A curiosa história do espião duplo que agiu no Brasil pré-ditadura de 1964

Tramas envolvendo espionagem sempre despertam curiosidade do público. Filmes e livros com assuntos do gênero fazem o maior sucesso. Principalmente quando baseados em fatos reais. Agora é a Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) que vem enriquecer esse “repertório”. É que está lançando Um espião silenciado, do historiador carioca Raphael  Alberti. O  livro conta a saga do jornalista José Nogueira (1934-1963), na verdade um agente duplo, que atuava no obscuro cenário dos meses que antecederam o golpe militar de 1964. Nogueira nasceu no Ceará, mas mudou-se muito jovem para o Rio de Janeiro, onde atuaria como jornalista e espião. Por conta da pandemia, o livro terá lançamento via Web, com live às 17h30m dessa quinta-feira (24/7), com um bate-papo entre o autor e  o editor da Cepe, Digo Guedes.  Anote aí como acessar o canal da Cepe no Youtube (https://bit.ly/canalcepe) .

A história do agente duplo, no entanto, é desconhecida pela maioria dos brasileiros. José Nogueira era jornalista do Diário da Noite (Rio de Janeiro) e agente secreto da Marinha. No dia 3 de março de 1963, ele “caiu” da varanda do apartamento em que residia, na Rua Juan Pablo Duarte, 29, Cinelândia, no Centro do Rio. Acidente, homicídio, queima de arquivo? Provavelmente, ele sabia demais, a julgar pelo que dele conta o historiador no seu livro. A morte suspeita jamais foi bem esclarecida. Motivo para ser eliminado, ele tinha de sobra. Conhecia bem as ações de dois órgãos que contribuíram para o golpe: o famoso e famigerado Instituto Brasileiro de Ação Democrática (o Ibad, de triste memória) e o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes). Nogueira sabia dos pagamentos das duas entidades a “jornalistas” que se “vendiam” à direita para publicação de matérias  contra o então presidente João Goulart (Jango).

Ele seria o intermediário na entrega desses valores. Mas ao mesmo tempo que era informante das Forças Armadas, Nogueira denunciou, através de reportagem, a atuação da Klu Klux Klan no Brasil, organização clandestina, racista e criminosa que perseguia a população negra nos Estados Unidos. No Brasil, a seita era chamada de Ordem Suprema dos Mantos Negros, também conhecida como Maçonaria da Noite. E era claramente inspirada na seita original, a Ku Klux Klan. A descrição do ambiente da época, marcado pela Guerra Fria, ilustra o clima de tensão no qual o jornalista José Nogueira, o espião, transitava. Com desenvoltura, o controverso personagem exerceu as funções de agente secreto do Centro de Informações da Marinha (Cenimar) e de principal informante do deputado Eloy Dutra na CPI do Ibad-Ipes e dos jornalistas Zuenir Carlos Ventura, do Tribuna da Imprensa, e Pedro Müller, do Jornal do Brasil, entre outras funções à esquerda e à direita.

Além de analisar a trajetória do espião duplo, Raphael Alberti questiona os motivos que poderiam ter provocado o “acidente” que acabou com a vida de Nogueira, evidenciando as falhas policiais  no inquérito que apurou a sua morte. Por último faz um apontamento das principais pessoas denunciadas por Nogueira, que poderiam ter ordenado ou cometido o crime, e suas relações interpessoais. O grande desafio do escritor foi encontrar documentos históricos que comprovassem alguns desses fatos da vida de José Nogueira. “Por mais de 50 anos essa história foi relegada. Nem sequer no relatório de mortos e desaparecidos políticos da Comissão da Verdade ela se encontra. A cada dia me convenço mais que as ideias são mesmo à prova de balas. E a verdade, à prova de queda”, analisa Raphael (foto), que passou dez anos se dedicando à pesquisa que virou livro de história.

O autor conta que a investigação sobre personagem tão polêmico começou por acaso, com a monografia da graduação em história pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).  Ele examinava os registros da Comissão Parlamentar de Inquérito que investigava o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) e o Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais (Ipes), acusados de crime eleitoral. E se deparou com um parágrafo que indicava o assassinato de um jornalista pelo Ibad. Raphael já tinha lido a bibliografia do Instituto e não havia encontrado nada sobre o homicídio. Foi então que começou a sua busca para revelar a história em trabalho acadêmico, depois ampliado e transformado em livro. Raphael Alberti nasceu no Rio de Janeiro e é mestre em história, política e bens culturais pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getúlio Vargas. Atualmente é professor de História no município de Caruaru, em Pernambuco.

Leia também:
Os levantes das ligas camponesas
Ditadura nunca mais:
Filme revive fatos da ditadura de 1964
Livro oportuno sobre a ditadura (que o Presidente eleito diz que nunca existiu)
Lição de história sobre ditadura no Olha! Recife
Ministério Público recomenda que não se comemore 1964 nos quartéis do Exército
A história de 1968 pela fotografia
Cantadores: Bolsonaro é a marca do passado
E agora, Bozó?
Arsenal: Sexta tem Cabaré do Bozó
Coronavírus: vaidade, mesquinharia, doação
Herói, palhaço, lockdown

Cientistas contestam Bolsonaro
Voltar à normalidade como? “Gripezinha”, “resfriadinho” ou genocídio?
Servidor federal é demitido porque fez a coisa certa na proteção ambiental
Ministro manda oceanógrafo trabalhar na caatinga: O Sertão já virou mar?
O Brasil está virando o rei do veneno
Fome, tortura, veneno e maniqueísmo
Agricultura, veneno e genocídio
A fome no Brasil é uma mentira?
A mentira da fome e a realidade no lixão do Sertão que comoveu o Brasil
 
A história de 1968 pela fotografia
Cantadores: Bolsonaro é a marca do passado
“Nazista bom é nazista morto” chama atenção em muro do Exército
Menino veste azul e menina veste rosa?
“Falsa impressão de que arma é a solução”
Cuidado, armas à vista. Perigo!
Azul e rosa na folia dos laranjais
Circo, Galo, frevo, festa e o carai

Ditadura: a dificuldade dos escritores
Público vai ter acesso a 132 mil documentos deixados pelo Dom da Paz
“Cárcere” mostra o Brasil da ditadura
Pensem, em 1964 já tinha fake news: bacamarteiros viraram guerrilheiros
Cinema dominado e poucas opções: Amores de Chumbo
Mutirão contra a censura de Abrazo
Censura de Abrazo vira caso de justiça

SERVIÇO
Lançamento virtual de Um espião silenciado
Data: 23 de julho, às 17h30, no Canal da Cepe no Youtube (https://bit.ly/canalcepe) com uma conversa entre o autor e o editor da Cepe, Diogo Guedes
Preço: E-book R$ 9,00. No dia 23 o livro estará disponível na loja virtual da Cepe Editora (https://www.cepe.com.br/lojacepe/). Por conta da pandemia, o livro ainda  não tem edição impressa, mas logo que os serviços sejam normalizados, o texto será editado, também, no formato tradicional.

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Divulgação / Cepe

Compartilhe

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.