Sessão Recife Nostalgia: Herculano Bandeira e os “jagunços” no Palácio

A gente, que lida diariamente com a comunidade e também com a notícia, vez por outra se defronta com fatos curiosos. Por exemplo, quando falo em um casarão antigo, ameaçado de desabar, surgem leitores relatando os bons momentos que passaram ali, contando boas  recordações do passado ao lado dos seus avós. Também ocorre, quando me refiro a algum personagem histórico do Recife. Já apareceram aqui descendentes do Conde da Boa Vista e até da lendária Branca Dias. O mais recente parente, no entanto, diz respeito a Herculano Bandeira (1850-1916), referenciado no último dia 12 de abril, aqui no #OxeRecife, por ter deixado nossa cidade cem por cento saneada, no início do século  passado. Uma realidade inacreditável para a situação com a qual nos defrontamos hoje (ver links abaixo).

Relatei esse fato, para mostrar o retrocesso que a cidade sofreu ao longo de 109 anos (ele foi governador de Pernambuco entre 1908 e 1911). Ou seja, dos cem por cento saneados, hoje esse percentual não chega a 30 por cento nos dias atuais, de acordo com estudiosos do assunto. Trata-se de um fato difícil de se aceitar, em pleno século 21. Pois foi só falar em Herculano Bandeira para Ricardo Bandeira (ao lado), morador do Poço da Panela, avisar. “Era meu tataravô”, diz. E relata curiosidades que as famílias sempre guardam dos antepassados.

Principalmente dos ilustres ascendentes. E me diz que tem em casa uma pintura (foto maior) do ex-governador) igual à da galeria de governadores do Palácio do Campo das Princesas. Lamenta que as pessoas não saibam muita coisa sobre os ex gestores pernambucanos. Herculano começou a carreira política como vereador, em Nazaré da Mata, em 1872. Entre aquele ano e 1911, foi deputado provincial, constituinte republicano, senador, deputado federal por três mandatos e, finalmente, governador. Também foi juiz, na cidade em que nasceu, em 1888, tendo sido nomeado por Rosa e Silva.  A julgar pelo que conta Ricardo,  além de político, Herculano era um  homem rico e poderoso, pois naquela época os usineiros representavam o poder político, quando a agroindústria açucareira era a principal atividade econômica de Pernambuco. Como era comum nos costumes de então, Herculano tinha seus jagunços, que representavam a segurança dos ricos senhores da terra.

Herculano era dono da Usina Mussurepe. Depois sua família adquiriu uma outra usina, a São José. Quando governador, “tomava todas as decisões referentes à usina, no gabinete do governo”, lembra Ricardo. “As coisas na época eram diferentes, a guarda palaciana era muito pequena, então, de imediato, Herculano trouxe da Usina, um bando com duas dúzias de jagunços pra manter a ordem e a sua segurança”, relata. “Jagunços estes, que salvaram Estácio Coimbra e Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (sobrinho de Herculano) de serem mortos pelas tropas do general Dantas Barreto, quando ele tentava tomar o governo”, conta.

O usineiro tinha, também, hábitos refinados. “Herculano, era um grande apreciador de música, do teatro e da ópera. Sempre que estava para acontecer alguma apresentação no teatro de Santa Isabel, ele pedia que fosse feita uma “pré-estréia” fechada, só para ele e sua esposa”, explica Ricardo, que é estudante de direito. “Não usava a frisa reservada para o governador ( que é bastante desconfortável e com vista péssima), sempre sentava nas frisas do primeiro andar”.  Para Ricardo, o seu antepassado teve grande importância na “criação política” de Assis Chateaubriand, seu sobrinho, que foi Deputado Federal, Senador e Embaixador do Brasil em Londres e empresário de sucesso, dono de um império das comunicações. “Sendo o único Brasileiro a comparecer à Coroação de Elizabeth II”, lembra, “Chateaubriand viria e se tornar um dos homens mais poderosos no mundo no século 20”. E, também, um dos mais polêmicos pois as biografias que não deixam mentir, ainda estão por aí (Chatô, o Rei do Brasil, de Fernando Morais, lembram?). O empresário “criou o Museu de Arte de São Paulo (Masp), a TV Tupi, O Museu de Arte Contemporânea de Olinda e sido dono dos Diários Associados”.   Para Ricardo, “Assis foi o pupilo político de Herculano, mas jamais imaginaria o velho, que o sobrinho chegaria ao patamar que chegou”.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Foto:  Gustavo Bandim (Cortesia/ Ricardo Bandeira)

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