Açude de Apipucos virou um lixão

A tristeza é grande, quando se caminha entre os bairros de Macaxeira e Apipucos. É que um dos principais cartões postais desse bucólico bairro da Zona Norte está se transformando em um lixão, como vocês podem observar na foto acima. E não é por falta de trabalho da Emlurb não. É  que o descarte irregular de lixo – garrafas, ventiladores, monitores, sofás velhos – é muito maior do que se imagina. Como se não bastasse a descarga diária de esgoto doméstico que o espelho d´água recebe. E pelo que dizem os pescadores que dele tentam extrair o sustento, o esgoto não vem só de áreas populares não. Mas, também, de residências sofisticadas construídas no seu entorno.

O Açude de Apipucos poderia ser uma opção de lazer para a população da Zona Norte. Até mesmo de banho, se não fosse a sujeira. Ele fica em uma parte bem mais alta do que o Rio Capibaribe, que recebe suas águas por um sangradouro, cujas tubulações passam sob a Avenida Dois Irmãos.  Mesmo assim, há quem arrisque. Diariamente, há dezenas de crianças e adolescentes se banhando no local. Pulam da pequena ponte e mergulham em suas água poluídas onde, muitas vezes, aparecem até animais mortos jogados pela população. Todos os dias, pelo menos dez homens da Autarquia de Manutenção e Limpeza Urbana do Recife (Emlurb) trabalham na retirada de lixo do Açude. No começo, era para recolher as baronesas, que pipocam por toda a superfície. E que são um indicador de excesso de dejetos orgânicos no local. Observe, no vídeo, que horror de lixo.

O trabalho no Açude não se limita à coleta das chamadas baronesas (ou pastas, como a população prefere chamar). No momento, há uma força tarefa de 20 garis tentando limpar o Açude. Mas quanto mais os garis tiram, mais o lixo aparece. As montanhas de detritos se acumulam às margens e não cessam de crescer.  E o trabalho é feito com a ajuda de balsa, barquinho e grandes garfos e pás.  Parece ser um trabalho inglório, porque os garis limpam em um dia. No outro, o que não falta é lixo boiando. De acordo com a Emlurb, nada menos de 25 toneladas de detritos são retiradas por mês do Açude. Ou seja: 300 toneladas de lixo por ano. Fora disso, as margens estão abandonadas e o que  seria um píer até hoje não foi concluído. Em concreto, as colunas expostas da obra inacabada servem apenas de local de pouso para as gaivotas que, em meio à poluição cerrada, ainda encontram um peixinho para comer.

O Açude de Apipucos figura em ilustrações do pintor Elezier Xavier, no livro de Gilberto Freyre  Apipucos, que há num nome? Nas aquarelas, o lago aparece cercado de verde, em meio a uma vegetação exuberante. Na  paisagem do início do século passado, as lavadeiras faziam grandes grupos e ali lavavam suas roupas de ganho entre conversas e cânticos, enquanto seus filhos empinavam pipas, naquela época chamadas de papagaios.  E não são de hoje os maus tratos impostos àquele belo lago.  No Guia Prático, Histórico e Sentimental da Cidade do Recife,  o escritor lembra as águas do Açude que “uns insensatos já pretenderam fazer secar, tendo as lavadeiras e os moradores se levantado em massa contra a infeliz ideia”. No ritmo que vai, no entanto, o Açude corre risco de secar, pois o que resta de sua água vem se transformando em uma massa escura e sólida. De lixo. Cadê a consciência desse povo, meu Deus? E educação ambiental serve para quê?

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Texto, vídeo e fotos: Letícia Lins / #OxeRecife

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