Pandemia: Minha vida com os saguis

Durante a pandemia, aumentou muito não só a quantidade como a variedade de espécies de animais aqui em Apipucos, bairro onde resido.  Apareceram libélulas que eu nunca tinha visto – douradas, vermelhas, com asas listradas – assim como pássaros e borboletas que não eram tão comuns por aqui. Há aves de bico e papo vermelho, que jamais havia presenciado antes por essas bandas (não consegui ainda fotografá-las).  E os gaviões estão mais presentes, em seus voos cheios de imponência. Porém há velhos moradores dos sítios e matas do bairro que, se já eram muito próximos de nós, ficaram ainda mais “íntimos” durante a pandemia: os saguis. Se antes eram considerados “da casa”, agora viraram da família. Marcam presença com frequência muito maior do que antes.

Todos os dias, eles aparecem, com seu gracioso gestual e os tufos brancos balançando ao vento. Às vezes, estão à distância em árvores vizinhas. Basta que eu faça um barulho com os lábios, por eles já conhecido, para que – em pouco tempo – cheguem à varanda ou na janela.  Virei “mãe” de um bando deles. Avisam quando  se aproximam, com assobios. Quando estou preparando a “mesa” me defronto com algum deles atrás de mim,  na altura de minha cabeça, à espreita, observando o que estou fazendo.

Ficam tão próximos, que até chego a sentir o cheiro deles. Esse da foto, no telhado da varanda, é o menos cerimonioso. E,  de todos, o mais destemido. Normalmente, pegam a comida e dão saltos para as árvores. Este come na varanda e só salta de volta para as árvores com o terceiro ou quarto pedaço na boca. Acompanho as fêmeas grávidas, vejo os bebês sendo carregados nas costas de alguns, e quando começam a ficar independentes. Um deles, Benjamim Button, está no vídeo que vocês podem ver abaixo. É  fácil identificá-lo. É o mais feinho de todos, embora tenha deixado há pouco de ser um bebê.  Um outro dia explico a razão do nome (pois até o momento ainda não consegui fotografá-lo, esconde-se muito rapidamente). Observo que  os saguis têm uma outra vocalização – diferente do assobio – assim que chego perto. E aí é uma festa, porque sirvo diariamente um banquete: bananas maduras, que adoram. Há dias que comem uma só, mas já houve tarde em que detonaram três. Ofereço outras frutas, como laranjas, mangas e até melancia, tudo cortado em pedacinhos. Vêm sempre  de manhã. Mas de tarde aparecem pedindo bis.

Tentei adicionar sementes de girassol ao cardápio – porque li que gostam muito – mas os de Apipucos não apreciaram muito não. E ainda fizeram cara feia para mim, como quem cobra coisa melhor. No dia que coloquei melancia, a recepção também não foi muito boa. Olharam para mim (possuem olhos extremamente expressivos que parecem falar), como quem dizia “não é isso que a gente quer”.

Hesitaram em avançar na comida, enquanto pareciam discutir entre si. “Comemos ou não essa fruta vermelha que a gente não quer?”, pareciam indagar-se, uns aos outros. Até que resolveram comer os pedaços de melancia em atitude coletiva. De comum acordo, pelo visto. Mas não devoraram a porção toda que coloquei. Já a banana, é uma verdadeira festa, não resta nada do que coloco no prato de barro deles. Então, bananas aos macacos! E eles detonam rapidamente, todas que são servidas. Um dia desses, meu filho Thiago havia enterrado algumas cascas em um jarro na varanda, pretendendo que virasse adubo. Pois eles fizeram o maior esculhambação: desenterraram as cascas, sujaram a varanda de areia, rasparam o que quiseram das cascas e devoraram os pedacinhos que arrancavam,já meio apodrecidos. Não entendi nada. Então passei a servi-los com as bananas já descascadas, mas deixando algumas cascas no pratinho, para que façam delas o que quiserem.

Deixaram as cascas para trás. Hoje não tinha banana. E servi pedacinhos de maçã. Comeram com avidez, mas a fruta – que tem muita massa – parece impor certas dificuldades aos bichinhos. As cascas são rejeitadas. Da próxima vez, oferecerei sem casca. Penso que não há problema em servir a maçã, embora não seja fruta encontrada em nossa terra. Problema seria ofertar biscoitos, picolés, enlatados como vejo algumas pessoas fazerem, na praça onde resido. A festa maior, no entanto, continua em torno da banana.

Na pandemia, com o isolamento social, parece que ficaram mais à vontade. Tenho visto com muita frequência em locais onde não os observava antes, como na Estrada do Encanamento e Avenida Dezessete de Agosto, que são bastante movimentadas. Os saguis vivem soltos, na natureza, pulando de galho em galho, como trapezistas. Mas não têm a menor inibição em entrar na sua casa. E não é de hoje. Anos atrás, minha filha Joana Carolina tomava sem café da manhã, quando dois “larápios” invadiram a mesa, para roubar comida. Ontem à tarde, vieram sete atrás do “prato” predileto. Um deles mastigava um bichinho (não sei se era um pássaro bebê, só vi um pedaço azulado da pata). Ao ver a banana, tirou o bichinho da boca com a mão e jogou longe, no meio da rua.

A banana, portanto, é bem mais apreciada.  Parece ser a comida número um. Já os vi comendo, também, flores de pau- brasil, mas não estamos em época de floração. E já invadiram a varanda para roubar ovos da sabiá branca no ninho. Mas a mãe valente aplicou uma surra em um deles, e o bando fugiu com medo. E em grupo. Um deles voltou  dias depois ao ninho quando o bebê sabiá já tinha ganhando asas e voado. A cara de frustração do sagui me dez rir. Não tive como evitar  – me perdoem o trocadilho – o sorriso, diante do ninho do sabiá e das sábias leis da natureza. No domingo, havia um sagui correndo do lado da minha casa, no meio da rua.  Pelo chão.Temi que um cachorro fizesse com ele o que o sagui queria fazer com o filhote do sabiá. Com o isolamento social, a cada dia, os bichos me divertem mais. E viva a natureza!

Veja, no vídeo, o estranhamento às maçãs servidas:


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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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