Isolamento deixa areia de Boa Viagem incrivelmente limpa e sem poluição

Cansei da cor cinzenta, da sensação de mofo no corpo nestes dias mais chuvosos, e resolvi encarar o sábado de sol, disposta a dar um mergulho. Fui à praia que é, talvez, o único vício que possuo. Vícío mesmo. Sou dependente química da areia branca, do mar, do sol esquentando a minha pele, do bate papo com amigos no meio do banho de mar. Praia me faz um bem danado. E posso garantir: Depois de tanto tempo de isolamento social, Boa Viagem, hoje, estava melhor do que nunca. Sem poluição sonora, sem lixo acumulado perto da água, sem nenhum barraqueiro irresponsável jogando detritos na areia. O que é comum ocorrer, com a incompreensível benevolência dos órgãos públicos, que nada fazem para punir os já conhecidos porcalhões do pedaço mais famoso da Zona Sul.

Claro que não são todos. Há muitos barraqueiros que têm o maior cuidado com o lixo e até recomendam aos banhistas que não deixem detritos no chão. Outros, recolhem os cestinhos e jogam tudo na areia. Na cara das campanhas do tipo Praia Limpa e dos fiscais da Prefeitura, que checam mais o manuseio dos alimentos do que quem está atirando lixo no chão. Pois a areia hoje estava um sonho. Caminhei bastante e só colhi uma tampinha de plástico no chão. Era azul, da cor do mar. Quem não mora na praia, como é o meu caso, chega lá com bolsa, documento, chave, celular. E na hora de andar, como é que fica? Normalmente os caminhantes já contam com a ajuda de barraqueiros de confiança que se encarregam de guardar os pertences dos clientes. Mas sem eles, o jeito é andar com tudo na mochila. Na volta, cadê a água de coco, para hidratar? Fiquei no seco mesmo. Nem água – H2O tinha levado.

Covid-19 impõe novos rituais aos frequentadores habituais de Boa Viagem, como é o meu caso: máscara e mochila.

E na hora de entrar na mar? Só com a maré baixa. Como se formam ilhotas de areia, muita gente hoje estava fazendo isso: ia até a ilhota, deixava a bolsa lá e ficava na água de forma mais despreocupada, sempre de olho na pequena bagagem.  Foi o que fiz. Fiquei “quarando” na água, enquanto não perdia a bolsa de vista. Sem ninguém por perto para conversar. Ir à praia, claro, exige um ritual: bronzeador, protetor labial, filtro solar (para passar depois que já se pegou uma corzinha), forro para botar na cadeira de praia (que todo mundo usa) e um livro. E chegando lá, a ordem do ritual é essa: entregar a “bagagem” ao barraqueiro, caminhar. E, na volta, sentar e tomar água de coco. Um mergulho, ficar na água, voltar para tomar sol e pegar um livro para ler. Normalmente, no entanto, antes de chegar na quinta página, já aparece alguém para conversar, dividir a barraca. Gente conhecida, de bom papo. Aí, se guarda o livro, e fica-se no sol ou na água, jogando conversa fora. Pensem em uma higiene mental!

Agora, no entanto, além de andar com o pequeno matulão, a gente tem que ir de máscara. Confesso que tenho horror a esse acessório obrigatório. Não gosto mesmo. E fico meio sufocada quando vou caminhar. Nunca consigo fazer o mesmo percurso que faço sem ela, sem dificuldade. Mas… que jeito. Usar máscara, hoje, é dever de cidadania. E lá fui eu andar mascarada na areia. Na volta, deixei o material  na ilhota e fiquei na água, que estava limpíssima, uma delícia. Na areia, outra observação: a volta da canga como tapete. É que entre 1960 e 1970 era difícil se ver essas cadeiras de alumínio que são plantadas hoje em qualquer praia do Brasil. No passado, eram mais comuns as cangas estendidas no chão, onde a turma pegava bronze de frente e de costas. Tinha até quem fizesse travesseiro de areia sob a canga, para melhor se acomodar. Com a proibição de barracas, guarda-sóis e cadeiras, as cangas na areia estão de volta. Vi dezenas delas, corpos inteiros ao sol. Sim, um lembrete: vá de máscara, mas como ninguém mergulha com ela, leve uma sobressalente. Saindo da água, usa a limpa na volta para casa. Nesse sábado, a população já estava autorizada a praticar atividades esportivas na orla, mas em caráter individual, ou com um orientador. Não vi ninguém praticando. Ainda.

Veja, no vídeo abaixo, como a praia estava liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda hoje:

Mesmo na praia, não descuide. Fique distante de outras pessoas, leve máscara para substituir a usada. Apesar do relaxamento nas medidas restritivas, a Covid-19 não está brincando. Nas últimas 24 horas, foram notificados mais  1.095 casos da infecção nem Pernambuco, o que eleva para 63.457 o número de pessoas que contraíram o novo coronavírus em PE. No mesmo período, foram confirmados 48 óbitos provocados pela doença. Ou seja, agora, são 5.116 vidas perdidas no nosso estado.

Leia também:
Boa Viagem é abandonada e quiosques pilhados na pandemia
Boa Viagem e a “nova normalidade”
Boa Viagem abre amanhã, mas sem cadeiras na areia nem banho de mar
Mais restrições, sem praia, sem parque sem lojas
Sem praia nem parque até 30 de abril
Boa Viagem ainda deserta, sem direito a banho de mar nem calçadão
Coronavírus, praia e nascer do sul
Porto de Galinhas: Hotéis se preparam para abrir no segundo semestre
Abertura gradual de hotéis em Porto de Galinhas começa no dia 26/6
Boa Viagem ganha  exposição de fotos
Boa Viagem terá bancos novos
Boa Viagem: risco de acidentes em bancos degradados à beira- mar
Boa Viagem tem esgoto na areia
Boa Viagem tem exposição de fotos
Plásticos poluem Boa Viagem
Boa Viagem: asfalto agora tem dono
Boa Viagem está limpa?
Ação contra a exploração em Boa Viagem
Boa Viagem: orla ao Deus dará
Mutirões espontâneos contra o lixo
Boa Viagem precisa de mais fiscalização
Boa Viagem ou Bocagrande?
Começa a campanha Praia Limpa

Texto, fotos e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

Compartilhe

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.