A festa do trio de bonecos gigantes

No domingo, pela primeira vez em muitos anos, não estive no encontro Aurora dos Carnavais, que acaba de completar a maioridade. Também não pude marcar presença no divertido Bloco Coroas de Inox, do Hipódromo. Tive uma sessão de cinema no início da tarde, a convite do meu neto Henrique que, aos 16, está virando cinéfilo. Aliás, já virou.  Fomos juntos, mas nem me queixei de não ter comparecido aos dois eventos anteriores, aos quais já estivera muitas vezes em outros carnavais. Não queria perder o fantástico encontro de Zé Pereira e Vitalina, com o icônico Homem da Meia Noite, previsto para o final da tarde. Aí, matei dois coelhos com uma cajadada só: atendi ao pedido do netão querido ( a gente curte os mesmos filmes), e tive tempo de assistir ao desembarque do casal de “namorados” mais querido do Sertão do São Francisco.

Para os que não sabem: Zé Pereira e Vitalina são tidos como os bonecos gigantes mais antigos de Pernambuco. O primeiro completou seu primeiro centenário em 2019, quando veio ao Recife pela primeira vez, acompanhado de sua namorada, para comemorar o aniversário. Os dois são da cidade de Belém do São Francisco, localizada a 486 quilômetros do Recife. No ano passado, quando eles viajaram para o Recife, teve quem chegasse às lágrimas na cidade natal dos gigantes sertanejos, que nunca haviam deixado a caatinga. Mas estão a caminho de virar “arroz de festa” no pré-carnaval do Recife. Todos os anos, estarão aqui. O que é muito bom. Eles vieram para a capital pela segunda vez em 2020, para participar do Festival Bora Pernambucar, que se encerrou no domingo, no Museu Cais do Sertão. Sinceramente, dá emoção, ver os dois gigantes chegando, de barco, e assistir ao desembarque, no cais do Armazém 10 (onde hoje é o Museu), para cair na folia. O barco vem iluminado, com orquestra de frevo e, de longe, se observa a presença dos sertanejos. Se no ano passado poucas pessoas estiveram no Cais, em 2020 já era uma multidão, que delirou com o encontro de  Zé Pereira, Vitalina e do calungão de Olinda, o mais famoso gigante do Brasil.

Gigantes ganharam “banho” de chuva de prata, confete, serpentina: lindo encontro no Cais do Sertão: multidão

Além disso, o Bora Pernambucar tem outra vantagem. Se o carnaval do Recife é diversificado, o do interior do Estado a cada ano revela uma surpresa. Ou seja, traz manifestações até então desconhecidas no ambiente urbano do Recife. Primeiro, muita gente ignorava a existência de Zé Pereira e Vitalina. Segundo, quem sabia – por exemplo – de manifestações como os Caretas (Triunfo), Ursos (de São Caetano, bem diferentes das la ursas do Recife) e os tabaqueiros (de Afogados de Ingazeira)? Pois existem. E são muito divertidos. Para o #OxeRecife, em 2020, houve dois “poréns” intervalo longo demais entre uma atração e outra. E não teve cortejo de bonecos gigantes pelas ruas do Bairro do Recife, ao contrário do que aconteceu no ano passado. O que é uma pena. Tinha que ter. Em 2019, as manifestações foram mostradas de forma quase didática e em sequência.  A cada uma, o apresentador dizia o que era e a origem do grupo. Ouvi muitos comentários do tipo “ o que é isso?” ou “nunca tinha visto”, referindo-se aos grupos que apareciam.

Mas no último domingo, devido a problemas operacionais, não foi possível uma sequência de consecutivas apresentações. Elas foram separadas por longos intervalos,  provocando dispersão da multidão, que não sabia quando apareceria outra atração. Resultado: muita gente deixou de ver o que queria. De qualquer forma, duas inéditas atrações – os ursos cheios de brilho de São Caetano e os tabaqueiros (de Afogados de Ingazeira) – ficaram para o fim das apresentações de grupos. Ambos estavam pela primeira vez no Recife.  Solicitei os nomes dos grupos de ursos de São Caetano, mas até o momento de fechar esse post, a informação não havia chegado. E, para coroar do Bora Pernambucar, o público foi brindado com a Orquestra (nota dez) Malassombro e Alceu Valença. Tudo de graça.  O Bora Pernambucar foi idealizado pelo Secretário de Turismo de Pernambuco, Rodrigo Novaes (que é sertanejo) e se esforça por integrar a folia do interior com a da Capital. O festival contou com o reforço da Fundarpe, em sua segunda edição. O objetivo é incorporar o evento ao  calendário oficial do nosso carnaval.

E “bora”  pernambucar e diversificar! Mas sem fugir do espírito da festa – cada vez mais “contaminada” por iniciativas que nada ou pouco têm a ver com a tradição do carnaval pernambucano, como DJs e abadás. Estou mais para Zé Pereira e Vitalina do que para Safadão e Alok na nossa festa maior.

Veja o vídeo com a chegada de Zé Pereira e Vitalina:
https://www.youtube.com/watch?v=uIWM7kpQib0

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Texto, foto e vídeo: Letícia Lins / #OxeRecife

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