Pandemia e natureza: Animais silvestres ocupam as áreas urbanas vazias

O isolamento social deixou vazias as ruas dos centros urbanos, como é o caso do Recife.  E também desacelerou a indústria e o comércio.  A paralisação imposta pela Covid-19 às atividades econômicas terminou mostrando a face ainda desconhecida da pandemia: a regeneração da natureza. Em Pernambuco, por exemplo, as praias estão tão desertas, que em Tamandaré, no Litoral Sul, o manguezal começou a brotar em trecho onde não existia há pelo menos três décadas.

Nas antes movimentadas ruas do Recife, já se  vê o resultado do recolhimento das pessoas: presença maior de animais silvestres em vias públicas, praças e até mesmo nas janelas dos apartamentos de bairros bem urbanizados, como o Espinheiro. Até na antes agitada Avenida Boa Viagem foi vista uma capivara nesta semana.  Passeando tranquilamente no asfalto, à beira-mar. Como quem não queria nada… Na semana passada, uma outra tomava banho de mar em Casa Caiada, em Olinda. E quase se afogava. Trelosa….

Hoje na minha caminhada matinal, no entanto, me deparei com uma cena triste: um sagui em uma calçada no bairro do Monteiro,  em estado terminal. Era um animal gordinho, mas tinha convulsões, dificuldade para respirar e terminou morrendo. Penso que comeu algum veneno. Ou era uma fêmea, em dificuldade para trabalho de parto. Aqui na minha casa, sempre são brindados com frutas, principalmente bananas. A gente até “conversa”, pois são bichos que “falam” com seus olhos expressivos.  Gostam de “roubar” ovos dos ninhos dos pássaros. E por esse motivo, vez por outra, levam surras de aves bravas, como a sabiá branca, cenas que a gente se habitua a contemplar quando passa mais tempo em casa, com chance maior para curtir a natureza generosa.

O texto a seguir é da jornalista e escritora Francis Palhano, da Cprh. Resolvi mantê-lo na íntegra, porque também faço parte dele, só que do outro lado do qual uma repórter costuma estar. De entrevistadora, passei à condição de entrevistada. Veja:

“O isolamento social iniciado em março, devido à pandemia do coronavírus, promoveu mudança na realidade: enquanto as pessoas estão reclusas em suas casas, os animais estão explorando as ruas. A diminuição dos veículos e o desaceleramento das indústrias também contribuíram para a natureza se recuperar. E muitas pessoas estão fotografando e fazendo vídeos, para registrar as novidades.
Um desses registros foi feito pela médica Luciana Siqueira, em frente a um hospital da rede particular do Recife (Esperança), na Ilha do Leite, onde a ela trabalha. A médica filmou e fotografou as capivaras que deixaram a margem do rio Capibaribe e subiram para desfrutar da grama verdinha. As imagens fizeram sucesso na Internet.

Já no Poço da Panela, na Zona Norte, as capivaras foram vistas andando tranquilamente, nas proximidades do Jardim Secreto do Poço. Um cardume de sardinhas, na Bacia do Pina, na Zona Sul do Recife, chamou a atenção de moradores daquela área, que fotografaram e filmaram o cardume. De acordo com informações de pesquisadores, o que favoreceu o agrupamento das sardinhas foi a baixa circulação de barcos na área, assim como a menor quantidade de pescadores. “A diminuição das interferências humanas nas áreas urbanas repercutiu favorável na fauna e na flora. Temos informações sobre a recuperação de vegetação, o aumento do aparecimento de aves e de outras espécies de animais, como as capivaras”, comentou o diretor-presidente da Cprh, Djalma Paes.

No município de Tamandaré, Litoral Sul, o secretário municipal de Meio Ambiente, Manoel Pedrosa, citou a experiência na praia de Carneiros onde, com a ausência de frequentadores, nasceram pés de mangue em uma área próxima à Igrejinha, ponto turístico de Tamandaré. “Eu moro aqui há 30 anos e nunca tinha visto mangue neste local. Sem a passagem das pessoas, a vegetação apareceu. Isto nos mostra o impacto que causamos no meio ambiente”, comentou Pedrosa. Já na área do Complexo Industrial Portuário de Suape, no município de Ipojuca, o isolamento social favoreceu a diminuição de 15% no lançamento de dois compostos químicos que poluem o ar: o dióxido de carbono (CO2) e dióxido de nitrogênio (NO2). “É uma redução representativa, mas, neste caso, só podemos comemorar, com a adoção de modelos produtivos que impactem menos o meio ambiente, o que vai gerar resultados positivos para a qualidade do ar”, disse Djalma Paes.

O cientista social e pesquisador de mercado, Roberto Harrop, há mais de 20 anos fotografa aves de Aldeia, no município de Camaragibe. Cumprindo a determinação do isolamento social, Harrop está no seu apartamento, no bairro do Espinheiro, no Recife.  E comenta: “Quando eu estou em Aldeia, acordo cedo, pego a minha máquina e capricho nas fotos. É uma paixão. Mas, não estou indo para lá. Então, parece que as aves resolveram colaborar para eu não perder, literalmente, o foco. Chegam junto à janela do apartamento e eu as fotografo. São minhas amigas. Diminuem a minha angústia, neste tempo de isolamento”, comentou o cientista social.

A jornalista e idealizadora do blog #OxeRecife, Letícia Lins, reside no bairro de Apipucos, na Zona Norte e conta a sua experiência. “Moro aqui há 34 anos e sempre convivi com a fauna silvestre. Mas, com a quarentena, aumentou muito a presença de animais no bairro. Vejo, inclusive, espécies que nunca tinham surgido por aqui, como pássaros que têm o peito e o bico vermelhos. Também o gavião carcará”. Os saguis, de acordo com a jornalista, apesar de abundantes na área, costumavam aparecer na sua residência, com pouca frequência. “Agora, eles nos visitam diariamente. Grupos de cinco ou seis saguis. Até um grupo com 12 deles. Uma fêmea que apareceu grávida voltou a nos visitar com o filhote às costas”, disse Letícia Lins, que vive cercada de aves de várias espécies, soltas na natureza: “visitas sempre bem-vindas”, comemorou.

Para o biólogo e coordenador do Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas Tangara) da Agência Estadual de Meio Ambiente (Cprh), Yuri Marinho, existem muitos animais silvestres em área urbana que não são percebidos. “Eles estão presentes nas matas, nos rios, no mar, próximo onde moram pessoas. Nós representamos perigo para eles e, por isto, não se aproximam. Como estamos reclusos, eles estão aproveitando para explorar ruas, calçadas, quintais e jardins. Experimentam a área e avançam, quando se sentem seguros”, explicou o biólogo. Mas, o que fazer se animais silvestres aparecerem na sua rua, no seu quintal? “Se o animal for observado próximo ao seu habitat natural, como uma capivara próxima ao rio, o ideal é deixá-la onde está. A não ser que o animal esteja machucado ou seja filhote perdido da mãe”, enfatizou. Devido à pandemia, o Cetas está recebendo apenas filhotes de animais, ou aqueles que estiverem feridos ou ainda animais que se encontram em vias de extinção. A entrega voluntária deve ser feita no Cetas Tangara, sob agendamento, pelo número 3182-9022. Enquanto durar a quarentena, este telefone é exclusivo para o agendamento de entregas voluntárias de animais silvestres que se enquadrem nos casos citados.

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Texto:  Letícia Lins e Franci Palhano (Núcleo de Comunicação Social e Educação Ambiental / Cprh)
Fotos: Letícia Lins (saguis), Luciana Siqueira (capivaras na Ilha do Leite),  Roberto Harrop (pássaros), Joany Deodato (manguezal), Felipe Costa (capivara do Jardim Secreto, Poço da Panela)

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2 comentários

  1. Ótimo texto, Letícia acho que esses animais, estão retornando aos espaços que eram deles e que invadimos. Já maltratamos tanto esse Planeta, que esse vírus veio para refletirmos. Ou a gente muda a postura e percebe que não estamos separados da natureza e que o mal que fazemos a ela, é a nos mesmos que fazemos, ou estaremos reféns de Vírus e mais vírus.

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