Nostalgia: Os livros de Monteiro Lobato

Fátima Brasileiro (foto) é autora de um livro delicioso (Memórias Afetivas), no qual  descreve o Sertão de sua infância. Fala  das casas dos avós,  da gastronomia, das viagens de trem, da  excelente qualidade da educação pública nos colégios por onde passou, das histórias do cangaço que os mais velhos lhe contavam. Também descreve com maestria a “praia” em que se transformavam as margens do Rio Pajeú, ao final das temporadas chuvosas (que eram raras na área da caatinga), assim como as saudosas e encantadoras viagens de trem, quando os chefes de cada estação eram amigos das famílias que costumavam usar a linha férrea para suas viagens domésticas, de trabalho ou mesmo de lazer.

Além do Memórias Afetivas, Fátima participou de duas coletâneas, 28 Cantos de Solidão (com o texto Matizes da Solidão) e Encantamentos (com o texto Sonhos que voam). Os dois volumes foram  produzidos como resultado da Oficina Paulo Caldas de Literatura. Ela nasceu em Caruaru – no Agreste – mas foi morar no Sertão, quando criança.  No entanto, voltava sempre à terra de Vitalino, sempre, para passar as férias. Em Caruaru, a Livraria Estudantil era sua referência.  “No Sertão, as bibliotecas do Colégio Normal de Afogados da Ingazeira e os livros que recebia de presente”, lembra. Naquela época, as fantasias infantis não eram povoadas por heróis e anti-heróis que cospem fogo, usam armas poderosas e violentas para liquidar os inimigos ou que parecem robôs, como os que a gente vê nos games que tomam conta da atual geração.

Na infância de Fátima Brasileiro, quem povoava a imaginação da meninada eram livros como Branca de Neve e os sete anões, Chapeuzinho Vermelho, Ali Babá e os quarenta ladrões, Casamento da Baratinha, Monteiro Lobato – Os doze trabalhos de Hércules. “Me encantei”, diz. Também nunca esqueceu das Fábulas de La Fontaine e de Jorge Amado (“que descobri um pouco antes da hora e lia meio escondido”). Além desses, tem uma recordação permanente:  “Em Caruaru, no consultório do Pediatra, tinha Rique Roque o ratinho sonhador, e este nunca me saiu da cabeça”, lembra. “Muito tempo depois achei esse livro nas Lojas Americanas e comprei, claro, até fiz uma foto para o Memórias Afetivas”. Recentemente a Livraria Cultura Nordestina promoveu um concurso em seu site, através do qual solicitava que fosse escrita uma carta para Monteiro Lobato. E Fátima o fez. O seu texto foi o vencedor do certame, por ter sido o que recebeu mais comentários de internautas. Não é para menos. Ele está uma delícia, uma marca dos textos dessa “aprendiz” de escritora, como ela, modesta, costuma se definir.

Vejam:

Prezado Lobato

Cheguei seis anos depois da sua partida, desencontro de tempo, queria tanto que fosse meu avô. Não os conheci, só a avó materna, também contadora de histórias. As dela eram bem diferentes das suas, mas me ensinaram e divertiram na infância. Imagine um avô que soubesse tantas, e tão instigantes; não ia sair de perto dele por nada! Quando lhe descobri já era maiorzinha, estimulada por minha mãe. Sabe como era naquele tempo, nada de tecnologia. Bonecas ou livros – e eu os escolhi. Aqui pra nós, alguns bem mais interessantes que os didáticos. Gostava mesmo era de Jorge Amado e José Condé, um escritor de Caruaru que contava umas coisas engraçadas. Algumas nem entendia, mas como era livro de adulto, era aquele que eu queria. Li Pensão Riso da Noite, da estante de Edgar*, meio às escondidas, igual a Dona Flor e seus Dois Maridos, que guardava embaixo da cama.

Conheci o seu Hércules na mesma época e, cada um na sua peleja, eram companhias maravilhosas, cheias de aventuras. Vibrava com a conclusão de cada um dos Doze Trabalhos, todos estranhos e difíceis, e o admiro justo por trazer tudo aquilo para o mundo infantil. Dos personagens do Sítio, claro que Emília se destaca, pelo arrebitamento e vivacidade, mas o pó de pirlimpimpim era a melhor parte. Sonhava ser transportada para outros lugares, viver outra realidade, rever pessoas queridas que estavam longe. Tudo isso era possível, no encantado mundo que você criou. Outro que ninguém esquece – Jeca Tatuzinho – conheço de muito tempo. Tenho guardado um exemplar – 35ª Edição – 1973 – da divulgação do fortificante das gerações. O Almanaque da Editora Fontoura, maior peça publicitária da história do Brasil, alardeava que o consumo do tônico da vida era o que havia de melhor – dava energia, força, apetite, vontade de viver. Aliás, a gente sabe que muita criança da época foi iniciada no mundo etílico pelas colheradas do Biotônico. Tomei poucas, apetite nunca me faltou…

A popularidade ganha com seu texto, fez a revista O Cruzeiro publicar visita do Amigo da Onça a uma família muito pobre. Crianças de todas as idades, magérrimas e famintas, pais desesperados pela falta de comida. O desgraçado chega justo na hora que seria a da refeição e, em tom de deboche, entrega o frasco do poderoso elixir – Para abrir o apetite! Uma sacada e tanto de Péricles, mas não consegui rir da piada; a família dava pena e a fome é muito feia. O Jeca Tatu preguiçoso, matuto, atrasado, uma espécie de maldição racial, foi usado por você para mostrar que na verdade ele era resultado da fome, da doença e da miséria. “O Jeca não é assim; está assim, deixando claro que o estado lastimável em que se encontrava o caipira era culpa do descaso das autoridades públicas. A partir da atenção e assistência, destaque para o saneamento, surge o empreendedor de sucesso, consciente de adotar novas condutas de higiene e repassar o ensinamento aos demais.

*O Edgar a cuja estante Fátima se refere era um cunhado, “bem mais velho, uma espécie de tio”. Ela lembra que ele “gostava muito de ler” e, nas férias – em Caruaru – ela e a irmã “futucavam na estante”. E lembra: “As sobrinhas, quase da minha idade, tinham O Mundo da Criança e o Tesouro da Juventude”, leituras obrigatórias e a crianças e adolescentes daquela época.

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Texto: Letícia Lins (#OxeRecife) e Fátima Brasileiro
Foto: Letícia Lins / Acervo #OxeRecife

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