Sessão Recife Nostalgia: O Savoy e o Recife de Carlos Pena Filho

Se vivo fosse, Carlos Pena Filho – o poeta do azul – teria completado 90 anos, em 2019. Em dezembro do ano passado, a data  foi comemorada no Museu do Estado, com lançamento de livro e discussão sobre a obra do autor do Guia Prático do Recife, que virou mote e inspira até hoje compositores e poetas. E que imortalizou o Bar Savoy, que tanto sucesso fez no século passado em nossa cidade, chegando a ser visitado por intelectuais e artistas do quilate de Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Roberto Rosellini, Gilberto Freyre, Burle Marx, Jorge Amado. Boêmio, Carlos Pena Filho era um dos seus frequentadores, motivo pelo qual lhe incluiu no  mais longo  dos seus poemas. E também o com maior número de estrofes.

No Recife, não há quem não conheça  quatro versos do seu poema que fala do Savoy: “São trinta copos de chope, /são trinta homens sentados/ Trezentos desejos presos/ trinta mil sonhos frustrados”. Eles foram incorporados ao cancioneiro do carnaval pernambucano, no frevo canção Nunca fui amado, de Gildo Branco, que  fez o maior sucesso em 1963. E que ficou entre aquelas músicas de repertório inesquecível do carnaval da nossa cidade.

O frevo começa assim: “Carlos Pena tinha razão, quando escreveu esse refrão“.  O histórico Bar Savoy desapareceu da paisagem do Recife, mas não da memória dos seus moradores. E o poeta embora seja desconhecido pelos mais jovens, nunca deixou de ser lembrado, inclusive no carnaval, devido aos versos com o quais homenageou o bar que tanto amava e que marcou várias gerações. Carlos Pena morreu tragicamente em um acidente de automóvel, no dia 1 de julho de 1960. Ou seja, há exatamente seis décadas. Para homenagear o também autor do poema A Mesma Rosa Amarela –  que virou um clássico do cancioneiro nacional – os compositores Maurício Cavalcanti e Marcelo Varella  acabaram de compor Azul, na qual falam também do Bar Savoy. A música foi produzida durante o isolamento social provocado pela pandemia.

E está no repertório de um novo projeto de Maurício, que  será lançado em 2021, durante as comemorações   dos 484 anos do Recife e os 486 de Olinda. “Sempre que eu canto o Recife/ alguma coisa me dói/ sinto uma saudade danada/ das noites no Bar Savoy. Lembro o poeta que um dia/ pintou os seus versos de azul/ “como se azul fosse o vento/ que sopra do norte pro sul” (bis)/ E aí Carlos Pena, o filho/ de um Recife azulado/ ouça esse bloco da gente/ vale um chopp gelado: “Vale os trezentos desejos/ dos trinta homens sentados/ vale os segredos perdidos/ e os nossos sonhos frustrados” (bis), diz a Azul de Maurício Cavalcanti e Marcelo Varela, quando os dois se reportam, como Gildo Branco, ao Savoy, os desejos presos, aos 30 homens sentados e aos sonhos frustrados.

No dia 27 de junho de 1960, Carlos Pena Filho sofreu um acidente de carro, sendo transportado em estado desesperador para o Pronto Socorro do Recife que, na época, funcionava na Praça Osvado Cruz.  Morreria 73 horas depois, no dia 1 de julho deixando de luto a cidade onde nasceu, que tanto amou  e cantou. Em Guia Prático da Cidade do Recife, Carlos Pena não canta só o Savoy nem a boemia. Faz um passeio poético pelo Recife que vai dos colonizadores portugueses e exploradores holandeses, passa pelo Recife popular de “Manoel, João e Joaquim”, para depois se debruçar nos seus parques, na praia, nos bairros de  Santo Antônio e São José, sem esquecer os subúrbios da cidade.

 Azul (que lembra Carlos Pena Filho e os seus famosos versos sobre o Savoy, os desejos presos, os sonhos frustrados) ainda inspira compositores e poetas. Confirma o vídeo com Maurício Cavalcanti, que  já está no YouTube.

Confira:

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Internet e Cepe / Acervo #OxeRecife

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4 comentários

    1. Obrigada, Francisco, saudades de nossas “Caminhadas Domingueiras”,que tanto me ajudam na produção de conteúdo para o #OxeRecife!

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