A arte de fazer arte na pandemia

Antropóloga, agitadora cultural, dona de bar, fotógrafa, artista plástica que recorre tanto aos meios tradicionais – pincéis e tintas – quanto aos recursos digitais. Clarissa Garcia é assim: versátil. Pintora e desenhista de mão cheia, ela mantém seu Poço das Artes, como forma de movimentar as noites do Poço da Panela e também de garantir o seu sustento. Ali, funciona um mix de bar, lojinha e galeria, sempre com a oferta de produtos de muito bom gosto, sejam acessórios, artesanato, obras de arte, confecções.  Como se isso tudo não bastasse,  é lá – no Poço das Artes –  que se concentra o divertidíssimo bloco carnavalesco Mulher de Bigode,  que faz frente ao ” machismo” de Os Barba, outra agremiação carnavalesca tradicional do Poço.

Com a pandemia, as noites do bucólico bairro ficaram mais tristes. Clarissa teve que fechar temporariamente aquele que já se tornou um ponto de encontro obrigatório na Zona Norte. Mas ela não parou. Começou a conciliar o preparo de pratos (no sistema de coleta, quando o cliente vai lá buscar) com a veia  artística. Nesta semana, pensou em reabrir. Mas, antes, fez uma enquete entre os frequentadores, a fim de saber se eles já se sentem preparados para o retorno à boemia. A resposta foi que todo mundo ainda está muito cauteloso para sair. As pessoas não se sentem seguras para ganhar as ruas. Então, nossa amiga permanece aproveitando o tempo agora mais livre, para desenhar, pintar.

“Quando começou a pandemia, uma amiga muito querida lembrou de mim ao ver uma papelaria falindo e liquidando tudo baratinho. Telefonou e disse: ‘quer comprar canetinhas de nanquim pela metade do preço?’ Aí eu comprei um monte de canetas e comecei a desenhar muiiiiito”, relata. “Como domino bem esse ambiente digital, sempre acabo escaneando ou fotografando meus desenhos e pinturas e aplicando as mil e uma possibilidades de intervenção. Em alguns eu continuo o desenho e pinto, em outros eu insiro fotografias, pedaços de imagens, texturas”, explica. E o resultado são trabalhos bonitos, delicados, verdadeiros colírios para os nossos olhos. Antes, ela costumava fazer fotos de belas paisagens da Região Metropolitana – incluindo do Recife, Igarassu, Itapissuma e  Olinda – às quais imprimia as cores que queria, tornando ainda mais bonitas as cenas retratadas, como se observa na foto abaixo, no Poço.

“Aquela técnica, eu chamo de fotopintura ou foto aquarela. Eu fotografo, imprimo em papel que suporta pintura e ‘pinto’ com aquarela, lápis aquarela e outros materiais. Depois digitalizo a imagem e dou uns toques de cor, saturação, contraste, ou seja, dou um tratamento digital muito pessoal na imagem”, explica a artista, ao #OxeRecife.

Com muito material em casa, comprado na papelaria que estava quebrando em plena pandemia, Clarissa ao invés de usar a fotografia como base – como fazia anteriormente – decidiu dar início aos novos desenhos, usando inicialmente o tradicional nanquim. “Sim, nas atuais eu parto do desenho em nanquim, geralmente. Ou desenho em pastel a óleo, ou de uma pintura”. E dessa vez, homens e mulheres tomam o lugar das paisagens anteriores.  “Quando eu desenho, realmente, o ser humano aparece logo como assunto principal. Nas fotografias eu só estava inserindo os humanos na paisagem das mais recentes. O que há de comum entre elas é essa mistura de várias técnicas, envolvendo sempre o processo digital para unir tudo. Isso resulta em uma obra sem aquela noção de obra única”, conta Clarissa, para quem o conceito tradicional de obra de um dono só é coisa do passado.

“Muitas pessoas ainda têm o conceito de “original” como sendo um valor na arte, mas não entendem que para muitas técnicas isso não existe. Por exemplo, para as gravuras também não há um original. Ou talvez o meu “original” seja um arquivo digital. Além disso, não acho que o valor da obra está em só ter um exemplar. Esse é um critério de mercado que não interessa mais à arte. Além de ser uma preocupação egoísta, de querer que ninguém mais tenha aquela obra. Acho que é bem mais democrático que ela possa ser reproduzida e que várias pessoas possam dela usufruir”.

Na atual fase, Clarissa se mostra satisfeita consigo mesmo, curtindo a maturidade dos 57 anos, e tornando a figura feminina mais assídua à sua obra, embora também dedique um certo espaço ao masculino: “As mulheres são mais presentes. Também desenho homens, mas eu tendo a estar pensando muito em nós, nos nossos prazeres, nas nossas dores, em como podemos nos sentir melhor nesse mundo. Estou em uma fase muito feliz da minha vida, de bem comigo, adorando o sossego de morar só, ocupando meu tempo do jeito que quero, principalmente durante a pandemia”, diz.

“É um privilégio para quem tem casa, embora o dinheiro esteja bem curto, poder ficar trabalhando e fazendo o que gosta sem necessidade de colocar o pé na rua. Estou vendo as mulheres da minha geração (e da minha classe social) conquistando esse bem estar na maturidade. Acho que retrato muito isso. É uma pena que essa situação seja acessível para poucas Não é fácil! Como eu disse, durante a pandemia tenho muito tempo livre para ser artista. Como dona de bar eu não tinha tempo, vivia correndo. Havia outros prazeres, como receber as pessoas, os músicos maravilhosos, encontrar muitos amigos, e, claro, ter uma renda que me sustente com conforto”.

Clarissa é como milhões de brasileiros que, diante do desemprego, tiveram que se reinventar, porque infelizmente o trabalho artístico  também não é suficiente para cumprir seus compromissos financeiros. “Como artista é muito difícil viver. Um desenho não paga nem a minha conta de luz. A antropóloga está desempregada faz tempo. Então, o Poço das Artes é uma alternativa. Mas me consome muito, porque eu tenho muitas funções: sou produtora, faço as compras, organizo o cardápio, as receitas: faço os cartazes, a divulgação nas redes sociais, administração financeira”, diz mostrando uma versatilidade ainda maior do que a esperada. Ela ainda faz curadoria e gerencio a galeria.

“Realmente não estava dando tempo para ser artista. Eu gostaria muito de poder viver de arte, mas aqui em Recife quase ninguém consegue”,diz. E a múltipla Clarissa se vira com mais um tipo de serviço:  a restauração digital de fotografias, criando uma cópia que pode ser ampliada. “É um trabalho muito importante para a conservação de nosso patrimônio cultural de acervos particulares de fotografia, mas é uma pena que estes acervos sejam tão pouco aproveitados, pois  poucas pessoas dão o valor que eles merecem”.

Veja, na galeria abaixo, oito dos trabalhos de Clarissa, para escolher o seu. Não são caros.

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Serviço:
O quê: foto aquarelas ou fotopinturas, desenhos e pinturas
De quem: Clarissa Garcia
Tiragem:  doze cópias impressas em tamanho 30 cm X 42 cm, Fine Art, em papel Hahnemühle Matte Fibre
Quanto: R$ 250 cada
Outro serviço ofertado: restauração digital de fotografias. Preço a combinar, dependendo do serviço.
Onde:  Poço das Artes, na Rua  Álvaro Macedo, 54, Poço da Panela. Mais informações no site https:// clarissagarcia.wixsite.com/arte/fotopintura
Horário de atendimento: 16h às 18h, combinando antes pelo WhatsApp (81-998171464)

Obs: O Poço das Artes está fechado devido à pandemia, mas o serviço de restaurante funciona com cardápio de pizzas, tortinhas, sanduíches de croissant (brie/jamon e brie/geleia de damasco).  Ela não tem serviço de entrega, e o cliente passa lá para pegar as encomendas. Também pode pedir pelo Rappi em “Qualquer coisa”.

Texto:  Letícia Lins  / #OxeRecife
Fotografias: Divulgação

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