Assombrações no Zoo: De “Cumadre” Fulozinha à Motosserra Insana. Uiuiui

Se tem um assunto que a população do Recife adora, é a tal da assombração. E tanto é assim, que qualquer roteiro que envolva lendas urbanas e almas do outro mundo fazem o maior sucesso na Capital. Passeios realizados com o tema por grupos como MeninXs na Rua, Caminhadas Domingueiras e o próprio Projeto Olha! Recife (que é oficial)  normalmente atraem grande número de participantes.

Diz o jornalista e pesquisador do assunto, Roberto Beltrão, que o Recife “sem sombra de dúvida, é a cidade mais assombrada do Brasil”. O próprio Gilberto Freyre dedicou um livro a histórias que mexem com o imaginário da população: Assombrações do Recife Velho.  O assunto também já rendeu Recife Assombrado, o Filme, primeiro longa do diretor Adriano Portela. Romance de grande sucesso no passado, a Emparedada da Rua Nova (Editora Cepe) vende horrores em pleno século 21, pois muita gente acredita que a alma da filha “desonrada” de um rico comerciante do século 19 até hoje “aparece” nas madrugadas da Rua Nova (onde ficava a loja e moradia do seu pai).

Fantasma de lenhador, ao final da trilha na Mata de Dois Irmãos, provoca um grande susto: a motosserra insana ..

O fato é que já tem  até orquestra de frevo  navegando nas ondas das lendas urbanas, como é o caso de uma das mais recentes do Recife, a Malassombro. Dia desses, fui com a amiga Bárbara Kreuzig fazer o roteiro Zoo Noturno Mal Assombrado. Tivemos uma surpresa, ao chegarmos. Pois  era grande, a fila que se formou na entrada do Parque Estadual de Dois Irmãos: 161 pessoas, jovens em sua maioria, apareceram para fazer o passeio que incluiu uma trilha às escuras, no meio da mata, claro, cheia de assombrações.  O interessante é que todo o caminho foi permeado com aulas de educação ambiental. Por enquanto, não há outro Zoo Noturno Mal Assombrado programado, mas o sucesso da iniciativa levou a Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco (Semas) e o Pedi a estudarem o lançamento de novos passeios, tendo como atrações os fantasmas do Recife.

A programação foi organizada: o público foi dividido em grupos de 20 pessoas por ordem de chegada. Elas  esperavam a vez de sair, assistindo vídeos sobre o tema.  Eu e Bárbara pegamos as fichas 80 e 81, mas nem deu tempo de ver todos os vídeos exibidos. “Não conhecia a história completa de Cumadre Fulozinha”, comentou Bárbara, ao acabar de assistir um vídeo sobre a personagem, produzido em imagens de cordel. Cada grupo esperava apenas 30 minutos pela saída, de forma que houve momento que havia três conjuntos de pessoas em campo simultaneamente, todos acompanhados de monitores. O evento teve 20 funcionários, sete estagiários, dez voluntários e doze profissionais do núcleo artístico. E contou com apoio de uma indústria de biscoites, a Capricche,  que forneceu até lanchinho (para degustação e propaganda dos seus sabores, claro). Para o #OxeRecife, o personagem mais tenebroso foi o lenhador, que nos assustou com o barulho da motosserra insana, no final da trilha pela mata. Uiiiiiiii. Real demais para ser só um fantasma ou assombração. Só lembrei do Recife carente de verde e da campanha #ParemDeDerrubarÁrvores, do #OxeRecife.

Veja quais são os personagens  (fantasmas)que apareceram, no Zoo Noturno Mal Assombrado:

Tomás Lins Caldas (Seu Toné): Figura que viveu na primeira metade do século 19. Ele e o irmão, Antônio Lins Caldas,  eram donos do Engenho Apipucos, conhecido como Engenho de Dois Irmãos devido à  união entre eles. O personagem aborda o público dando-lhe as “más vindas” à terra que outrora lhe pertenceu, e onde atualmente moram  almas afim de protegê-la

Velho do saco: Ou também homem do saco, trata-se de um senhor que sai às ruas a procura de crianças, no geral “teimosas”. Existe relação deste ser com a lenda do Papa-figo, uma vez que o velho do saco recolhe crianças para que seu senhor se alimente do fígado destas (a exemplo do outro personagem, bem mais famoso). No Zoo, o Papa-figo aparece muito mais assustador, pois além da máscara terrível, ainda exibe o “fígado” da lenda que tanto temor desperta nas pessoas.

Loira do banheiro: ao ser invocada após ser chamada três vezes seguidas, uma jovem moça , de cabelo loiro, algodão tampando narinas e boca, vem em busca de quem a chamou. Esta lenda tem bastante ocorrência em banheiros públicos e é muito comentada no Recife. No Zoo, a menina se transforma em uma pessoa assustadora. Mas ela não aparece logo, pois é criado todo um clima de suspense. Os monitores desafiam uma pessoa “corajosa” a usar o banheiro. E essa pessoa diz não ter medo da jovem. Então decide ir até o toalete, provando que não teme alma nem assombração. Mas… de repente, um grito assustador.  É que o corajoso (normalmente um ator) é “agarrado” por ela ao entrar no banheiro. Todo mundo se assusta com o imprevisto, e até sai correndo diante da confusão.

Palhaço Triste ou Palhaço do Coqueiro:  Seu sonho era repetir o talento do pai, um palhaço famoso. Sem sucesso na empreitada, levou uma vida de tanta frustração que chegou à loucura. Em uma noite de fracasso no seu espetáculo, correu à praia, buscando solidão, quando subiu em um coqueiro e encontrou na lua o sorriso que não arrancava das pessoas. Revoltado porque a lua sumiu, desceu do coqueiro e ficou perverso, espancando as pessoas , obrigando as vítimas a rirem para ele. Ui!

A Cabra Cabriola:  Lenda que surgiu em Pernambuco no fim do século 19 e início do século 20. Trata-se de uma espécie de Cabra, meio bicho, meio monstro, que soltava fogo e fumaça pelos olhos, nariz e boca. Atacava quem andasse pelas ruas desertas nas noites de sexta ou entrava nas casas pelo telhado ou porta, à procura de crianças malcriadas e travessas. Parente distante do moderno chupa cabra.

Branca Dias: Foi uma rica senhora de engenho  que viveu onde no município de Camaragibe, e cujo engenho se estendia até onde fica hoje o Parque Estadual de Dois Irmãos. Judia, usava uma cruz na frente da casa, mas no interior professava a sua fé judaica, lendo a torá. Branca Dias praticava em segredo a religião judaica e sendo dona de uma magnífica coleção de objetos de prata sabia que  seriam  confiscada pela Inquisição.Então juntou todos os objetos valiosos os atirou em um riacho que corria no terreno da vasta propriedade na qual morava.  O riacho é o que chamam hoje de Açude do Prata, que ganhou esse nome devido à história da lendária portuguesa, que chegou ao Brasil no século 16.  Fala- se que em noite de lua cheia, os banhistas que ali se atrevem a chegar são expulsos pela aparição da judia que protege sua prataria. Ela “aparece” aos visitantes perto do Açude do Prata.

Menino do pirulito: Lenda do Zoológico de Dois Irmãos, que refere-se ao espírito de uma criança que em vida vendia pirulitos no local. Atraído por um gato, o menino caiu no recinto dos ursos, sendo devorado por eles. Sua aparição vem para alertar os visitantes  para que  fiquem atentos e longe do gato para não cair na armadilha que o mesmo caiu. A história começa sendo contada na estátua do vendedor de pirulito, assinada por Abelardo da Hora.

 

Papa-figo: Um Senhor rico é acometido por uma enfermidade. Médico nenhum consegue reverter o quadro de anemia. Seguindo recomendações de um de seus empregados, ele precisa comer “figo de menino novo”, pois as crianças não têm ainda tanta doenças como os adultos.O Senhor desesperado ordena que o criado sequestre as criança para consumir seu fígado. Eis que surge a relação do papa-figo e o velho do saco.

Cumadre Fulozinha (ao lado): mora nas florestas da Zona da Mata pernambucana. Guardiã da mata e dos animais, não admite a caça por diversão, castigando com uma surra  os inimigos das árvores. Ela usa cipós como chicotes, e pode  deixar o sujeito perdido, sem achar o caminho de volta (foto maior).  Lobisomem: Criatura que na  sexta-feira,  noite de lua cheia, vira metade homem, metade lobo. Só morre se levar tiros de balas de prata.

Homem da serra elétrica: Lenhador que derrubava árvores da mata em demasiado , deixando assim animais sem abrigo. Como castigo por matar as árvores, ficou perdido e foi condenado a viver até seu ultimo dia de vida na floresta. Diz- se que é possível ouvir sua voz, quando se tenta derrubar uma planta, assombrando quem estiver perto. No Zoo, ele aparece no final da trilha, com o barulho infernal da motosserra insana. Todo mundo corre com o susto, que soa sinistro no meio da mata.

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Texto: Letícia Lins / #OxeRecife
Fotos: Letícia Lins e Semas / Divulgação

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