Pobre Recife. Será que isso vai mudar?

Está certo que se a situação já era grave, a pandemia tornou ainda pior. É que nem é preciso estatística oficial para perceber o quanto cresceu a população de rua do Recife. Praças, calçadas, jardins públicos estão totalmente ocupados por mendigos. Também as portas de templos católicos, como a Matriz da Boa Vista, na esquina da Rua do Hospício com a Imperatriz. E a Rua do Imperador? Virou uma tristeza. Apesar de toda a sua importância histórica, e de possuir relíquias do século 17 como o Convento Franciscano de Santo Antônio  e a Capela Dourada, e mesmo do início do século 20, como o Gabinete Português de Leitura.

Com certeza, as políticas públicas para enfrentamento dessa situação não vêm dando certo. Ou são insuficientes. Porque nos últimos meses, o problema só fez se agravar. A dificuldade dessa população sem teto e faminta só não é maior devido à mobilização da sociedade civil, pois são numerosos os grupos que vão diariamente às ruas do centro para levar alimentos para famílias que vivem ao relento. Também há ações como a executada pela Arquidiocese de Olinda e Recife, que disponibiliza quitinetes para pessoas em situação de rua, muitas das quais têm dificuldade para arranjar trabalho porque não possuem sequer um endereço para chamar de seu.  Ao #OxeRecife, eles relatam que dizer que moram na rua ou em albergue público é a primeira barreira para quem procura emprego.

Segundo me relataram moradores de rua da Boa Vista, por mais simples que seja o posto oferecido o empregador olha o sem teto com desconfiança. Normalmente os confunde com marginais. O outro lado da história é que ver calçadas ocupadas desta forma em uma rua histórica, como a do Imperador, dói em dobro no nosso coração. Primeiro, por ver tanta gente necessitada vivendo em condições tão degradantes . Segundo porque a cidade também sofre degradação, à medida que suas praças, jardins, calçadas são ocupadas por barracas plástico em condições bem mais precárias do que as de  acampamentos de sem terra vistos nas áreas rurais.

As fotos me foram enviadas pela assistente social Sofia de Paula. Veja o que ela diz:

“Esse é o retrato da cidade do Recife: miséria, abandono, degradação. Na verdade, um retrato em preto e branco, na qual fica evidente a omissão do poder público. O quadro ficou mais visível e exposto durante a pandemia, mas a situação vem se agravando há anos, sob os mais diversos governos que, irresponsavelmente, não são capazes de enfrentar o problema com ações efetivas e conforme um projeto de políticas públicas inclusivo e adequado à realidade.
Agora, os candidatos sorridentes aparecem nos programas eleitorais, propondo ações milagrosas com um cinismo revoltante. É mais uma aberração do nosso sistema político eleitoral, que premia esses incompetentes com salários de marajás e mordomias imorais”

Realmente, a Rua do Imperador virou um retrato da situação social do Recife, e não é só pós pandemia. Em outras áreas, a situação se repete.

Tem gente morando há meses na praças Osvaldo Cruz e Maciel Pinheiro (Boa Vista), na Dezessete e Independência (Santo Antônio), na Dom Vital (São José). Isso sem falar o que vem ocorrendo em bairros como Madalena, Encruzilhada, Casa Forte e Hipódromo. Só não vê quem não quer. Há candidatos dizendo que vão resolver o problema habitacional do Recife, tirar moradores de palafitas, dar casas melhores nos morros. Mas… a propósito, qual a política prometida pelos candidatos a Prefeito para assistir a população de rua? Nenhuma. Ou seja, vai ficar tudo como está.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Sofia de Paula Lopes / Cortesia

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2 comentários

  1. Vi a matéria agora, Letícia!
    Excelente todo o texto.Muito triste a situação dos sem teto que você abordou e,doloroso,porque não vemos qualquer sinal do poder público para a solução do problema.
    Parabéns ao #OxeRecife pela coragem e responsabilidade nas denúncias das nossas mazelas…
    Sofia Lopes

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