Sessão Recife Nostalgia: Teatro Santa Isabel e a luta abolicionista

Não sei se vocês sabem. Mas no passado, quando havia a estreia de algum espetáculo no teatro, as pessoas assim se dirigiam aos atores: “Muita Merda!”, tradição que ainda se repete hoje, como saudação entre os próprios artistas. Pode parecer  uma saudação estranha. Mas o costume teria  surgido na França, em uma época que não existia o automóvel, e o público usava tração animal – no caso, o cavalo – para ir ao teatro. Então, se falava aquela palavra aparentemente pouco cortês. Mas ela tinha seu significado, porque a grande quantidade de excrementos dos equinos no meio da rua traduzia plateia cheia. Como acredita-se que o primeiro automóvel tenha chegado ao Recife (de navio), entre as duas primeiras décadas do século passado, dá para imaginar os “carimbos” no “estacionamento” na Praça da República, com cabriolés, charretes, carruagens. E das quais desembarcavam homens formalmente trajados e mulheres elegantes, com seus vestidos longos, vaporosos, cheias de joias, compatíveis com o luxo da casa de espetáculos, que está completando 170 anos. Infelizmente, de portas fechadas, devido ao isolamento social imposto pela pandemia. A data não passará em branco.

Mas antes de falarmos da programação de aniversário, voltemos aos tempos dos cabriolés, já que o TSI tem seu nome em homenagem à Princesa Isabel, e entre os visitantes mais ilustres de sua história, encontra-se Dom Pedro II, que ali esteve em 1859. Por seu palco passaram companhias estrangeiras, como a então famosa Cia Lyrica italiana G. Marinagelli, que apresentou a ópera La Traviata, em 1858. Além de espetáculos, passaram pelo seu palco importantes figuras da campanha abolicionista, como Castro Alves, que ali conheceu Eugênia Câmara, o grande amor da vida do poeta.  Ou seja, durante toda a sua história, a casa sempre esteve no centro da vida política da cidade, tendo assistido à Revolução Praieira, abrigado a campanha abolicionista e pelo advento da República. Cenário dos debates literários de Tobias Barreto e Castro Alves, foi de lá que ecoou para todo o Brasil a histórica frase do abolicionista Joaquim Nabuco: “Aqui vencemos a causa da abolição”, imortalizada numa placa exibida numa das paredes do teatro até hoje.

Teatro Santa Isabel sofreu incêndio no século 19, quando sua parte interna foi reformada para melhor. Lindo!(ARB)

O Teatro Santa Isabel foi inaugurado no dia 18 de maio de 1.850, com a apresentação da peça O Pajem de Aljubarrota, do escritor português Mendes Leal. Além da importância histórica, tem, também, pioneirismo na arquitetura.  Foi o primeiro teatro brasileiro projetado por um engenheiro civil, em época em que os poucos profissionais disponíveis no setor tinham formação militar. O TSI foi Idealizado pelo Barão da Boa Vista. Teve o projeto dirigido pelo engenheiro francês Louis Léger Vauthier, que inovou na época, optando por não utilizar trabalho escravo na construção de arquitetura neoclássica. Sofreu um incêndio triste em 1869, mas foi restaurado por Tibúrcio Magalhães, sob orientação do engenheiro que fez a planta original. Manteve-se a parte externa, mas a interior foi reformado para melhor.

O TSI foi tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 31 de outubro de 1949. E mais tarde foi eleito um dos 14 teatros-monumentos do país. De portas fechadas, devido a pandemia do coronavírus, o Santa Isabel  não deixará a data de aniversário passar em branco. E convida seu público cativo a ficar em casa e assistir, às 19h, à live-celebração protagonizada pelas atrações musicais: SH (Surama Ramos e Henrique Albino), Publius Lentulus, Grupo Instrumental Brasil e Chorinho da Roça. As apresentações musicais e conversas serão transmitidas ao vivo, no perfil do teatro no Instagram (@teatrodesantaisabeloficial), único palco possível para escoar produções, mobilizações, alumbramentos e questionamentos artísticos em tempos de isolamento social. O Teatro Santa Isabel é não só história, mas também uma relíquia  arquitetônica do estilo neoclássico da nossa arquitetura. Fica na Praça da República, um dos locais mais icônicos da cidade, na qual estão, também, o Palácio do Campo das Princesas (sede do governo estadual, 1841) e o Palácio da Justiça (1924).  Ali perto está,também o bonito prédio do Liceu de Artes e Ofícios (1880). Os jardins da Praça da República e também do Campo das Princesas têm a assinatura de Burle Marx (1909-1994), um dos mais notáveis nomes do paisagismo mundial.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Andréa Rego Barros/ Divulgação / PCR

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