Sessão Recife Nostalgia: Os quintais de nossa infância, bananas, mangarás

Quando eu era criança, minha mãe só trazia da feira dois tipos de frutas: laranja e abacaxi. As demais – banana, jaca dura e jaca mole, coco, goiaba (branca e vermelha), abacate, mamão, manga (rosa e espada) – tinha tudo no quintal. Lembro-me, também, que havia um pé de pinha e outro de sapoti, mas esses não eram tão produtivos quanto os demais, o que era uma pena. Cada vez mais escassas, ambas são saborosas.

Naquela época, o Recife ainda era uma cidade horizontal. E o bairro de Casa Amarela, onde morávamos, era mais horizontal ainda. Como a casa dos meus pais e de meus avós maternos eram vizinhas, não havia muro separando-as. Então, imaginem o tamanho dos quintais, sem falar nos dos vizinhos, onde arranjávamos pitangas, carambolas, jambos das três espécies, pitombas e até cajás. Essa “festa” também funcionava para moradores de Casa Forte, Monteiro, Apipucos, Poço da Panela, Várzea, Madalena.

Até o século passado, os quintais do Recife eram cheios de fruteiras.  Quem sabe,hoje,  o que é mangará?

Das frutas da vizinhança, havia só duas que eu não gostava. Era a tal do tamarino e a danada da macaíba. Via a molecada jogando pedra em uma macaibeira, e eles passavam na rua mordendo aquele coquinho amarelo com uma avidez tão grande, que eu julguei tratar-se de uma delícia. Mas foi uma decepção, na primeira mordida. Amarga demais… Até hoje não tem quem me faça tomar um raspa-raspa de macaíba, embora este seja o mais disputado entre os muitos sabores oferecidos nas praias.

E a macaíba amarela é tão amarga que  até chamam a fruta de “bombom de boi”. Mas isso tudo é só para lembrar como estão escassos os nossos quintais. Em consequência, os frutos que eles produziam, cada vez mais raros. Lembrei da minha infância nesta semana, quando estacionei na Padaria Engenho Casa Forte,  que  fica na Avenida Dezessete de Agosto. E me defrontei com os cachos de banana do quintal vizinho, caindo sobre o muro da loja. E também os mangarás, aqueles corações compridos e vermelhos, quase roxos, que os “animais” urbanos até desconhecem o nome. Mas que, antigamente, era usado para fazer  xarope caseiro. Como ainda hoje, no interior. Deu uma nostalgia… Puxa, que saudade dos quintais de antigamente, hoje inteiramente dominados pelos espigões e as “matas” de concreto da especulação imobiliária.

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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