Carlos Alberto Asfora: entre a diplomacia, o canto e o violão

Conheço Carlos Alberto Asfora (foto acima) há mais de 20 anos, quando fomos apresentados por amigos comuns. Nascido no Recife, vivia com o pé no mundo. Diplomata, morou fora do Brasil a maior parte de sua vida, passando por países como França, Méxíco, Índia,  China,Holanda, Chile, Geórgia, África do Sul .  Falávamos, de vez em quando, via redes sociais. Agora, ele está de volta a Pernambuco, onde trabalha no escritório da Representação do Itamaraty para o Nordeste. Voltamos a nos encontrar casualmente no carnaval – no bloco Escuta Levino – quando soube que está com um CD de MPB prestes a ser lançado. Revela-me, então, uma face que eu não conhecia: Betinho, como é chamado pelos amigos, adora música. E cantar. E já usou o canto até nas relações diplomáticas da profissão. Nesta semana, pela primeira vez, nos encontramos na qualidade de entrevistador (o meu caso) e entrevistado (o “artista”).  Fiquem de olho, e não deixem de ir: o CD Bossa Nova SongBook, volume 4 Parte 2, será lançado às 19h da próxima quinta-feira (12/3), na Loja Passa Disco, localizada no Espinheiro. O evento é aberto ao público.

Betinho sempre conciliou a vida na diplomacia (onde está desde 1972) com o seu amor à música. Começou a dedilhar o violão ainda adolescente. Nunca fez curso, mas contou com a ajuda de alguns amigos para aprender a tocar o instrumento. Uma dessas pessoas foi Tereza Suassuna, de quem é amigo até hoje. Sempre gostou de cantar e tocar. Tanto que ao chegar a Brasília, ainda muito jovem – e onde morou por oito anos – realizava “luaradas” com os amigos. Ao ar livre, aproveitava as noites de lua cheia  para exercer a veia artística. “Vivíamos em uma ditadura, e Brasília quase não tinha vida cultural naquela época”, conta. “Então, fazíamos as ‘luaradas’ em acampamentos, perto de lagos ou mesmo em casa, para nos divertimos”, recorda, lembrando que no início, as noitadas eram então regadas aos vinhos Capelinha e Sangue de Boi, muito consumidos pelos jovens nos primeiros anos da década de 1970 porque eram bem baratos.

A Passa Disco está em festa na quinta-feira (12/03) para noite dupla de autógrafos de livro e CD, em evento aberto ao público.

Na quinta (12/3), a Passa Disco (foto) realiza um duplo lançamento: CD e livro, produzidos por diplomatas brasileiros. Betinho tem gosto eclético. Curte música do mundo, principalmente a francesa e a americana. Mas também adora MPB e Bossa Nova. Foi ouvindo coleção reunida por Almir Chediak (1950-2003), no século passado, que decidiu partir para gravar seu primeiro CD. “Ele lançou cinco volumes, mas eu criei um fetiche com o número quatro”, conta. “Ficava muito tempo sozinho em casa, quando morava na Holanda, e tocava muito. Foi aí que se deu o que podemos chamar de epifania. Pois o volume quatro só tinha músicas que eu gostava”, diz.  Em 2008, fez seu primeiro CD com músicos holandeses. Foram mil exemplares, distribuídos entre os amigos. Em 2010, viria um segundo volume, com voz (Asfora) e violão (Kees Gelderblom), que também foi presenteado.  E aí, começaram os convites dos amigos para se apresentar. Todo mundo sabe que os estrangeiros adoram MPB. A música contribuiu inclusive para melhorar o desempenho do seu ofício no exterior. O terceiro é o CD que vai ser lançado no Recife. E que teve parte gravada em estúdios na Europa e também no Brasil.

Na Geórgia, usou a música para exercer melhor suas funções. “No período de Dilma Rousseff na presidência, as representações diplomáticas do Brasil ficaram a pão e água”, lembra. Muitas vezes, custeou do próprio bolso algumas despesas da Embaixada.  Também usou a veia artística, para estabelecer relações com aquele povo. “Fiz concertos na Geórgia, como forma de difundir nossa cultura naquele país”, lembra. Na plateia, autoridades como os ministros da Defesa e da Educação daquela antiga república soviética. Um deles seria, depois, presidente daquela ex- república soviética. Chegou a se apresentar  na Filarmônica de Tbilisi (com a Tbilisi Band), na Ópera de Kutaisi (com Kees Gelderblom)  e no Conservatório de  Tbilisi (com Kees novamente).  Também em uma reunião com  Chanceler e todos os embaixadores residentes e cumulativos, foi cobrado a dar uma “canja”. Mas aí não cantou MPB. “Cantei What a wonderful word“, diverte-se.  Na próxima quinta-feira (12/3), Betinho estará na Loja Passa Disco, para lançar o CD, o primeiro a ser comercializado de sua carreira “artística”. Custará R$ 15. O lançamento ocorre a partir das  19h. A Passa Disco fica na Galeria Hora Center, na Rua da Hora, 345, Espinheiro. Na mesma noite, será lançado o livro O Acordeão Vermelho, de Kátia Gilaberte. Autora de três livros anteriores, ela acaba de ser premiada com seu último trabalho. Kátia é diplomata, e chefia no Recife o Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores no Nordeste.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Divulgação

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2 comentários

  1. Muito obrigado, Letícia. Pequenos reparos: comecei em 1974, vivi em Brasília de 1974 a 1982, vivi quase 4 anos na China (97/2001), gosto mais de música americana e francesa do que as que vc mencionou. O primeiro CD foi o Bossa Nova Songbook volume 4. Este agora é o Bossa Nova Songbook volume 4, parte 2.

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