Antas albinas mobilizam pesquisadores

Já havia visto jiboia albina (no Parque Estadual de Dois Irmãos) e saguis albinos (no Refúgio Ecológico Charles Darwin, em Igarassu), mas é a primeira vez que tenho notícia de uma anta albina. Sim, uma anta, o maior mamífero brasileiro. Aliás, duas antas. E quem conta a novidade é o Legado das  Águas, maior reserva privada de Mata Atlântica do país. “É a primeira vez que dois animais albinos da mesma espécie são registrados no mesmo lugar. A Reserva pode ainda abrigar as duas únicas antas albinas do mundo”, comemora a Votorantim, responsável por aquela reserva, que fica no Vale da Ribeira, em São Paulo. Os dois animais albinos são machos e já têm até nomes: Gasparzinho e Canjica. Viraram o xodó dos moradores da região e alvo de investigação dos cientistas.

Em 2018, quatro anos após a descoberta da primeira anta albina, um segundo indivíduo, também macho, foi registrado nas áreas do Legado das Águas. Dentre as possibilidades mais defendidas pelos pesquisadores é a de que os dois animais possuem algum grau de parentesco, podendo ser irmãos, ou pai e filho. “O albinismo por si só já é uma condição rara, mas acontecer duas vezes no mesmo local, é daquelas probabilidades de uma em um milhão, afirma Mariana Landis, pesquisadora do Instituto Manacá (parceiro do Legado das Águas)  e que estuda as antas da reserva. Até porque o albinismo é hereditário e recessivo. “Significa que o macho e a fêmea precisam ter o gene que causa a falta de pigmentação, e o detalhe é que não necessariamente os “pais” são albinos, pois o gene pode não se desenvolver no indivíduo que o carrega”.

Anta albina (à direita) é uma das duas com tal característica, registradas no Legado das Águas, no Vale da Ribeira.

A presença do albinismo expressado nas antas do Legado das Águas pode ter ocorrido por puro acaso no ambiente natural: fêmea e macho que possuem o gene, precisam se encontrar, para então dar origem ao filhote albino. Mariana pondera que não é comum ter animais na natureza que possuam esse gene. “Mesmo sem números exatos, é possível dizer que a incidência é baixa, visto que animais albinos são raros. Tão raro quanto o fato de dois indivíduos que possuem o gene se encontrarem em uma floresta, principalmente nas que possuem grandes áreas, como o Legado das Águas, cujo território é correspondente ao tamanho da cidade de Curitiba”, diz. Os pesquisadores estão colocando armadilhas na área, a fim de colher pelos dos animais para exames de DNA.

Gasparzinho e Canjica estão famosos no Vale da Ribeira. E a dupla virou símbolo de conscientização sobre a importância da espécie em municípios como Juquiá, Miracatu e Tapiraí, em terras dos quais se espalha o Legado das Águas.  “ Em Tapiraí, cujo nome da cidade tem relação com o nome científico das antas, Tapirus terrestres, temos resultados significativos na conscientização e reconhecimento da importância desse animal, expressados no artesanato e na frequente atenção que as escolas públicas dão ao tema. Esses são resultados que nos deixam orgulhosos do legado que estamos deixando”,  diz David Canassa, Diretor da Reservas Votorantim.

As antas albinas do Legado das Águas podem ser as duas únicas em ambiente natural do mundo e que são monitoradas. Há dois registros de antas albinas no Brasil, uma fêmea que vivia em um centro de recuperação de animais silvestres, e um vídeo amador de um filhote, ambos no Mato Grosso do Sul. Antes abundante em vários biomas brasileiros, a anta (Tapirus terrestris) desapareceu de estados como Pernambuco, onde pouco resta da Mata Atlântica não havendo, portanto, espaço para animais do seu porte. A situação dela é considerada, portanto, em “perigo”, na Mata Atlântica. Na caatinga – que ocupa cerca de 80 por cento do território pernambucano – já é considerada como “extinta”. Nem mesmo no Pantanal e no Cerrado, sua situação é confortável, pois está “quase ameaçada” no primeiro e “em perigo” no segundo, conforme estudos realizados por ambientalistas e órgãos oficiais de defesa da natureza. No Brasil, a espécie é tida como “vulnerável”.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Luciano Candisani / Divulgação/ Legado das Águas / Votorantim

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