Sessão Recife Nostalgia: Quando a cidade quase vira Beirute e a estátua do herói

Desde ontem, o mundo não fala em outra coisa, a não ser a explosão que destruiu a região portuária e boa parte de Beirute, acidente que deixou mais de 100 mortos e 4 mil feridos. As gerações mais novas não sabem, no entanto, que o Recife por pouco não viveu drama parecido com a tragédia na capital do Líbano.  Foi em 1985. Naquela época, o parque de tancagem  para armazenar combustível ainda não funcionava em Suape (Litoral Sul de Pernambuco), mas sim próximo ao Forte de Brum, a menos de 500 metros do Porto do Recife, onde um navio petroleiro começara a pegar fogo.  O incêndio de grandes proporções, ali à altura do Marco Zero, levaria parte da capital pelos ares. Mas a tragédia só não aconteceu devido a um ato de heroísmo de Nelcy da Silva Campos (1931-1990), então prático do Porto, que rebocou o cargueiro em chamas para local distante.

Se não fosse ele, muitos de nós não estaríamos aqui para contar essa história. Foi assim: era uma madrugada de domingo, 12 de maio de 1985, quando o navio petroleiro Jatobá – carregado de gás butano (de cozinha) – começou a pegar fogo, na ancoragem. Um dos seus três tanques explodiu, provocando labaredas de  até 20 metros de altura. Nelcy foi acordado de madrugada, para tentar levar o navio para longe. Ao chegar no Porto, serrou manualmente dois cabos dos nove da embarcação, amarrou o Jatobá ao rebocador Saveiro e levou o navio em chamas para distância a seis quilômetros da costa, onde ele queimou por 15 horas. Antes, ainda teve coragem de deslocar um navio norueguês que estava ancorado, bem pertinho do Jatobá.

Nelcy virou herói. Hoje, ele tem até estátua, em frente ao Terminal de Passageiros do Porto do Recife (foto maior). Nessa quarta, um dia após a tragédia do Líbano , o amigo, leitor  Agenor Tenório –  companheiro de passeios a pé em grupos como o MeninXs na Rua e Caminhadas Domingueiras –  comunicou-se com o #OxeRecife. E sugeriu uma memória sobre a quase tragédia. “O fato que envolveu Nelcy foi extraordinário e a explosão recente no Líbano só nos faz lembrar isso. Pouquíssimos recifenses sabem sobre esse nosso herói”, lembra.

Conta Agenor:
“Há 35 anos, o Recife passou por um grande perigo, que se fosse consumado, seria muito parecido com a grande explosão que aconteceu há pouco no Líbano. Apareceu um herói que nos salvou. Há um busto que o lembra hoje em frente ao armazém da Praça do Marco Zero.  Pouquíssima gente sabe desse episódio. Essa quase tragédia foi decisiva para a transferência de todo o parque de combustíveis que existia no Recife para o porto de Suape. Lá existiam centenas de tanques de gás, gasolina, álcool, diesel e outros produtos inflamáveis. Penso que deveríamos reverenciar mais nossos heróis”, sugere Agenor. Reverência feita, Agenor. Se não fosse o nosso herói, o Recife teria virado a Beirute atual há 35 anos.

Tem gente nunca esqueceu daquele fato. “Lembro como se fosse ontem. O dia estava amanhecendo, quando eu retornava (no primeiro ônibus do dia) de um show de Reginaldo Rossi, no antigo Clube Bandepe. E ao chegarmos nas imediações do Centro de Convenções, avistamos uma imensa coluna de fumaça preta, que se erguia do Porto do Recife. Já no ônibus, ouvimos no rádio o que acontecia”, lembra Fábio Dantas.  Outra pessoa que recorda da quase tragédia é Augusta Amaral, que começou a trabalhar na Prefeitura pouco tempo após o incêndio do Jatobá.  O  Parque de tancagem do Brum ainda não havia  sido transferido para Suape e todo mundo temia uma explosão. “Trabalhava no quinto e no sétimo andar, e todos os dias subia e descia de escada dizendo que estava treinando para se acontecesse algo”. E acrescenta: “A Prefeitura alargou a escada interna e construído uma saída de emergência externa. Que até o momento não tinha”. Haja memória. E haja história…

Vejam o vídeo disponível  sobre o assunto, nas redes sociais:

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Fundação Joaquim Nabuco  e Porto do Recife/ Internet
Vídeo: Fonte, You Tube

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