRecife teria procurado cada um, para que  fizessem os respectivos desabafos diante da barbárie impune. Só no Recife mesmo….

Releia o oportuno artigo “Nós não merecemos vocês”,  de Gustavo Krause e Paulo Roberto , já que o mestre da escultura, o da pintura e o da arquitetura não mais estão aqui para falar. Vejam a história:

Para celebrar a virada do milênio, o Prefeito Roberto Magalhães nos convidou para pensar em um monumento que marcasse a data. Mobilizamos um mestre apaixonado pela cidade, o arquiteto Reginaldo Esteves. Encontramos no Cais do Porto do Recife uma  pracinha espremida entre estacionamento de veículos, edificações do Ministério da Saúde, pequenas árvores tortas e, no velho Recife, o lixo humano dos miseráveis invisíveis. Fomos à beira do Cais e sonhamos o sonho da Praça que seria o Marco Zero, mantendo o nome da estátua do Barão de Rio Branco. Ali nascia o monumento moderno para o antigo e apodrecido espaço. Na oportunidade, o Mestre  relembrou as esculturas pensadas nos anos oitenta para o molhe dos arrecifes. Ajuntaram-se especialistas,  na cultura pernambucana, o sonho  foi além na Praça dos Arrecifes – foi a Francisco Brennand e a Cícero Dias. E eles embarcaram na “viagem”. A Lei Rouanet amparou a captação de recursos – cerca de R$ 4,5 milhões à época. Nenhum tostão dos governos estadual e municipal- o apoio institucional sim. Em dezembro, o lugar foi aberto a  recifenses e ao mundo. Lá estão Cícero, Brennand e Reginaldo Durante 20 anos, sofremos o sentimento de perda de cada pedacinho não cuidado, embora curtindo o destino do centro, centro de atração daquele lugar que lá esteve por muito tempo à espera da virada do milênio. Agora, mais uma vez, fica evidenciado o desprezo, a incúria, a leviana atenção nas notas oficiais. O abandono permanente e recorrente resulta na insegurança, furtos, sujeira, na convivência vandálica de eliminar aquele conjunto arquitetônico, pleno de cultura e de arte. Cuidar daquele lugar é cuidar de um bem precioso do Recife.É reverenciar o bairro e a força quando se deixam mostrar publicamente. Indignadamente registramos o nosso profundo e incontido sentimento de dor como cidadãos, de revolta pela falta de respeito por aqueles que se deram para concretizar o marco de um projeto  para o mundo ver.  Se é para destruir, recolham-se as peças, cubram-se de cimento a obra de Cícero e transformem o espaço da praça em estacionamento para “carros oficiais”. E mais autoridades, digam ao mundo que o Recife é o único lugar possível em que um  parque tem o encanto de abrigar Cícero, Francisco, Arrecifes, o Mar,  a cidade que “nasce do frio sono das pedras” e de mãos abençoadas. Perdoem-nos Mestres, nós não merecemos vocês”.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Hans Von Manteuffel (Cortesia) e La Ursa Tours 

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