Lampião e o Cangaço “fashion” e social

Se tem um  assunto que apaixona gregos e troianos é o tal do cangaço. Seja contra ou a favor. Para alguns, o cangaceiro mais famoso, Lampião, era um bandido. Para outros, um herói. Também há quem diga que era um rebelde sem causa. Para nós, que fazemos o #OxeRecife, Lampião foi um produto do seu tempo e do seu meio. De um tempo sem lei.  E de um meio onde não havia presença do Estado. Há quem diga que Virgulino Ferreira não é herói nem bandido, mas história. Sim, história, com certeza. E quem quer ficar por dentro desse movimento social que tanto agitou os Sertões no século passado, tem agora mais uma chance. É que o Centro Cultural Cais do Sertão vai esmiuçar o cangaço entre julho e agosto, com debates, lives temáticas, vídeos interdisciplinares e playlists abordando sempre a herança deixada pelos cangaceiros na história e na nossa cultura.

Tudo on line, já que estamos em tempos de isolamento social, devido à pandemia do novo coronavírus. A programação começa nessa terça-feira (21/7), no quadro Papo de Museu, às 15h. O quadro ao vivo trará a coordenadora do Museu do Cangaço e presidenta da Fundação Cultural Cabras de Lampião, Cleonice Maria. Ela bate um papo com o educador Perácio Gondim, do time do Cais, sobre os estudos a respeito da cultura do cangaço na contemporaneidade. Na semana seguinte, o fundador da ABLAC – Academia Brasileira de Letras e Artes do Cangaço e sócio da SBEC – Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço, Aderbal Nogueira, fala sobre o Movimento do Cangaço no Nordeste. A mediação é de outro educador do Cais, Sandro Santos.

“A história do cangaço é primordial para entendermos a formação social e cultural do Nordeste. Principalmente neste período de isolamento social, compreender a narrativa combatente e de resistência do nosso povo a partir da cultura e interlocução faz-se primordial”, analisa a gerente do Cais do Sertão, Maria Rosa Maia. E ela está certa. Afinal, o cangaço surgiu no meio da caatinga, em época em que os “coronéis” sem farda desempenhavam o poder que cabe ao Estado, que apenas se omitia. Eles eram as verdadeiras “autoridades” da caatinga.  Os “coronéis” eram os grandes fazendeiros, que também se engajavam na política, e mantinham jagunços para praticar poder de polícia e justiça de acordo com seus interesses. E Lampião os desafiava.

O cangaço ficou conhecido como banditismo social, na realidade uma reação ao poder dos coronéis de então.  Cangaceiros sim, foram muitos. Mais inteligente e bom em tudo que fazia, só um: Lampião. Dizem os estudiosos que era bom como almocreve, como artesão, estilista, dançarino e estrategista. E ainda por cima tinha bom gosto: adorava acessórios importados – como lenços de seda para botar no pescoço – perfumes franceses. E amava cinema, fotografia, as armas modernas para os padrões da caatinga. Enfim, a tecnologia de então. Naquele tempo, como não se fazia selfie, ele permitiu que o fotógrafo Benjamin Abrahão Botto se integrasse ao grupo, para documentar suas façanhas. É do libanês grande parte das fotografias dos tempos do cangaço.

Benjamin documentou as jornadas e também as criativas indumentárias do bando, que os estudiosos chamam Estética do Cangaço. Suas fotos estão em livros e até nas redes sociais, todas em preto e branco, como era comum na época. Muitas delas foram coloridas por Davi Lima, como vocês podem observar na foto da cangaceira, totalmente fashion. A estética do cangaço já inspirou reportagens em jornais, revistas, exposições, coleções assinadas por estilistas famosos e o belíssimo livro Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello. É impressionante a riqueza de detalhes em bordados em roupas e assessórios utilizados pelos cangaceiros, inclusive nos bornais. Cangaço é um assunto que fascina. Eu por exemplo, não canso de ler livros ou trabalhos sobre o assunto, sejam sobre a luta em si ou sobre a sua estética.

Além de Lampião e sua Maria Bonita, houve outras figuras de destaque no cangaço em Pernambuco. Como repórter, já entrevistei alguns especialistas no assunto, como Frederico Pernambucano de Mello, autor de Guerreiros do Sol. Também entrevistei José Gomes de Lira, que escreveu Memórias de um Sargento de Volante. Gomes era memória viva das volantes que combatiam Lampião, e participou de perseguições ao cangaceiro. Lembro-me também, de ter entrevistado Dona Especiosa, que segundo me informou, costurava as roupas do bando. Gomes é falecido.  De Especiosa, não tenho notícia. Também entrevistei Anildomá  Wilians, dos Cabras de Lampião, quando liderou uma campanha para a construção de uma estátua para Lampião em Serra Talhada. Teve até plebiscito., que movimentou a cidade sertaneja e o assunto até virou notícia nacional.

Posteriormente, estive, ainda, com os Lampiônicos, de Triunfo,em uma outra campanha de apologia ao cangaceiro. Fãs de Lampião, os Lampiônicos  pretendiam construir uma estátua em homenagem ao ídolo do tamanho do Cristo Redentor, naquela cidade sertaneja, cuja santa padroeira era madrinha do cangaceiro. Por esse motivo, ele nunca atacou a cidade e lá até ali se escondia dos perseguidores. São memórias dos meus tempos de repórter por esse Nordeste afora… Voltando ao tema, na quinta-feira (30), o Conexão Cais contempla interlocução com a jornalista Vera Ferreira, neta de Lampião e Maria Bonita e pesquisadora do Cangaço. Durante a live, ela vai comentar o legado cultural e social deixado por Lampião e Maria Bonita. O debate será mediado pela educadora Viviane Sampaio.

Além de lives e bate-papos, o  museu lança, ainda, vídeo interdisciplinar sobre a estética do cangaço, exemplificado nas roupas de couro curtido e armamentos. Sim, o cangaço era fashion. E muito. Novidades como o zíper – por exemplo – foram usados por Maria Bonita, bem antes das sinhás brasileiras. É que o fecho éclair – como os pernambucanos preferem chamar – antes era originalmente usado nos macacões dos operários europeus. Até que a estilista italiana Elza Schiaparelli (1899-1973) decidiu  introduzi-lo no guarda-roupa feminino. Foi uma revolução. Pois dizem os entendidos que Maria Bonita foi uma das primeiras mulheres a aderir à novidade no Brasil. Em 1929, o jornal Correio de Aracaju  noticiava: “Lampião está em Sergipe com sua espetaculosa indumentária”. Na Bahia, o jornal A Tarde publicava, em 1928, que o bando se trajava como um “dantesco carnaval”.

Ou seja, já naquela  época, o jeito estiloso dos cangaceiros já chamava a atenção de jornalistas. E a indumentária, já nos  séculos 20 e 21, chegou a inspirar grifes famosas no Brasil. Na programação,  Playlist contempla artistas que se debruçaram sobre o movimento, a exemplo de Marinês, a Rainha do xaxado.  E a discussão sobre Os xaxados de Marinês é assinada pelo músico-educador do Cais, Diogo do Monte. Todo o conteúdo pode ser acessado gratuitamente no instagram do @caisdosertao.

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Serviço
Papo de Museu: 21/07 – Estudo do cangaço na contemporaneidade, com Cleonice Maria; 28/07 – Movimento do Cangaço no Nordeste, com Aderbal Nogueira
Conexão Cais: 30/07 – O legado cultural e social de Lampião e Maria Bonita, com Vera Ferreira. As lives acontecem às 15h, no perfil @caisdosertao
Playlist “Os Xaxados de Marinês” pode ser ouvida no Spotify do Cais

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Captadas na Internet (coloridas por Davi Lima) e  reprodução de bordado de foto do livro “Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço”

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