História de amor: o gari e a “Princesa”

Uma historinha bonita, para a gente “desopilar” um pouco, nesses tempos de pandemia e isolamento social.  No Dia do Gari, que presta um serviço essencial, o destaque vai para Djalma Gomes e sua amizade com Princesa.. Vejam: No cinema, são muitos os filmes que contam fascinantes histórias mostrando a cumplicidade entre um cão e o ser humano. Os títulos são curiosos: Pets, a Vida Secreta dos Cachorros, Mato sem cachorro, Marley e eu, Procura-se um amor que goste de cachorros, Meu melhor amigo, A incrível jornada, Beethoven.  O tema já rendeu produções icônicas, como Sempre ao Seu Lado (baseado em história real, com Richard Gere) e Deus Branco (  ficção  com coprodução húngara, sueca e alemã), que tem uma das mais antológicas cenas da telona. É quando uma “multidão” de cães mestiços invade as ruas, levando pânico a uma cidade onde a lei obriga os donos de cães vira – latas, digamos assim, a pagarem multas.

Na literatura, também há passagens comoventes, sobre a amizade de um cão e de um homem, como ocorre em  A Pele (Curzio Malaparte). O livro é marcado pela crueza de cenas da primeira Guerra Mundial,  mas um dos trechos que mais emocionam o leitor é justamente a amizade do autor com o seu cão. Para ele, Febo era um “verdadeiro irmão, aquele que não trai, que não humilha”. E acrescenta sobre a importância de Febo em sua vida: “O irmão que ama, que ajuda, que compreende, que perdoa”. Ele relata, inclusive que “só quem viveu anos de exílio numa ilha selvagem” e que se vê “evitado como um leproso” – ao voltar “para o convívio dos homens” –  sabe “o que pode significar um cão para um ser humano”. E ia mais longe, pois o cão era não só o “irmão”, mas  “meu juiz”. Ou seja, “o guarda de minha dignidade”.

E por que falo tudo isso? Só para contar uma história que descobri nesta semana. Justamente a amizade entre um homem e um cão. Ou melhor, entre o gari Djalma Gomes (da Emlurb) e a cadela “mestiça”como a do filme Deus Branco, mas que a gente chama de vira – lata. E que tem um nome nobre: Princesa.Todos os dias, quando caminho, vejo a cachorrinha passeando de barco, no Açude de Apipucos, onde cerca de dez garis se dedicam à interminável tarefa de limpar, aquele que, mesmo poluído, ainda é tido como um dos principais cartões da Zona Norte do Recife.  A amizade, no entanto, é só entre Djalma e Princesa. Os outros garis até brincam com a cadela. Mas ela não quer saber de outra pessoa. Diariamente, vai para o local de encontro dos garis, onde espera por seu amigo. É ele chegar, e Princesa pula no interior do barco, para acompanhá-lo em sua labuta diária. Na manhã da quinta-feira, por volta de 6h30, quando eu ia à feira, Djalma e Princesa  já trocavam afagos. A cadela o espera, diariamente, no local de trabalho.  Na maior expectativa.A amizade chega a ser comovente. Amor mesmo. E lindo!

Djalma e Princesa fizeram amizade, e se encontram todos os dias, de manhã, à margem no Açude de Apipucos.

“É ela quem chega aqui primeiro”,  todo os dias, diz um gari. “Mas o negócio dela é com Djalma, pois é louca por ele”, completa. E é. Segundo Djalma, a amizade começou  há três anos. E, desde então, os dois se vêm de segunda a sábado, quando há trabalho de limpeza no lago. Ficaram inseparáveis durante os dias úteis.  “Na segunda-feira, Djalma não veio e a cachorra era uma tristeza só, a senhora precisava ver”, conta Éder Moura, colega de trabalho de Djalma. E Dijalma diz não ter a que atribuir o amor tão grande que a cadela lhe dedica. “Sei não, acho que é porque todos os dias lhe trago comida”, conclui. Será. Penso que não.

 Como as pessoas, os bichos escolhem a quem amar. E entre muitos que lhe jogam  pedaços de tilápias  ali pescados ou restos de comida, Princesa escolheu Djalma. E ela não tem a carência de um cão sem dono. Nem de rua, é. Tem proprietária, casa para morar e para dormir. Mas pelo que se observa, o seu amor tem outro significado e outro nome. O primeiro é gozar da liberdade, longe do limite de quatro paredes. E segundo é Djalma, que lhe propicia carinho, comida e a aventura de um passeio diário de barco, enquanto ele trabalha na limpeza do lago,retirando lixo e baronesas (pastas) que boiam na superfície. “A gente nem sabe como será no próximo mês, pois Djalma vai entrar de férias e, com certeza, ela vai ficar triste,  vindo aqui todos os dias, esperando que ele volte”, diz um companheiro de trabalho do gari. E viva às verdadeiras amizades.  Sejam entre os homens ou entre um homem e um animal, que ama como gente.

 

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Texto e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife 

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2 comentários

  1. Que bela história, Letícia. Há se todo ser humano agisse dessa forma, com carinho e fidelidade da princesa, certamente o mundo seria bem melhor.
    Um grande abraço amiga!!

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