Jardim Secreto completa três anos: Esforço coletivo, mudança e resultado

Localizado no Poço da Panela, à margem do Rio Capibaribe, o Jardim Secreto completou três anos sem festa. Tudo por conta da pandemia do coronavírus, que não permite aglomerações nem comemorações, sejam em espaços abertos ou  fechados. Mas não é por isso que o #OxeRecife vai deixar passar em branco. Afinal, o Jardim Secreto é o resultado de esforço coletivo que deu certo. E também um exemplo de cidadania. Quem não se lembra de como o terreno de 3 mil metros quadrados era antes? Lixo, metralhas, bichos mortos, ratos, insetos. Já chegou a funcionar até como ponto de “desova” no passado. Ou seja,  um lugar de descarte de tudo que não prestava, por trás dos muros de condomínios do Poço da Panela, Zona Norte do Recife.

Há três anos, um grupo de moradores resolveu se apropriar do espaço, que vivia abandonado pelo poder público e esquecido pela própria comunidade. O matagal era grande, e a montanha de detritos ali jogados, maior ainda. A comunidade decidiu, então, meter a mão na massa. Lembro-me que quando os residentes deram início aos mutirões, o lixo era tanto que foi preciso solicitar apoio da limpeza pública para remoção. E foram necessários mais de 15 caminhões para fazer o transporte do lixo que durante anos foi ali acumulado. Hoje o Jardim Secreto é um espaço verde de convivência e lazer, com gramado, plantio de hortaliças e pomar. Com a regeneração da natureza, animais silvestres como pássaros e mamíferos – como saguis e capivaras – voltaram a aparecer. E o esforço da coletividade motivou ajuda da iniciativa privada, como foi o caso da Casa Cor, que doou equipamentos naquele que foi o primeiro “transplante urbano” da cidade. O #OxeRecife colheu os depoimentos de seis pessoas que ajudam a fazer o Jardim Secreto. Cada qual dá sua opinião, sobre como vê o resultado do esforço coletivo, cujo resultado pode ser conferido ao final da Rua Marqueês de Tamandaré, por trás do Condomínio Pasárgada.

Confira o que dizem e o que sentem, seis pessoas que fazem o Jardim Secreto:

Bárbara Kreuzig, arquiteta, urbanista e artista plástica –O Jardim Secreto é uma conquista da comunidade do Poço da Panela e comunidades vizinhas. É a demonstração de que é possível com poucos meios, transformar um bem público abandonado em um espaço de convivência aprazível para a população, integrando a área de convívio urbano. É um marco e um exemplo importante de trabalho voluntário, social e ambiental. E revela-se, também, como uma forma desvinculada de qualquer ambição política. Em específico no que se refere ao Jardim Secreto, é importante ressaltar a valorização da margem do Rio Capibaribe, por décadas desprezada e, por consequência, a valorização da relação ambiente urbano construído  x ambiente urbano natural, tão importante nesse momento inesperado de pandemia. E, por fim, também importante, a oportunidade de integração e inter-relação entre bairros de diferentes extratos sociais”.

Lúcia Helena Marinho, arquiteta e consultora – “O sentimento de cada um, o desejo de transformar o espaço antes do acontecido era quase uma unanimidade para cada um dos que fazem até hoje o Jardim Secreto, que transformou vidas na comunidade. A interação entre os dois lados do rio nas festas e confraternizações, no dia a dia trazendo mais beleza e segurança na passagem de barco, um bom dia amigo, um sorriso… a presença de pais com crianças, bebês em passeio. O conforto com o mobiliário urbano, os jardins e o plantio da horta nas mandalas planejadas pelo grupo. Na questão do jardim como agregador social tivemos o estímulo do trabalho e da convivência da comunidade formando um grupo com o interesse de lutar pela natureza, pelo uso dos espaços urbanos abandonados ou sub utilizados”, afirma.

Lúcia Helena cita o convívio com a vizinhança, com a comunidade e com os que,mesmo de longe apoiam o trabalho.  “Mudou o espaço físico, mudaram conceitos, cabeças. Mudou a vivência das pessoas, o carinho e a compreensão pelo outro ser. Aprendemos e praticamos a olhar para alguém sem distinção de cor, sexo, poder ou posição social . Somos apenas jardineiros, agregados ou passantes com a ideia de que somos apenas humanos e natureza e, que podemos mudar o mundo para melhor”.

Tibério Borba, bancário, historiador, arquiteto –  “Além dos amigos que cultivei ao longo desses anos, o Jardim  Secreto me trouxe sentimento de pertencimento à comunidade e a satisfação de “fazer a diferença” enquanto sociedade civil.  Tomei conhecimento do Jardim (apesar de morar colado com ele), quando foi solicitada ajuda do Condomínio do Edifício Pasárgada, quanto ao fornecimento de água para a implantação/manutenção das plantas. Desde então, foram muitas reuniões. Continuei participando dos mutirões semanais de implantação do gramado, instalação da bomba (onde o condomínio passou a fornecer apenas a energia) e vi a área se transformando”, diz Tibério. E acrescenta:

“Várias pessoas chegando, se conhecendo e trocando ideias.  Organizamos os mutirões, as campanhas, as comemorações (particulares do grupo e abertas a população), datas festivas como o carnaval, aniversário do jardim, São João, festa das crianças e as nossas confraternizações ou aniversários dos participantes do coletivo, além de uma celebração de “casamento” de uma de nossas participantes. No segundo semestre de 2018, surgiu a proposta do Primeiro Transplante Urbano do Recife, que consistia em reproduzir uma instalação da Casa Cor para uma área pública. Fomos consultados e a maioria aprovou essa implantação. Na época eu era estudante de arquitetura e me encarreguei, junto com a Bárbara, em “adaptar” a instalação sem perder sua essência, em acordo com a prefeitura que forneceu a mão de obra e as empresas que doaram os equipamentos.  Com isso também conseguimos a iluminação da área e a construção do palco para as apresentações artísticas e o paisagismo no local. Vimos a satisfação das famílias do entorno e dos usuários da travessia. Para mim foi um incentivo ao meu curso que culminou na “construção” do meu TCC (em arquitetura) sobre o Jardim. A pandemia nos deixou afastados infelizmente.  Então, sugeri fazermos a campanha de arrecadação e estamos ajudando algumas famílias do Caiara”.   

Ricardo Bandeira, estudante de Direito –  “O  Jardim Secreto é transformador por natureza. Nele, me desenvolvi como ser humano, aprendi muito sobre o manejo da terra e sobre a arte de cultivar, plantar e colher. Cultivei também no jardim, amigos verdadeiros. E hoje posso dizer que somos uma grande família  A função social do jardim, de tão bela, chega a parecer mágica. Nossas festinhas, shows, concertos, feirinhas e ações sociais sempre são muito frutuosas para o bairro e integram os moradores como nenhum outro espaço o faz. O Jardim fez três anos, e nós que cuidamos dele, crescemos e evoluímos no mesmo compasso”.

Bruno Teles, Gerente comercial – “Muita coisa mudou, com a implantação do Jardim Secreto. Tenho 35 anos, e quando eu era garoto, costumava frequentar aquela região, com os amigos, para jogar futebol. Lembro-me que o ambiente era assustador, dava muito medo: lixo, mato e até desova de cadáveres, cena que presenciei várias vezes”.

“A mudança física foi imensa, pois o terreno, antes sombrio, cedeu lugar a uma área verde, aprazível, jardinada.  Mas a mudança mais importante, acredito, é aquela com relação ao comportamento das pessoas. O Poço da Panela é um bairro cujos moradores são de classe social privilegiada. Então havia medo e preconceito, quanto à convivência com comunidades carentes, do outro lado do rio. Hoje isso não há mais. O Jardim Secreto trouxe uma convivência harmoniosa entre todos os moradores, aproximando  de forma saudável as comunidades das dois lados do Rio Capibaribe. E a gente percebe isso claramente, não só nas festas como no próprio dia a dia”, conclui.

Antônio José da Cunha (Pai), barqueiro  – “O mal do rico é que o rico costuma não gostar de pobre. Antes, era tudo separado, ninguém do do lado de cá tinha contato com ninguém do lado de lá. Mas com a implantação do Jardim Secreto, essa coisa mudou.  Eu não imaginava que iria encontrar pessoas como vocês, que iam ser colegas meus. Hoje não é o dinheiro que nos separa, mas a confiança que nos une. A confiança que todos têm em mim, na nossa comunidade. Isso é importante. Com a pandemia, está tudo parado, mas eu estou morrendo de saudade da galera”.

Pai diz que hoje de madrugada, quando acordou, o primeiro pensamento foi para o Jardim Secreto: “Eu chega me arrepio, quando penso como aquele terreno era antes, um lugar abandonado.  Antes, quando transportava os passageiros na canoa de um lado a outro do rio, eles até tinham medo de passar pelo meio do lixo. Felizmente chegaram umas pessoas boas e aconteceu o que aconteceu. Quando acabar essa confusão de coronavírus, a gente vai se juntar de novo e fazer uma festa lá, vou levar um panelão de comida. Na última, armei até piscina para os netos”.

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Texto: Letícia Lins  / #OxeRecife
Fotos: Divulgação / Jardim Secreto

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