“Falsa impressão de que arma é solução”

O #OxeRecife tem por objetivo discutir as questões da cidade, a cultura, o meio ambiente. Não é um blog sobre política. Mas algumas vezes, não há como se omitir diante de certas barbaridades que a gente vê pipocando nas redes sociais, nos jornais, nas entrevistas das autoridades constituídas deste país. E também nas nossas ruas, depois que  os figurões da República passaram a fazer apologia do que não presta:  devastação da Amazônia, falta de respeito às mulheres, difamação contra a imprensa, elogios a milicianos, ocupação de territórios indígenas. E a defender a banalização das… armas de fogo.

Não é à toa, portanto, que durante o nosso carnaval, o coro que se ouvia a cada bloco que passava era “Ai, ai, ai, Bolsonaro é o carai”. O boneco gigante do presidente, colocado nas ruas do Recife e Olinda durante o carnaval pela Embaixada dos Bonecos Gigantes, levou sopapos, vaias, e até uma massa branca foi atirada no seu rosto. Ou seja, Pernambuco, que não deu vitória ao Capitão na eleição, permanece do mesmo lado. Durante o desfile da Troça Carnavalesca Independente Nóis Sofre Mais Nóis Goza, um folião veio pedir para fazer uma selfie ao meu  lado – eu estava com o estandarte – e repetiu o gesto clássico do Capitão, até mesmo quando carrega crianças: o de quem está prestes a disparar o gatilho de uma arma. Eu disse: “Aqui não”. Essa banalização do uso de arma de fogo começa a render maus frutos, incluídos nas postagens dos “filhos” do Gabinete do Ódio, que dedicam a vida a repetir e divulgar o que vem lá de Brasília, como vocês podem ver aí no lado, onde eu até fiz um comentário.

Gosto muito da dona dessa conta no Instagram. É uma profissional séria, médica, companheira de trilhas e caminhadas. Amizade independente de posições políticas. Pois respeito as diferenças. Mas não consegui me calar, quando vi essa postagem acima à esquerda:  duas caixinhas de “meninas usam rosa e meninos usam azul”. Como vocês podem observar, o que está na caixa não é nenhuma enxoval ingênuo de bebê, tipo “camisinhas de pagão”, como eram chamadas as roupinhas bordadas de recém-nascidos ainda não batizados, normalmente abotoadas às costas que eram mais fáceis de vestir. Se o fato de se impor cor para definir sexo já é um horror, imaginem essa outra forma beligerante  de sexualizar as cores, que passa bem longe de qualquer cultura de paz.

A questão como a arma de fogo é tratada pelo atual governo, começa a fazer surgir, também, um tipo de peça publicitária que há muito tempo não se via, pelo menos nas ruas do Recife. Olhe só esse outdoor (foto abaixo) que foi flagrado pela minha amiga Sandra Branco, ali na altura do Cabanga, na Zona Sul. Veja bem qual a pergunta: “Você sabe usar uma arma ?” Eu não sei, nem quero aprender.  E nunca dei uma nem de brinquedo para os meus filhos. Nem mesmo ao único macho da prole. Mas deve ter gente achando que a hora de ensinar a usar é essa. Todo mundo sabe as consequências nas sociedades onde se compra arma como se compra um pirulito. E estão aí os diversos registros de crimes bárbaros,  assassinatos coletivos, nos Estados Unidos – por exemplo – que poderiam ter sido evitados, se seus autores não tivessem tão fácil acesso a armas de fogo. Já houve massacres em escolas, igrejas, nos quais centenas de inocentes perderam suas vidas.

Com a banalização com que as armas são defendidas pelo governo federal, já é possível se observar cartazes como este nas ruas do Recife.

Sandra está no meu time. Somos pacifistas, não belicistas. Eu odeio arma. Não gosto nem de ver. Para a jornalista e auditora fiscal, o cartaz  da foto nada mais é do que “um incentivo à violência, dando a falsa impressão de que arma é a solução”. E completa: “Fiquei chocada quando vi o outdoor”. Ficamos, todos, Sandra. As pessoas de bom senso também se chocam com aquelas caixinhas dizendo “meninas usam rosa” e “meninos usam azul”,  duas cores tradicionalmente associadas a recém nascidos. À inocência, a pessoas indefesas.

Infelizmente nem os bebês, podem ser inocentes no Brasil.  Isso porque,  mesmo que nada saibam da vida, já estão compulsoriamente ligados a  um símbolo tão forte da violência que assola  o mundo e a mente de pessoas doentias. Se a fala de Dona Damares “meninos vestem azul e meninas vestem rosa” já deu o falar, imaginem, então, mais essa novidade: “meninas usam rosa e meninos usam azul”. E usam o quê? Vocês estão vendo, na foto das duas caixinhas com as armas nas respectivas cores. É assim que se caminha para uma educação equivocada, com apologia à violência. Será que esse preceito vai chegar nas salas de aula da “escola sem partido?”

Leia também:
Menino veste azul e menina veste rosa?
Cuidado, armas à vista. Perigo!
Seres recolhe, mas não explica como armas entram em presídio  pernambucano
Azul e rosa na folia dos laranjais
Circo, Galo, frevo, festa e o carai
Filme revive fatos da ditadura de 1964
Livro oportuno sobre a ditadura (que o Presidente eleito diz que nunca existiu)
Lição de história sobre ditadura no Olha! Recife
Ministério Público recomenda que não se comemore 1964 nos quartéis do Exército
A história de 1968 pela fotografia
Cantadores: Bolsonaro é a marca do passado
“Nazista bom é nazista morto” chama atenção em muro do Exército
Ditadura: a dificuldade dos escritores
Fome, tortura, veneno e maniqueísmo
Público vai ter acesso a 132 mil documentos deixados pelo Dom da Paz
“Cárcere” mostra o Brasil da ditadura
Pensem, em 1964 já tinha fake news: bacamarteiros viraram guerrilheiros
Cinema dominado e poucas opções: Amores de Chumbo
Mutirão contra a censura de Abrazo
Censura de Abrazo vira caso de justiça
Fome no Brasil é uma grande mentira?
Ditadura nunca mais
Ministro manda oceanógrafo trabalhar na caatinga: e o Sertão já virou mar?
Servidor federal afastado porque fez a coisa certa

Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Sandra Branco e das redes sociais

Compartilhe

Um comentário

  1. Concordo inteiramente com tudo. Não podemos permitir que esta loucura tome conta do Brasil. Também sou pacifista e tenho horror a armas (qualquer que seja). Não podemos nos calar diante de tanta barbaridade!!!

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.