Sessão Recife Nostalgia: Nos tempos de ” O Veleiro”, na praia de Boa Viagem

Ganha um doce quem identificar que local é este aí, da foto acima, que circula entre internautas saudosistas nas redes sociais. Uma dica: ficava no hoje terceiro jardim da Avenida Boa Viagem, e  atraía a juventude dourada da Zona Sul. As mesas do jardim viviam cheias de gente  nos ensolarados finais de semana. À tarde, eram muitas as famílias que frequentavam e também muita garotada, à época com idades que iam dos 13 aos 18. À noite, apareciam os que já estavam nas universidades. E muita gente saía direto da faculdade para paquerar no local. Era também, ali, que acontecia grande parte das confraternizações de final de ano. Afinal, naqueles tempos, o Recife não tinha tantas opções gastronômicas e boêmias como hoje. Tem até quem ache que ele faz tanta falta na Zona Sul quanto o icônico e histórico Bar Savoy, no Centro do Recife.

Reconheceram o local? Lembro de frequentar com amiguinhas de infância ou colegas do colégio, normalmente aos finais da tarde, principalmente no verão, quando nossos pais chegavam a alugar algum imóvel para “veraneio”. A turma se reunia na beira da praia de manhã. À tarde, muita gente ia à areia para jogar volibol. Após a partida, a garotada ia em casa, tomava banho, colocava uma roupa clara (para realçar o bronzeado) e ia para… O Veleiro. A preferência era pelo jardim, onde havia muitas mesas e a brisa que vinha do mar não deixava ninguém sentir calor. O cardápio pedido pela meninada, invariavelmente, tinha a batata frita como carro chefe.

Ao ver essas fotos nas redes sociais, nós – do #OxeRecife –  lembramos logo de nossas sessões nostalgia. Segundo postagens no Facebook, a primeira foto seria de José Kalbrener Filho. A segunda, não sabemos a quem atribuir. Procuramos alguns ex-frequentadores da casa, que depois passou a ser muito procurada também por políticos. Eles gostavam do seu restaurante com “cozinha internacional” para almoço. Ali, ocorreram memoráveis entrevistas coletivas. Estive em muitas delas, nos meus tempos repórter de editoria política, em uma época que o Estado tinha protagonismo na vida política nacional, bem diferente do ostracismo em que nos encontramos, desde o desaparecimento de lideranças como  Josué de Castro, Francisco Julião, Fernando Lyra, Miguel Arraes, Eduardo Campos. Também havia conversas individuais. Lembro-me que uma vez precisei entrevistar o então Deputado Fernando Lyra (1938-1913). Sabia que ele estava lá. Telefonei para O Veleiro e ele me deu entrevista… da cozinha. Naquele tempo, não existia celular, e repórter ralava para achar suas “fontes”.

O #OxeRecife mostra, a seguir, alguns depoimentos de antigos frequentadores de O Veleiro. Além de recordar, pratos, bebidas, os encontros que fizeram época  entre os jovens do século passado, alguns até “ressuscitaram” expressões já esquecidas do nosso vocabulário como “acender vela” e  “botar o macaco”. Vejam o que eles dizem:

Ceça Almeida – “Era um espaço maravilhoso para encontros com amigos e familiares.  A batata frita e o Rum  Montilla eram sempre pedidos. Quando estávamos com dinheiro, pedíamos filé com fritas.  Ah, tempos bons”.

Francisco Cunha – “Sou da época em que Boa Viagem era reduto da boemia praeira, podemos dizer assim. Aquela não era feita na areia, mas sobretudo nos bares: Veleiro, Castelinho, Mustang, este já quase em Piedade. E a ‘piece de resistence’ como dizem os franceses, era o chope. Ou, na ausência dele, a cerveja em garrafas escuras de 600 ml, aquelas que no Mustang , iam sendo acondicionadas   depois de vazias no próprio engradado embaixo das mesas. Saudades do Veleiro, que era o primeiro e o mais despojado deles. Da conversa solta, do sol, do ar livre, da vista do mar, dos prolongados ‘expedientes’ de fim de semana que, não raro, iam além da ausência do próprio sol. Assim como o centro do Recife precisa de um novo Savoy, bem que Boa Viagem merecia um novo Veleiro”.

Ladjane Melo – O Veleiro era tudo de bom. Lugar com gente bonita, alegre, cheia de sonhos. Lugar com gastronomia deliciosa e agulha frita que deixou saudades. Lugar com brisa do mar, risos e felicidade. Momentos especiais vividos no Veleiro. Pena que o que é bom, não dura para sempre”.
Maria Cristina Henriques – “Ia de enxerida com irmã e amigas mais velhas. Amava. Dancei, paquerei  e fui muito paquerada. Casei cedo e deixei de ir devido à maternidade. Ia também com a família, saudade disso tudo”.
Ivonete Wanderley  e Eduardo Wanderley –  “Veleiro inesquecível. No seu jardim, eu e meu marido namoramos, e tivemos muitos bons momentos. Vínhamos de Olinda, onde residíamos, e só o passeio e a beleza da praia de Boa Viagem valia a distância”. O casal, hoje com 70, não esquece as noites de verão ali passadas.
Lúcia Helena Marinho – “Se aqueles jardins falassem…Já namorei muito ali, admirando a paisagem, aproveitando a brisa do mar, ouvindo o barulho das ondas e sentindo o cheirinho da maresia. No começo dos anos 70, a boa era o happy hour do Veleiro à beira mar”. Ela lembra os quitutes como “o fricassê de camarão, regado a cerveja geladíssima, inesquecível”.

Ceça Alcoforado – “Eu ia com a turma da rua, do Cordeiro. Lembro de uma vez que um cara me tirou para dançar, mas toda vez que ele apertava muito eu botava o macaco. Na segunda vez, ele me deixou no salão. Tínhamos objetivos diferentes”. Explicação do #OxeRecife: Macaco era quando, em uma dança, a dama colocava o braço no ombro do cavalheiro, para afastá-lo de “saliências” indesejáveis.

Mucíolo Ferreira –  Durante os tempos do curso de jornalismo, íamos sempre às sextas-feiras, após as 22h, depois das aulas da Universidade Católica. Além de encantadora, a choparia ficava na melhor área da orla de Boa Viagem. O chope era de primeira e as músicas sempre com os hits da atualidade. A brisa suave do mar não permitia suar a camisa. Lembro que, às sextas, mais da metade do seu público era formado de universitários.

Fabíola Delane – “Foi no Veleiro que me dei conta  que não era mais criança, e sim uma mocinha. Eu ia sempre acendendo “vela” de minha prima com o namorado. Explicação do #OxeRecife: No século passado,” acender vela” significava acompanhar um casal de namorados a um determinado lugar. Era exigência dos pais, para garantir a reputação das “moças de família”.

Arlete Falcão –  Moradora de Piedade e já namorando meu primeiro marido, íamos nas tardes de domingo para tomarmos umas cervejinhas. Também frequentei com o grupo de faculdade, entre os anos 75 e 79.
Barbara Kreuzig – Cheguei ao Recife em 1980, para trabalhar na Fidem, na época em que o órgão estadual de planejamento urbano era bem conceituado no Brasil. No final do ano, tínhamos sempre comemoração. E a primeira que participei foi no Veleiro.
Socorro Sobral – Fazíamos uma cotinha. Íamos irmãs, primos e amigas, comer batata frita, rum Montilla com Coca-Cola e daiquiri. A batata francesa era grossa e frita, não havia outra igual em outro lugar. Quando a situação financeira era boa, ou quando papai nos levava, era filé com fritas. Havia também uma boate recuada, com luz negra.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Grupos Sociais / Internet

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