História: Telha “feita nas coxas”, verdade ou mito?

Figura, esse Bráulio Moura. Turismólogo, historiador, idealizador dos roteiros do Projeto Olha! Recife e Coordenador do Projeto Recife Sagrado – ambos executados pela Prefeitura – ele vem usando o seu Facebook para dar lições de história aos seus seguidores e também para desfazer alguns mitos. Há alguns dias, fez postagem mostrando o que há de verdadeiro na expressão “eira, beira e tribeira”, que deu o que falar.

Agora se volta para desmistificar aquela velha versão de que as telhas do tipo canal – aquelas dos tempos do Brasil colonial – seriam moldadas nas coxas dos escravos, motivo pelo qual são irregulares e mal confeccionadas, o que teria dado origem à expressão “feito nas coxas”, para designar algo de péssimo acabamento.  No artigo “Eram as telhas feitas nas coxas das escravas?”,  já em 2006, José La Pastina Filho tratara do assunto, desmistificando a velha  expressão. Arquiteto restaurador, Professor da Universidade Federal do Paraná e respondendo à época por uma Superintendência Regional do Iphan ele inclusive mostrava o processo de fabricação dessas peças, de tradição secular.

Mas Bráulio leva charme ao assunto, com seu linguajar coloquial.  Veja o que ele diz:

O mito da telha feita nas coxas. Com esta pequenina e linda casa do século 18 na Rua do Amparo, em Olinda,venho hoje desmentir mais um mito muito difundido em cidades históricas turísticas do Brasil: a telha feita  nas coxas dos escravos. Muitos de vocês já devem ter ouvido e até falado a expressão “feito nas coxas”, para descrever algo que foi feito às pressas e saiu mal feito.  Nas cidades  históricas ainda se ouve gente espalhando a estória de eram feitas nas coxas dos escravos. E que por isso elas tinham o formato “canoa” mais largo em uma ponta e mais estreito em uma outra. Isso além de ser mentira é ainda uma crença racista, associando trabalho mal feito ao trabalho dos negros escravizados. Acontece que não existe nenhuma cidade colonial do brasil  (nem em Portugal), prédio com telhas diferentes umas das outras, elas são padronizadas.

As telhas coloniais eram feitas em moldes de madeira, onde eram também secadas ao sol. Imagine se um dono de escravos ia deixar eles dormindo  horas no sol com uma telha em cada perna. Essas telhas do Brasil colônia têm em media 75 centímetros de comprimento ou um pouco mais. Para que um escravo moldasse ela sobre as coxas, era preciso que ele tivesse altura de 3,5 m. Isso mesmo. Ele teria que ser um boneco gigante de Olinda para ter uma coxa deste tamanho. Considerando pessoas de 1,80 m, as telhas teriam cerca de 33 centímetros, ridívulo em um telhado, não é mesmo? O fato é que a expressão “feito nas coxas” tem provável origem sexual, surgida de relações rápidas e feitas às escondidas, em alguns casos para não perder a virgindade, praticando ato nas coxas às escuras. As cidades históricas do Brasil para variar, criaram mais esse boato para enfeitar a narrativa de antigos guias, condutores e publicações, no intuito de tornar os lugares mais interessantes, fazendo surgir muitos boatos, como o da “eira, beira e tribeira”, desmentido há alguns dias.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto: Facebook / Bráulio Moura

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