Por que somos todos Clarice?

Amiga  e confidente de longas datas dessa “escriba” aqui, Geórgia Alves é a pessoa mais Clarice (Lispector) que conheço no Recife. Completamente apaixonada pela obra da escritora, ela é uma das participantes da Festa Virtual do Livro, promovida pela Fundação Joaquim Nabuco, que será transmitida na quinta-feira (23/4)  pelas redes sociais da Fundaj, entre 6h da manhã e meia-noite. E que terá Clarice (1920 – 1977) como homenageada. Sua admiração pela autora de A paixão segundo G.H. começou aos 18 anos, quando ganhou de uma tia o livro Perto do Coração Selvagem. Foi uma descoberta literária que levou  Geórgia a uma viagem profunda ao seu próprio interior, e que terminou por conduzi-la a um saudável processo de autodescoberta.  Talvez a uma explicação para suas inquietudes. “Era tão parecida comigo”, lembra.

Desde então,  o que fez Geórgia, que aparece na foto acima com Augusto Ferraz (estudioso da obra e amigo de Clarice?  Mergulhou na obra daquela que é uma das autoras mais veneradas e discutidas no Brasil. E que chega a ser considerada a maior escritora judia depois de Franz Kafka e que  incita tantas discussões existenciais. No Recife, teve até um ano que a obra tão expressiva da autora motivou a formação de um bloco de carnaval, o Cansei de ser profunda, em homenagem à escritora. Como todos sabem,  Clarice passou parte de sua infância no Recife. O casarão onde morou, de frente para a Praça Maciel Pinheiro, encontra-se em ruínas. Infelizmente. Geórgia produziu uma dissertação de mestrado, Retrato do Recife em Clarice Lispector. São cerca de 180 páginas  ainda sem editora. Mas que rendem interessante livro, principalmente em 2020, ano que marca um século de nascimento da escritora. Fica, portanto, a dica para quem quiser publicar o trabalho (Cepe, alô, alô!). Geórgia não consegue parar de estudar autora, hoje quase uma obsessão. Porque Clarice é assim, a cada leitura ou releitura, uma  descoberta. Fiz algumas perguntas a Geórgia, que respondeu a todas com muita profundidade. Como profunda e abrangente é a obra de Clarice. E mostra que a leitura de Clarice lhe deu muitos mais ensinamentos do que a própria faculdade (graduação em Jornalismo).

#OxeRecife  – Porque somos todos Clarice? 
Geórgia Alves – Todo mundo que busca significado e significante para cada detalhe da vida, que quer ir mais fundo na compreensão das coisas, quem quer entender o espaço entre o um e o dois, onde aliás cabe uma infinidade de pontos, é um pouco Clarice. E nós, macabéus, Macabéa, nordestinos, brasileiros, imigrantes, seres híbridos e que lutam por uma sobrevivência com respeito às nossas humanidades, somos um pouco Clarice nesta hora. Afinal, o que mais impressionava nela era a capacidade das pessoas que se adaptam a uma nova cultura e um novo país, sem demérito a uma ou outra cultura, como fez o seu pai. Nas palavras da própria Clarice, quem busca essa felicidade que só pode mesmo ser clandestina, por estar relacionada a uma “minoridade”, como se diz em Literatura. Como no caso de Kafka, que foi capaz de escrever em alemão, o pensamento de um judeu que mal conseguia vencer a opressão do próprio pai. Por outro lado, tão amado e compreendido, que cativou multidões. A exemplo do que faz Clarice.

#OxeRecife – Quando surgiu sua paixão pela escritora?
Geórgia Alves – Tudo começou, e eu nem sabia, aos dezoito anos, quando uma tia me deu de presente Perto do Coração Selvagem. Minha mãe, estilista, socióloga, não sabia como conversar comigo sobre estas coisas do amor, do sexo, que vinham com a passagem para a vida adulta. Então, fiquei paralisada com o conteúdo do livro. Era tão parecido comigo… Descobri outros autores como Ítalo Calvino, Gabriel Garcia Marquez, o próprio Kafka. Alguma coisa foi me chamando de volta à obra dela, até que um amigo, no comecinho da minha primeira crise de mulher que completa trinta anos, deu de presente Uma aprendizagem ou o Livro dos Prazeres. Aquela identidade voltou com uma força poderosa, indomável. Enfim, com uma força tão maior que eu que não pude mais parar de ler, e reler, um livro atrás do outro.

#OxeRecife – Quais os livros de Clarice que você percorreu? Tem algum que goste mais?
Geórgia Alves – Enveredei por Água Viva, A maçã no escuro (um dos meus preferidos junto a Uma aprendizagem). Era uma coisa de linguagem própria,  de uma poética mesmo. Fiquei tão interessada no universo da autora que comecei a percorrer, além da trajetória dos romances (O que é A cidade sitiada, senão o Recife da memória e com marcas da criação?), as correspondências, os contos, as crônicas. Então, quando li A paixão segundo G.H., tinha lido as cartas que ela trocou com Fernando Sabino, de quando aceitou colaborar para a Revista Manchete, morando em Torquay, um período difícil para ela, porque teve um aborto espontâneo. E, por essas afinidades que começavam a me deixar um pouco impressionada, porque eu mesma não havia resolvido o meu. Tive a gestação exposta numa coluna social e quando veio a perda foi uma confusão no juízo. Até que fiz terapia, treze anos.

#OxeRecife – Onde ficam Clarice e a terapia nessa história toda?
Geórgia Alves – 
 Saí desse  segundo caos com o segundo filho nos braços e um estudo sobre um retrato que ela fez, por acaso, acho que meio sem querer, quando tinha doze anos e morava na Rua da Imperatriz.  A mãe de Clarice, Mânia Krimgold, havia falecido (setembro de 1930) e ela era tão boa em matemática que virou professora dos primos (Anatólio e Cecília). Por outro lado, a tia-avó dela, tia de Mânia, Dora Krimgold, era responsável pelo crescimento daquela adolescente. Tão bem retratada também enquanto faz o retrato dessas lembranças do Recife, a partir dos contos como: Felicidade Clandestina, Banhos de Mar, Uma amizade Sincera, Tentação e tantos outros textos que estão, mais especificamente, concentrados no período de 1967 e 1973, na coluna que ela assinava para o Jornal do Brasil, aos sábados. E foi meu foco de estudo. Pesquisei diretamente das páginas do JB.

#OxeRecife – Qual o resultado dos seus textos acadêmicos sobre Clarice?
Geórgia Alves – 
A necessidade de estudar a obra, de maneira organizada, com bases teóricas, veio quando meu filho completou dois anos. Então, em 2004, fiz a especialização, já me interessava por Espinosa e outros teóricos da ideia de “felicidade”, “ética” e queria estudar este aspecto da obra. Não deu certo, pela Academia, naquele momento. No entanto, não conseguia me afastar nem da obra, nem do tema, nem do estudo, nem da ideia de estudar melhor tudo isso. Depois de dez anos, quando os filhos estavam crescidos e até meio que independentes, concorri novamente ao Mestrado, dessa vez sendo selecionada com uma bolsa de estudos pela Pós-Graduação em Letras, da Ufpe (2015). Com ajuda do programa da Facepe, concluí e entreguei o trabalho antes do prazo. Fiz isso em dezembro de 2017. Ao mesmo tempo, durante a escrita da dissertação, cheguei a fechar a casa num guarda-móveis e fui para um hostel a 200 metros do Marco Zero para escrever com fidelidade sobre o Retrato do Recife de Clarice Lispector. Sentia uma certa identidade sim, claro que guardadas proporções abissais. Mas esta sensibilidade tão feminina, os cuidados com uma vida à mostra, os filhos, por outro lado o desejo de compreender mais sobre a natureza das coisas, os mistérios do mundo.

#OxeRecife – Quem mais influiu no seu aprendizado para a vida, Clarice ou a faculdade?
Geórgia Alves –
Há obras de Clarice que me desvelaram mais do que o que aprendi em quatro anos de faculdade. Embora a experiência de repórter ofereça tanta coisa a um indivíduo como revelação do mundo real. Foi uma busca irrefreável. Não tinha como domar este desejo de saber mais sobre as entrelinhas das obras, a história da época, a memória impregnada e nunca revelada de um Recife que é como uma pedra preciosa e muito bem escondida. Um tesouro escondido. Não sei se consegui tudo que esperava com o texto. O caminho da dissertação é técnico e precisa se provar pelas teorias. Pela Teoria Literária. Busquei muito material “bio”, para usar uma palavra dela, que tem a cara do que chamei de Recife de Clarice. Uma cidade distante do obscuro, do sorumbático, mais ligada à clareza do pensamento, da Claricidade, como tão felizmente pode expressar Hélène Cixous quando em A hora de Clarice, escreveu sobre a habilidade dela em trazer à luz do consciente os mistérios insondáveis do subconsciente. Para mim, existe um Recife que a gente vive e nem sabe como começou nem como termina, e outro que abriga segredos, árvores que guardam beijos secretos, pontes que conectam raças, épocas, sobretudo um certo fruir artístico. E que, infelizmente, pouca gente enxerga.

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Dica do #OxeRecife – Aproveite o isolamento social para conhecer melhor vida e obra da  fascinante escritora na Festa Digital do Livro, que a Fundação Joaquim Nabuco promove na quinta (23) e que tem Clarice como a grande homenageada. Em 2020, Clarice completaria um século de existência em dezembro. Portanto, 2020 é o ano de Clarice. Geórgia é uma das convidadas da Festa Digital do Livro da Fundaj. Maiores informações nos links acima e também no Serviço abaixo. Fique ligado!

Serviço:
Festa Digital do Livro
23 de abril de 2020, das 6h às 0h
flidfundaj.com.br
facebook.com/fundacaojoaquimnabuco
Instagram: @fundajoficial
Livre

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto:  Taciana Oliveira / Cortesia

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