Sessão Recife Nostalgia: Sítio Donino e seu antigo e ameaçado casarão

Há lugares que a gente nunca esquece. E casarões que nos marcam para sempre. Quando meus filhos eram crianças, costumávamos andar a pé pelo Poço da Panela, atualmente um dos mais silenciosos e bucólicos bairros da  Zona Norte do Recife.  E um pelos quais permaneço gostando de andar à toa, ainda hoje.  Naquela época, um dos passeios prediletos ali era ir à Rua Joaquim Javier de Andrade, que termina praticamente no Rio Capibaribe.  Sem calçamento – paisagem interiorana que se mantém – com árvores fincadas em plena via, ela tinha um atrativo especial: um casarão lindo, sem muros, que fica em área conhecida como o Sítio Donino.

Era cercada de um gramado verde, onde eu costumava sentar, vendo a meninada correr. Um dia, apareceu uma brava senhora e nos enxotou:  “aqui é área particular”.  E era, como não tinha muro, ficava fácil “invadir” o seu terreno.  Depois da bronca, nunca mais ocupei o espaço, mas sempre passeava por perto, contemplando aquele imóvel, que parecia cheio de mistérios. Ao longo das décadas, o casarão foi se deteriorando até não ser mais possível observar o estilo ecolético de sua beleza arquitetônica. O terreno está cercado com tapumes. Mesmo assim, quem não o conheceu em seus tempos áureos ainda se encanta com o “atmosfera” ao seu redor, caso da arquiteta e urbanista Marília Cavalcanti Farias, hoje cursando Mestrado na Ufpe. Ela fazia um trabalho de conclusão do seu curso de Arquitetura no Poço da Panela, quando deparou-se com aquela relíquia do nosso passado, em absoluta ruína, conforme mostram as fotos da galeria abaixo:

Em seu “Diário de Bordo”, Marília registrou: “Uma casa tão bonita, e tão triste. A gente quase que ouve ela tentando respirar, sufocada pelo muro. Espiando, na pontinha dos pés. Surradinha, sofridinha. Nem ela sabe se quer ser vista. Olha, discreta, por cima do muro. Um muro cinza, cheio de espinhos, e um portão azul: que azul tão novo! Mas na memória dessa casa não existe esse azul, não. A casa está escondida, mas essa é casa para se ver de longe. É daquelas que você fica imaginando o avô de barba branca, calça de linho cinza, de bengala, na varanda, lendo jornal e tomando café. Cheios – a casa e o avô – de histórias pra contar”.

O casarão despertou sensações românticas, mas de profunda tristeza em Marília, ao observar o estado  precário daquele verdadeiro patrimônio. O imóvel é tombado inclusive. “Dá vontade de tocar a casa inteirinha. Ali há um mundo de texturas. Fiquei pensando, e acho que as coisas antigas têm mais texturas do que as novas. Acho que isso faz sentido, é como a nossa pele quando começa a enrugar. A pele da casa estava enrugando”. No Ministério Público de Pernambuco há uma ação, solicitando a preservação da casa histórica. Teoricamente e legalmente não poderia ser derrubada, já que é tombada. Mas que se encontra em “vias de desabamento proposital, para construção privada”, assunto ao qual o #OxeRecife volta brevemente a se reportar, em defesa do nosso patrimônio histórico e arquitetônico, principalmente em um dos bairros do Recife onde o passado ainda é bem presente. Mas que tem gente querendo acabar com ele. Infelizmente.

Leia também:
Sessão Recife Nostalgia: Beco do Veado e outros becos
Sessão Recife Nostalgia: Solar da Jaqueira
Sessão Recife Nostalgia: a Viana Leal
Sessão Recife Nostalgia: os cafés do século 19, na cidade que imitava Paris
Sessão Recife Nostalgia: os banhos noturnos de rio no Poço da Panela
Sessão Recife Nostalgia: Maurisstad, arcos e boi voador
Sessão Recife Nostalgia: Ponte Giratória
Sessão Recife Nostalgia: Quando a Praça do Derby era um hipódromo
Sessão Recife Nostalgia: O parque Amorim e a lenda do Papafigo
Sessão Recife Nostalgia: a coroação da Rainha do Recife e de Pernambuco
Sessão Recife Nostalgia: Casa de banhos e o fogo das esposas traídas
Sessão Recife Nostalgia: o Restaurante Flutuante do Capibaribe
Caminhadas Domingueiras: Mergulho no estilo neocolonial do Recife
A República e o estilo eclético
O Recife através dos tempos
Vamos salvar o centro do Recife?
Cine Glória agora é Lin-Lin
São José e Santo Antônio ganham livro: viagem de quatro séculos de história
Caindo sobrado onde nasceu Nabuco
Lixo e abandono na casa de Clarice
Chalé do Prata começa a desabar

Lembram dele? O caso único  do edifício que teve duas fachadas simultâneas
Recife Antigo merece respeito 

Os primeiros das Américas
Olha! Recife explora a arquitetura da cidade 
Art déco: Miami ou Recife?
Aluga-se um belo prédio na Bom Jesus
O charme dos prédios da Bom Jesus
A presença estrangeira em nossa história
Passeio por 482 anos de história
Resgate histórico no Beco do Camarão
Rua da Imperatriz tem 26 lojas fechadas
Imperatriz tem 15 lojas fechadas
Imperatriz tem 26 lojas fechadas
Que saudade da Rua Nova

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Marília Cavalcanti Farias* ( da Galeria)  e Clarissa Garcia (fachada amarela) / Cortesia

Compartilhe

4 comentários

  1. Não podemos deixar a Casa do Sítio Donino cair! Parabéns pela reportagem comprometida com o acervo memorial e arquitetônica do Poço da Panela, em Recife. O primeiro morador foi um parente de José Mariano – grande abolicionista do Poço! Essa Casa tem história e cultura muito fortes.

  2. Letícia, no final da década de 90 eu trabalhava com fotografia e lembro desse casarão ainda muito preservado. Pedi licença para entrar e fotografar e fui muito bem recebido por duas senhoras. Na sala havia um piano e uma delas sentou para tocar. No final, virou-se para mim e perguntou: “de que família você é?”.

    1. Essa senhora provavelmente era minha tia avó. Esse sítio fez parte da minha infância. A casa ao lado do sítio pertenceu a minha avó Conceição.
      É uma pena o que o atual proprietário quer para destino de tão nobre moradia.

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.