Cadê o Parque Capibaribe? O Rio merece mais respeito!

O próximo prefeito vai ter que “rebolar” muito, se quiser ver cumprido o objetivo de transformar a capital em “cidade parque” até 2037, quando o Recife completa meio milênio. Até lá, urbanistas, consultores, autoridades e a própria população esperam ver concluídas todas as etapas do Parque Capibaribe que, pelo menos teoricamente, deve transformar a face de uma cidade que cresceu de costas para aquele que é um dos seus maiores patrimônios: o Capibaribe ou Rio das Capivaras.

Há alguns dias, o Prefeito Geraldo Júlio (PSB) lançou o livro Parque Capibaribe: A Reinvenção do Recife Cidade Parque, sobre o projeto resultante de convênio da Prefeitura com a Universidade Federal de Pernambuco (Ufpe), através do Inciti – Pesquisa e Inovação das Cidades. A parceria até agora rendeu dois resultados concretos: o Jardim do Baobá (nas Graças) e a Praça Otávio de Freitas (no Derby). O primeiro aproveitou um espaço ocioso e desconhecido pela população, onde havia um matagal e uma árvore mágica, o baobá.  Virou um case de sucesso. A segunda foi requalificada já tomando por base as diretrizes do Projeto. Ficou muito bonita mas não tão movimentada quanto o primeiro. Mas… e o resto?

Cena à margem do Rio Capibaribe, choca as pessoas de bom senso. Pior: metralhas ali deixadas por órgão público.

Para quem caminha, como eu, quase todos os dias, tangenciando o nosso “Cão Sem Plumas” (como chamava João Cabral de Melo Neto), é difícil acreditar que a tal cidade parque vai mesmo acontecer.  Sair do papel, integrando os bairros, entre arvoredos, flores e outros equipamentos urbanos, como ciclovias, mini  praças e outros pontos de convivência. Um sonho para os recifenses, que poderão deslocar-se de vários bairros a pé ou de bike, rumo ao centro. Hoje,  ao longo do meu caminho, infelizmente o que vejo é um rio pútrido (em situação pior ainda nos últimos sete dias), com margens tomadas por tudo de quanto é lixo. E o que é pior: lixo e metralhas deixadas até pelo poder público. No caso, pela própria Prefeitura. Ou por empreiteiras que a ela prestam serviços. Ou também pelo Governo do Estado.

Está aí o exemplo do espaço sob o viaduto ao lado do Carrefour, que não nos deixa mentir (foto central). E também na Avenida Beira Rio (foto superior), onde houve recentemente conclusão de serviços da Ponte da Torre. Passem lá para ver. Tem restos de canteiro de obras, metralhas, coisas que sobraram da reforma e que ninguém levou para canto nenhum.  Providência que é bom… Nada. Em Santana, a beira do Rio está tomada por um canteiro de obras em decadência, com material enferrujando e que deveria ter sido usando no falido Plano de Navegabilidade do Rio Capibaribe. Ou seja, virando lixo (este deixado pelo governo estadual) também na beira do Capibaribe, onde até os tapumes já ruíram.

Para o consultor Francisco Cunha, o Projeto Capibaribe é o “mais importante plano urbanístico da história do Recife” . E explica: “Terminamos descobrindo por essa extraordinária pesquisa realizada que o rio, que corta a cidade, é o meio de realizar a conexão da cidade, uma forma de sutura”. Da minha parte, acredito, no entanto, que o projeto exige mudança de cultura das próprias autoridades e também da população. E mais: Tem que ser  uma construção coletiva.  É preciso engajamento. E o poder público precisa dar o exemplo, evitando transformar em lixão as margens do nosso rio.

O livro fala sobre o projeto e os elementos necessários para a promoção de um reencontro com o Capibaribe e a reestruturação da cidade ao redor deste rio nas próximas duas décadas. É claro que o #OxeRecife aplaude o Projeto Capibaribe. O problema, no entanto, é o discurso. O outro, é a prática. Então, é bom que o próximo gestor tenha uma prática diferente quanto ao nosso Rio, usando-o realmente como elemento de conexão da cidade e não como lixão, como ocorre atualmente. Porque um mau exemplo chama outro. Infelizmente. Até porque no Recife é assim: quando alguém coloca lixo em local inadequado, os outros decidem fazer o mesmo. Isso é nas ruas, nas esquinas, nas praças, no Rio. Cultura suja. Que vai ter que mudar.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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