Poluição excessiva no Rio Capibaribe é investigada e pode gerar multa alta

Lindo, sinuoso, cantado em prosa e verso, e com bairros por ele banhados utilizados no passado como estações de veraneio, o Rio Capibaribe está podre. Infelizmente. Quem mora na Zona Norte do Recife tem reclamado da cor escura de suas águas e do insuportável odor que tem invadido suas margens. Nos séculos 19 e início do 20,  bairros ribeirinhos como Poço da Panela e Várzea eram utilizados  como “praias” no verão por famílias abastadas, que curtiam suas águas transparentes. Havia  prática até de banhos noturnos. Limpinho mesmo como antigamente, há muito tempo ele não  mais está.  Porém ninguém se lembra há quantos anos não  era observado assim, tão  poluído com toda essa intensidade. Estive três vezes esta semana no Jardim do Baobá, durante minha caminhada matinal. E fiquei impressionada com o que vi.

“Há semanas que o rio exala mau cheiro. Desconheço notícias sobre a razão de tal situação Lembro do tempo em que algumas organizações não governamentais atuavam no campo do meio ambiente, denunciavam a situação e os órgãos oficiais de controle se pronunciavam sobre o assunto. Hoje é só silêncio”, lamenta a historiadora Rita de Cássia Barbosa de Araújo, residente no Poço da Panela. Ela tem razão. O sofrimento do Capibaribe se banalizou. Virou normal. Pelo menos é o que parece. “E a Cprh existe? Existe mais?”, indaga outra leitora, Jailde Cavalcanti, acusando a omissão da Agência Estadual do Meio Ambiente (Cprh). A Cprh reconheceu hoje que  a situação do Capibaribe realmente se agravou nas duas últimas semanas, mas que a causa de um eventual despejo irregular ainda não foi identificada. “Perto do Recife Antigo onde a água se mistura mais com o mar, o problema não é tão percebido, mas é bem visível em bairros mais distantes do centro, como Torre, Casa Forte, Poço da Panela”.

Ao #OxeRecife é  o que afirma   Eduardo Elvino Sales de Lima, Diretor  de Controle de Fontes Poluidoras da Cprh. Ele informa que a Agência está com uma equipe percorrendo toda a extensão  urbana do Capibaribe , recolhendo amostras d´água que serão examinadas no Laboratório Adauto Teixeira, órgão da Cprh que faz análise de águas e efluentes (esgotos). Com isso, pode ser identificado o ponto do rio onde a poluição é mais drástica e se chegar mais facilmente ao agente poluidor. Previu, no entanto, que a missão não é tarefa fácil, devido à quantidade de tubulações que jogam para o rio.

Caso seja identificado o agente poluidor e dependendo da extensão do crime ambiental, o responsável fica sujeito a multas que vão de R$ 50 mil a R$ 50 milhões. Não é fácil identificar a origem do despejo, devido à desorganização do sistema de esgotamento sanitário do Recife, onde – muitas vezes – as tubulações de águas pluviais recebem ligações clandestinas de esgoto sanitário sem nenhum tratamento. “Infelizmente há muitas áreas sem esgoto na cidade e há pessoas que jogam na drenagem por falta de opção e, nesse caso, não podemos prejudicar aquelas que, muitas vezes, não têm esse tipo de serviço nem dinheiro para fazer uma fossa ou tratamento dos dejetos domésticos”, afirma. (No Recife, há domicílios como palafitas que nem latrinas possuem).

É uma pena que um rio tão lindo como o nosso Capibaribe seja vítima do descalabro em que se tornou o saneamento no Recife.

No segundo caso – condomínios, indústrias, domicílios de classe média – a obrigação é para que sejam construídas fossas sépticas, obedecendo às especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas. Ou seja, os dejetos devem ser tratados, para que sejam despejados com um impacto menor em rios. O caso mais grave do ponto de vista criminal é relativo ao domicílio ou indústria situados em áreas com serviço de esgoto, mas que não o utilizam e fazem o despejo irregular. Segundo Elvino, há áreas servidas pela rede mas com pessoas jogando o esgoto na  rede de drenagem (galerias pluviais para não pagar pelo serviço.

Pelo que se vê, saneamento no Recife é uma bagunça só.   E o Rio Capibaribe  paga o pato. E nós, que pagamos tantos impostos, também. Imaginem, em pleno século 21, morarmos em uma cidade onde menos de 30 por cento dos domicílios são ligados à rede oficial de esgotos. Um verdadeiro descalabro, para se pensar na hora de votar. Bem disse o leitor Ednando Barros e Silva: “Parece que na campanha eleitoral o Rio Capibaribe não corta o Recife”. O que vocês acham?

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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3 comentários

  1. Desde o início da obra da compesa na abdias de carvalho, próximo ao sport, que tem esgoto sendo jogado 24 horas por dia nas redes fluviais das redondezas. Mas, como é responsabilidade da compesa, pode ser que a CPRH não consiga localizar…

  2. Além disso, as margens do rio transformaram-se em efetiva lixeira. Da sede do CPRH até o Maria Lucinda é uma nojeira. A população não tem educação e a prefeitura é omissa. Sabe quando os infratores vão pagar alguma multa? Nunca!

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