Meros mortos no Litoral Sul: Desequilíbrio ecológico?

Há empresas que, quando se instalam, parecem ser as salvadoras da Pátria. Vão aumentar a oferta de emprego, engordar os cofres públicos com o crescimento da arrecadação, melhorar a vida de todo mundo. No entanto, o sonho do paraíso –às vezes – se transforma em sucursal do inferno. É o caso, por exemplo da Vale, cujo nome nos traz logo à mente os desastres ambientais de Mariana e Brumadinho. Em Pernambuco, temos o exemplo da refinaria Abreu e Lima, em Suape, tão aguardada pelas autoridades e pela população. Mas também… tão cheia de problemas.

Além de ter-se transformado em centro de escândalos financeiros e ter custado muito mais do que o previsto, a Refinaria tem inquietado as populações vizinhas, com o constante odor de gás. São muitos os relatos de intoxicações, problemas respiratórios e desconforto provocado pela emissão de gases na indústria. Há famílias que afirmam que vivem com janelas e portas trancadas, porque não suportam o cheiro do ar. Há, ainda, quem culpe o Complexo Industrial de Suape – localizado no Litoral Sul – pelo crescimento do ataque de tubarões nas praias de Pernambuco. O fenômeno teria sido provocado pela destruição de manguezais.

Agora, chega ao #OxeRecife notícia de mais um problema ambiental na região.  Produtos químicos atirados ao Rio Tatuoca estariam matando os peixes. No final de outubro, apareceu um mero morto, no trecho conhecido como Camboa da Água Contra. O peixe atinge até dois metros de comprimento, frequenta áreas costeiras, manguezais e a foz de rios, em busca de parceira sexual. Ele tem crescimento lento e é muito disputado por pescadores profissionais e amadores. Mas a espécie é considerada “criticamente ameaçada” pela IUCN (International Union For Nature). No Brasil, há projetos que lutam pela preservação do Mero. Ou seja, é para se preservada.

Um mero jovem (de aproximadamente 3 kg), foi achado no final de outubro por pescadores da comunidade quilombola de Ilha de Mercês, localizada no Município de Ipojuca. O peixe estava em estado ainda inicial de decomposição, o que leva a crer que a morte aconteceu entre segunda e terça-feira da semana passada.  Não é a primeira vez que aparece um Mero morto na localidade. Em março deste ano, uma denúncia foi elaborada pelo Fórum Suape Espaço Socioambiental e encaminhada para o Ministério Público Federal (MPF) e para a Agência Estadual do Meio Ambiente (Cprh), relatando o constante aparecimento, desde janeiro, de indivíduos da espécie mortos nos trechos do Rio Tatuoca conhecidos como Porto do Zumbi e Porto da Nailda.

Na ocasião, foi solicitado à Cprh, que adotasse providências urgentes no sentido de monitorar a qualidade das águas naquela área e arredores (acerca da presença de metais pesados), e de averiguar se as intervenções promovidas pelo Porto de Suape e pelas indústrias instaladas nas proximidades têm ocasionado alterações danosas no habitat da espécie em questão. Outro peixe foi encontrado morto em setembro mas, até agora, nenhuma resposta foi prestada pela autarquia.   Os locais em que os peixes Mero foram encontrados são próximos a um antigo trecho de mangue do Rio Tatuoca que sofreu um grande aterro há quase dez anos para a construção de uma estrada de acesso aos estaleiros e para a construção de um outro empreendimento possivelmente um terceiro estaleiro que, no entanto, nunca se concretizou. Até hoje, tanto a estrada quanto a grande clareira desmatada encontram-se com sinais de abandono.

A comunidade de Ilha de Mercês relata, ainda, que, nessa região, já há alguns meses, tem ocorrido a proliferação anormal de algas filamentosas e águas-vivas da espécie Cassiopea sp, indicando a existência de algum desequilíbrio ambiental. A presença de uma superpopulação de algas é indicativo de ambiente com excesso de matéria orgânica, que pode ser atribuído, por exemplo, à presença concentrada de esgoto não tratado. “A morte de peixes Mero e a proliferação anormal de organismos no Rio Tatuoca demonstram, portanto, a existência de um grave desequilíbrio ambiental. Todo esse cenário tem prejudicado, também, a comunidade quilombola de Ilha de Mercês, que depende da pesca artesanal para sobreviver”, informa o Fórum.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Fórum Suape / Espaço Socioambiental

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