Chame, chame… a Delegada. “Mudança já”, oligarquias e equívocos

À primeira vista, a grande novidade da eleição para Prefeito do Recife se chama Delegada Patrícia. “Chame, chame, chame a Delegada” é, de longe, o slogan com maior poder de comunicação, aquele que é o mais fácil de “pegar”. E começa a tomar as ruas. Hoje de manhã, por exemplo, vi um cidadão dizer “Chame, chame a delegada”, quando jovens de azul tentaram ofertar propaganda de adesivos de José Mendonça Filho  (Dem) que lidera a coligação Recife acima de todos na disputa. Foi na Zona Norte do Recife.
Tirando João Campos  – que, segundo o Ibope – cresceu dez pontos percentuais entre 2 e 15 de outubro – qual outro candidato subiu nas pesquisas? Justamente a delegada, de 11 para 13 por cento. E mais curioso: Se ela chegar a um eventual segundo turno, bate José Mendonça ( 43 por cento contra 38 por cento), Marília Arraes (42 por cento contra 38 por cento) e encosta em João Campos (39 por cento contra 44 por cento).

Pelo menos é o que revelam os dados da pesquisa do Ibope encomendada pela TV Globo e Jornal do Commercio, divulgada na quinta-feira. Se sua equipe souber trabalhar bem, a delegada tem muita chance de crescer. Pois de todos os candidatos é a que enfrenta menor rejeição (14 por cento) contra 28 por cento de João Campos e Mendonça Filho, os dois campeões nesse setor.  Primeiro: o eleitor está cansado de roubalheira, de desvios de verbas, de ver os políticos envolvidos em inquéritos policiais.

E, infelizmente, o PSB parece ter se transformado em useiro e vezeiro do expediente. Estão aí a PF e o Tribunal de Contas do Estado  com seus relatórios, que não deixam mentir, investigando gastos suspeitos até mesmo durante a pandemia. Mendonça diz que vai “tirar o Recife das páginas policiais”. Mas a colocação é dúbia. Tem quem ache que é porque vai aumentar a segurança e tem quem interprete como ironia a eventuais deslizes administrativos do PSB. Além disso, nada de novo nem que empolgue o eleitor. Até o momento, a delegada não tem rabo de palha. E rabo de palha incomoda muito o cidadão que nos últimos anos vem tendo um olhar cada vez mais atravessado para a classe política. Para muita gente, político é esperto, interesseiro e só pensa no próprio bolso. Esse é um discurso que a gente vê nas esquinas, nos bares, nas ruas.

Patrícia chefiava a Delegacia de Crimes Contra a Administração Pública (a Decasp), que foi extinta pelo governo estadual. E isso já seria um bom argumento em sua aparente luta contra a corrupção. Mas isso não é tudo. Ela precisa propostas robustas e bem amarradas, para se consolidar como candidata viável, já que não possui experiência administrativa maior do que a delegacia que comandou. Mas tudo se aprende, na prática. A delegada, no entanto, encabeça a pequena coligação Mudança Já, com apenas dois partidos, o seu (Podemos) e o Cidadania. É pouca coisa para quem precisa chegar lá. Com uma campanha mais agressiva, ela poderia ser a “zebra” da eleição. Mas enfrenta adversários muito poderosos.

João Campos (33 por cento) tem “pedigree”, é leve como o pai  (o falecido ex Governador Eduardo Campos), a campanha possui estrutura rica e gigantesca, contando com dinheiro, com coligação de 12 partidos (incluindo o PSB) e pelo menos 400 candidatos a vereador atuando. João se apresenta como um bom produto, está sabendo usar muito bem o tempo de Tv, com produções quase cinematográficas. Tem evitado colar a imagem a aqueles que seriam seu padrinhos, o Governador Paulo Câmara e o Prefeito Geraldo Júlio. Com os dois muito mal avaliados pela população segundo o mesmo Ibope, o candidato corre de ambos como o diabo da Cruz.  Governador e Prefeito, aliás são crias de Eduardo Campos, de quem seriam simples marionetes se este ainda estivesse vivo. O garoto, no entanto, parece ter brilho próprio. Puxa pela emoção, mas sempre cita a razão.

Embora bastante conhecido – foi deputado, secretário estadual, vice governador, governador e ministro – Mendonça não cresceu, e caiu entre as duas rodadas de pesquisa. A coligação Recife acima de todos – visível e equivocadamente inspirada no slogan predileto do Presidente Jair Bolsonaro – não traz nada de novo. O Dem, aliás, perdeu uma boa oportunidade de usar Priscila Krause como cabeça de chapa. Com certeza, ela seria muito mais competitiva. E a situação hoje seria diferente.

Priscila teria fôlego para polarizar com Campos. Já Marília Arraes (de vermelho), mesmo usando a figura do avô Miguel Arraes  parece ter um eleitorado cativo e fiel, mas que não cresce. Não passa disso.  Nesse setor, João sabe usar o bisavô e o pai de forma mais adequada, com a programação movida a emoção. No caso de Marília, ou a campanha muda de estratégia e cria um grande fato novo, ou a petista vai permanecer nos 14 por cento mesmo até as urnas ou chegar lá em situação pior. Queira ou não, os três primeiros colocados pertencem a oligarquias políticas, de maior ou menor expressão. Já a delegada  não faz parte desse time. Por esse motivo, está muito à vontade para apregoar o que vem apregoando: “Mudança já”.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Reprodução do Horário Eleitoral Gratuito

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