Sessão Recife Nostalgia: Demolido um dos marcos da arquitetura moderna

A memória do Recife ficou mais pobre nesse sábado. E eu tomei conhecimento logo ao chegar da praia, quando abri o computador e observei uma mensagem na caixa destinada a comentários  dos leitores do #OxeRecife.  Era Ricardo Rego, denunciando: “Nesse momento acabaram de demolir a casa”. A casa a que ele se refere é um dos marcos da arquitetura moderna no Recife, sobre a qual eu falara aqui no dia 8 de janeiro de 2020, por ocasião da mudança da repartição pública que a ocupava (em Santana) para um empresarial no bairro do Poço da Panela, ali pertinho.  Sinceramente, já previa que isso ia acontecer quando a vi vazia.

No sábado (3/10), as máquinas trabalhavam implacavelmente para derrubar suas colunas e paredes. Imagens da destruição (abaixo) foram enviadas ao #OxeRecife. A casa em questão pertenceu ao então próspero industrial Miguel Vita, e ficava na Rua Astério  Rufino Alves, 367, Santana, Zona Norte do Recife. Nos anos 60 do século passado, a casa era uma espécie de “atração turística” da Zona Norte. Muita gente que morava em Casa Amarela – como era o caso de minha família – saía com filhos e netos, aos domingos, para ver aquela que era a última novidade de grandes dimensões, em termos de arquitetura moderna desse lado da cidade. O projeto, do arquiteto Delfim Amorim (1917-1972), é datado de 1959.

O final dos anos 50 e início dos 60 do século passado formaram uma época em que os móveis  – cadeiras, mesas, armários, radiolas – tinham pés no chamado estilo “palito”. E quem não possuía tanto dinheiro como o então dono da fábrica de refrigerantes Fratelli Vita tentava entrar no clima (sob influência de Brasília), construindo casas térreas, no então chamado “estilo funcional”. Lembro-me de ruas inteiras onde as pessoas construíam assim suas casas ou que demoliram as fachadas anteriores para modernizá-las. Durante mais de quatro décadas, o agora imóvel demolido abrigou a sede da Agência Estadual do Meio Ambiente (Cprh). E talvez por esse motivo não tenha virado pó antes.

A casa consta no livro  Guia do Recife, arquitetura e paisagismo como “edificação de alto luxo  com garagem para dois carros, fato raro em sua época”. Na mesma publicação, a casa é apontada como um exemplo “ da influências de Oscar Niemeyer”, que na época ficava ainda mais consagrado por seus projeto para a construção da capital federal, nos anos JK. A casa projetada por Delfim Amorim se organizava  “em planos distintos, interligados por rampas, para permitir o passeio arquitetônico ao redor de um pátio interno”. Lamentável que isso tenha acontecido em uma cidade onde não se preserva a memória, fato agravado pela conivência do poder público. Outros exemplos de arquitetura moderna, na Avenida Rosa e Silva, também amargam o abandono e a ameaça de demolição.  Veja outras perdas, nos links abaixo.  A  partir de agora, o casarão com suas vidraças transparentes ficará restrito aos livros da história da arquitetura  no Recife e às memórias afetivas dos seus moradores.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos e vídeo dos leitores e redes sociais

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3 comentários

  1. Sugestão: faça uma faquinha, e vá pagar as altas despesas de IPTU, ENERGIA E ÁGUA, inclusive o que o governo deixou de pagar. Acabaram com a casa! Do famoso Arquiteto, só tem a fachada!!!
    Se vc quiser sustentar e pagar tudo, vamos fazer um acordo bom. Pq espernear com o dinheiro dos outros amigo, é muito fácil viu??? POUPE-ME!!!!
    🙄🙄🙄🙄
    Cristina Vita,
    Uma das Herdeiras de Miguel Vita

    1. Nesse caso, é uma tristeza que o governo tenha deixado débitos. E uma tristeza maior ainda a Prefeitura não incentivar a preservação de um imóvel tão valioso. Por seu arrojo arquitetônico, era muito importante que fosse preservado. Uma relíquia. Várias instituição divulgaram documento descrevendo a sua importância.

    2. Oi Cristina, sou arquiteto e lamentei o destino da casa, mas sou daqueles que – embora lamente a perda desse nobre exemplar da arquitetura modernista – defendo a soberania de decisão dos herdeiros sobre o patrimônio familiar, salvo em casos onde há proteção legal para preservação da casa, que não era o caso.

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