Sessão Recife Nostalgia: Carregadores de piano no Recife do século 19

Ao longo do tempo, algumas profissões desapareceram do Recife: mascate, motorneiro, tigreiro, acendedor de lampião, o homem do macaco, tipógrafo, datilógrafo. Motorneiros, para os que não lembram, eram os condutores dos bondes. Tigreiros eram empregados domésticos, que tinham como função atirar nas ruas os dejetos das famílias (naquele tempo não tinha saneamento). Os datilógrafos sumiram, claro, com o advento do computador. Hoje não se diz mais datilografar, mas digitar um texto. O antigo datilógrafo virou digitador. Os tipógrafos que movimentavam máquinas e tipos de chumbo das gráficas de editoras e jornais foram substituídos por gráficos que, na verdade, operam máquinas de impressão a  laser.

O homem do macaco andava pelas ruas com o animalzinho que fazia estripulias como dançar, tirar o chapéu e levantar a saia. Ele distraía as crianças e, muitas vezes, era chamado para animar festas de aniversário com o macaquinho. Lembro que, em meus tempos de criança, algumas festinhas tinham presença da dupla. O macaco dançava, pulava fazia “feira”.  Uma outra profissão, muito comum no passado carregador de piano.  A profissão foi lembrada nesta semana por Emanoel Correia, assíduo colaborador do Bora Preservar e do Preservar Pernambuco, em cujos grupos sociais na Web ele posta textos quase diários sobre curiosidades históricas do Recife.

Veja o que ele diz:

No Recife de meados do século 19, devido ao grande número de violas que entoavam canções para alegrar a vida das pessoas, e em uma cidade que crescia com ânsia de ser cosmopolita, ali se abria um novo leque para a sociedade burguesa, muito influenciada pelos costumes europeus. E com certeza, seria o piano o instrumento que faria esse  diferencial. É aí que aparece a figura do carregador de piano. Os carregadores eram pobres, negros, mulatos ou mamelucos em sua maioria. Pela situação da época, buscavam nessa profissão a sua sobrevivência diária. Era comum no Recife dos anos 1850 a 1930 encontrar esses trabalhadores carregando pianos cantarolando, para não perder o ritmo da passada. E muitos acreditavam que a música evitaria o desafinamento do instrumento. Eram sempre orientados pelo guia, que ia à frente, abrindo caminho, para evitar acidentes. Era possível encontrar em ruas do centro ou no Poço da Panela, catorze ou mais pianos que começavam a fazer  parte do cotidiano da aristocracia. Eram muito comuns, também, os anúncios nos jornais oferecendo ensinamentos do instrumento por professores nativos e estrangeiros.

Emanoel lembra, também, que com a chegada do automóvel no início do século 20, os carregadores de piano foram sendo substituídos pelo transporte quatro rodas. Segundo me disse uma vez historiador Leonardo Silva, os pianos eram tão importantes no Recife que marcavam presença até nos bailes populares de carnaval. É que em vias como a Imperatriz e Nova, na Boa Vista e em Santo Antônio (onde os sobrados tinham o andar térreo para o comércio e os superiores para residência), as famílias colocavam pianos nas varandas para animar os foliões que passavam nas ruas.

Leia  também:
Sessão Recife Nostalgia: Nos tempos de O Veleiro, na praia de Boa Viagem
Sessão Recife Nostalgia: Quando a Agenda cultural era impressa
Sessão Recife Nostalgia: Quando a cidade quase vira Beirute
Sessão Recife Nostalgia: Os quintais de nossa infância
Sessão Recife Nostalgia: Ponte Buarque Macedo e a sombra magra do destino
Sessão Recife Nostalgia: Teatro Santa Isabel e a luta abolicionista
Sessão Recife Nostalgia: Herculano Bandeira e os jagunços do Palácio
Sessão Recife Nostalgia: pastoril, Villa Lobos, e piano na Casa do Sítio Donino
Sessão Recife Nostalgia: Beco do Veado e outros becos
Sessão Recife Nostalgia: Solar da Jaqueira
Sessão Recife Nostalgia: a Viana Leal
Sessão Recife Nostalgia: os cafés do século 19, na cidade que imitava Paris
Sessão Recife Nostalgia: os banhos noturnos de rio no Poço da Panela
Sessão Recife Nostalgia: Maurisstad, arcos e boi voador
Sessão Recife Nostalgia: Ponte Giratória
Sessão Recife Nostalgia: Quando a Praça do Derby era um hipódromo
Sessão Recife Nostalgia: O parque Amorim e a lenda do Papafigo
Sessão Recife Nostalgia: a coroação da Rainha do Recife e de Pernambuco
Sessão Recife Nostalgia: Casa de banhos e o fogo das esposas traídas
Sessão Recife Nostalgia: o Restaurante Flutuante do Capibaribe
Sessão Recife Nostalgia: Sítio Donino e seu antigo casarão ameaçado
Recife, saneamento, atraso e tigreiros

Texto: Letícia Lins/ #OxeRecife (C/ Emanoel Correia / Bora Preservar)
Fotos: Internet

Compartilhe

2 comentários

    1. Everson, talvez haja informações sobre eles nos arquivos da Fundaj. O acervo de informações sobre o Recife Antigo está on line, com acesso gratuito.

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.