A “herança” de Clarice Lispector nas escolas e na paisagem do Recife

Em 2020, a Secretaria de Educação do Recife escolheu como tema do ano letivo “100 Anos de Clarice Lispector: Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos”. Quando forem retomadas as aulas e finalizado o período de isolamento social, provocado pelo coronavírus, os estudantes terão uma decepção muito grande, caso queiram vivenciar um pouco da “atmosfera” vivida na infância de Clarice (1920-1977), quando ela residiu com a família em um sobrado, de frente para a Praça Maciel Pinheiro, antigo reduto de judeus, no Bairro da Boa Vista.

Aliás, tem quem considere Clarice a maior nome judeu da Literatura, depois de Franz Kafka (1883-1924). Mas nem o período em que a escritora morou no Recife nem a presença dos tempos que viveu na cidade em sua obra parecem sensibilizar as nossas autoridades. Pois embora a autora de  Perto do coração selvagem seja hoje reverenciada não só no Brasil, mas no mundo, o casarão de esquina onde morou quando menina está caindo.  Faltam portas, janelas e ruiu parte do telhado, apesar de ser incluído em roteiros culturais de agências de turismo ou de grupos que fazem caminhadas a pé, pelas ruas do Recife. O sobrado em que Clarice viveu com a família está, literalmente, em ruínas, como se observa na foto ao lado.

A menina Clarice nasceu na Ucrânia e viveu no Recife até os 14 anos de idade. Além dos livros adultos, Clarice escreveu livros infantis, como O mistério do coelho pensante, A mulher que matou os peixes, Quase de verdade e Doze lendas brasileiras: como nasceram as estrelas. As quatro obras integram o projeto Clarice vai à escola que, dentro do tema escolhido para o ano letivo de 2020, inclui a visita da “Professora Clarice”. Até aí tudo bem. Pois é educativo, instrutivo e salutar estudar nossos autores, incluindo-os no conteúdo das 312 escolas públicas do Recife. Cerca de 18 mil livros foram adquiridos para distribuir com as crianças.

O problema, no entanto, é quando a meninada for convocada para uma aula em campo, para conhecer o Recife de Clarice, começando pela casa onde ela morou. Que impressão terão nossas crianças, ao observarem em ruínas o patrimônio que faz parte de nossa cultura? Provavelmente indagarão: Se a mulher era tão importante, por que a casa que deveria ser um museu em homenagem à escritora  está quase caindo? As fotos foram feitas por meu querido amigo Fernando Batista, em sua última visita ao Recife. Antropólogo,  lamenta o abandono com que a memória da escritora é tratada.  Ele  mora em Salvado. Lá ou cá, costumamos conversar horas seguidas. Quase sempre Clarice salta no meio do diálogo para explicar alguma coisa em nossas vidas.

As autoridades esqueceram Clarice, deixaram sua memória ao abandono. Mas pelo que se observa, público não. O imóvel está entregue às baratas, é verdade. Mas em suas paredes externas há grafites e até cartazes em homenagem à escritora. Em um deles, há uma fotografia da charmosa mulher (sim, ela era charmosa). E a legenda: “Clarice é a vida”. Em uma outra legenda, pode ser lida uma frase que tem a ver com o terremoto interior da autora: “Demolir o medo”. Isso sem falar na foto maior, que abre esse post e que, de qualquer forma, lembra a elegância de Clarice. Uma metáfora inscrita através de luvas voadoras? Algum desejo preso? Não se sabe até quando. Até porque sempre há outro dia, outros sonhos, outros risos.*

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Dica do #OxeRecife – Veja, às 14h dessa quarta (22/4), aqui no #OxeRecife, entrevista com Geórgia Alves, sobre Clarice Lispector. Ela é autora da dissertação de Mestrado Retrato do Recife em Clarice Lispector.  E aproveite o isolamento social para conhecer melhor vida e obra da  fascinante escritora na Festa Digital do Livro, que a Fundação Joaquim Nabuco promove na quinta (23/4). E que tem Clarice como a grande homenageada. Em 2020, ela completaria um século de existência, no mês de dezembro. Portanto, 2020 é o ano de Clarice. Maiores informações nos links acima e também no Serviço. abaixo.

Serviço:
Festa Digital do Livro
23 de abril de 2020, das 6h às 0h
flidfundaj.com.br
facebook.com/fundacaojoaquimnabuco
Instagram: @fundajoficial
Livre

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Fernando Batista / Cortesia

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